O cenário eleitoral brasileiro vive uma disputa presidencial acirrada e polarizada entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL), marcada por um intenso engajamento da militância e forte presença nas redes sociais.
A maioria do eleitorado já tomou sua decisão e as pesquisas indicam pouca mobilidade dos candidatos, com uma tendência de alavancagem de Lula, mas ainda assim com Flávio liderando a disputa. A dois dias do segundo turno, o que deve pesar mais para o eleitor que ainda não se decidiu?
Ao BdF Entrevista, o professor e cientista político Juliano Medeiros, que também é presidente da federação Psol-Rede, destaca que a intensificação do engajamento militante nas ruas e a liderança obtida no ecossistema digital nos dias decisivos foram determinantes para reverter a desvantagem do primeiro turno.
“O mais importante é a gente perceber que, em termos de engajamento militante, a campanha do Lula cresceu muito, muito mesmo. E isso é o que traz o resultado que nós temos agora em quase todas as pesquisas, que é um resultado de empate”, afirma.
Segundo o dirigente, essa mobilização de última hora reacendeu a disputa nas urnas. “Se está aberto o jogo, se está empatado como está, é porque houve uma reação muito importante nessa semana”, reforça.
Além do impacto eleitoral, Medeiros aponta que existe um cenário de transformação na dinâmica de comunicação e a necessidade de renovação das forças progressistas no Brasil. Ele apontou que as redes sociais tornaram a política mais cotidiana e direta, exigindo a superação de modelos tradicionais e a absorção de novas pautas trazidas por jovens e movimentos sociais.
“A gente tem hoje, nas forças hegemônicas da esquerda brasileira, uma dificuldade de assimilar. E não só das forças. Não quero dizer que o partido A, B ou C, às vezes os próprios dirigentes. É uma dificuldade de assimilar essa nova linguagem”, aponta.
Para o analista, o cenário expõe uma exigência inadiável de abertura para novos sujeitos políticos. “No fim das contas, nós ganhando ou perdendo a eleição, vamos ter que abrir espaço para o novo, e o novo bateu à porta agora”, afirma.
Juliano Medeiros enfatizou a urgência de a esquerda disputar todas as arenas da vida social e avançar na pauta da regulação das plataformas digitais.
“Não pode ser terra sem lei, isso aqui. Não é possível. Na Europa, agora nas eleições, o parlamento europeu aprovou uma lei que dizia que nenhum conteúdo da Meta ou de qualquer outra plataforma podia chegar mais para um candidato do que para outro. Eles chamam isso de transparência algorítmica. E isso é possível de mensurar, porque tem um órgão regulador, já muito consolidado na Europa, que consegue medir isso. Lá tem os instrumentos de medição. Então nós vamos ter que encarar essa discussão da regulação, porque senão a gente vai chegar num lugar em que nós somos reféns, não tem jeito. Tem um fenômeno que vem de fora e eu vou ficar refém? É um debate incômodo, mas vamos ter que encarar”, defende.
O cientista político alerta para a assimetria de forças por causa do direcionamento algorítmico, em que há “uma guerra onde tem um exército com um canhão descendo uma montanha e a gente com uma tropa armada de fuzil subindo uma montanha”. Medeiros defende que o campo popular não pode se omitir de nenhum espaço de convivência e organização da sociedade. “Onde tem vida social sendo construída, é terreno de disputa”, resume.
Para ouvir e assistir
O BdF Entrevista vai ao ar de segunda a sexta-feira, sempre às 16h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo.

