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Vitória de Lula é começo da derrocada da extrema direita no mundo?

Para Jairo Pimentel, virada histórica mostrou que mobilização popular e pautas econômicas podem barrar conservadorismo

Crédito: Paulo Pinto / Agência Brasil
Lula vence em virada histórica sobre Flávio Bolsonaro | Crédito: Crédito: Paulo Pinto / Agência Brasil

Em uma virada histórica, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) abriu uma diferença de mais de 4,4 milhões de votos sobre seu adversário, Flávio Bolsonaro (PL), no segundo turno e se reelegeu para o quarto mandato como presidente da República. O resultado das eleições brasileiras a partir de muita mobilização popular terá força suficiente para representar o começo da decadência da extrema direita nas Américas?

Ao BdF Entrevista, Jairo Pimentel, professor da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP), destacou que a vitória do candidato do PT difere do padrão observado globalmente, em que candidaturas de direita foram sendo paulatinamente derrotadas pela extrema direita, e pode indicar uma saturação dessa lógica.

“A vitória de Lula ganha ainda esse respaldo, dado esse contexto de aumento da extrema direita no mundo. Mostra talvez que a gente esteja em um momento de esgotamento desse crescimento da extrema direita, sobretudo com o Donald Trump, que também apoiou várias candidaturas da extrema direita mundo afora, como no Canadá, como na Austrália, enfim, na Bulgária, e todas as candidaturas saíram. perdendo das urnas. E vários outros cenários também em que a gente vê que a extrema direita perdeu força”, pontua.

Pimentel explicou que o cenário do segundo turno foi improvável e marcado por uma rápida reversão de votos na reta final da campanha. “Historicamente, no Brasil, a gente observa que, em 70% dos casos, o candidato eleito é o que chega ao segundo turno em primeiro lugar. E o cenário era mais desafiador para o presidente Lula, porque, nessa eleição, aqueles eleitores que votaram em outras candidaturas votaram em candidaturas muito mais à direita”, avalia.

O professor observa que o avanço de Lula foi impulsionado pela intensa mobilização nas redes sociais, pela atuação dos jovens nas mobilizações de rua e pela introdução de pautas econômicas e trabalhistas de grande apelo popular, como o fim da escala 6×1. “Essa movimentação final, esse sprint final, num momento em que as pessoas estavam muito ansiosas e com muitas dúvidas, se deve a essa virada que realmente era improvável e nesse sentido histórico”, ressalta.

Ao abordar as contestações ao resultado por Flávio Bolsonaro e aliados, o professor destacou que os dados técnicos não apontam qualquer impacto da prorrogação de duas horas da votação a partir da decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) no resultado das urnas. Os votos computados após as 17h não chegaram a 35 mil e a diferença entre os dois candidatos foi de mais de 4 milhões.

Segundo Jairo Pimentel, as narrativas de fraude e o questionamento da legitimidade do pleito refletem a dinâmica interna de grupos políticos radicais, como é o bolsonarismo. O cientista político enfatizou que a descrença na votação eletrônica decorre da forma como a bolha opera. “As próprias lideranças insuflam essas teorias da conspiração e fazem com que o processo democrático e a legitimidade do processo eleitoral sejam questionados”, pontua.

Em relação ao novo mandato de Lula, Pimentel aposta em desafios econômicos e de governabilidade significativos, especialmente na relação com o Congresso Nacional, muito mais conservador. “Eu acho que ele vai tentar fechar um pouco a torneira dos orçamentos, do orçamento secreto, enfim, de todo aquele tipo de orçamento que não é discricionário, que acaba sendo a decisão de como o deputado vai aplicar essa verba. Ou seja, voltar a um cenário antes de Jair Bolsonaro, em que o executivo tinha mais controle do orçamento e podia gastar de maneira mais sensata. O Congresso, por sua parte, tende a reagir”, afirma. 

Somado a isso, o plano de expandir a comunicação digital demandará canais eficazes para lidar com demandas sociais diversas. “Entender melhor como esse discurso vai ser posto em prática é um desafio para nós nos próximos anos”, resume.

Para ouvir e assistir

O BdF Entrevista vai ao ar de segunda a sexta-feira, sempre às 16h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo.

Editado por: Gia Matheus Almeida

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