Em uma virada histórica, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) abriu uma diferença de mais de 4,4 milhões de votos sobre seu adversário, Flávio Bolsonaro (PL), no segundo turno e se reelegeu para o quarto mandato como presidente da República. O resultado das eleições brasileiras a partir de muita mobilização popular terá força suficiente para representar o começo da decadência da extrema direita nas Américas?
Ao BdF Entrevista, Jairo Pimentel, professor da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP), destacou que a vitória do candidato do PT difere do padrão observado globalmente, em que candidaturas de direita foram sendo paulatinamente derrotadas pela extrema direita, e pode indicar uma saturação dessa lógica.
“A vitória de Lula ganha ainda esse respaldo, dado esse contexto de aumento da extrema direita no mundo. Mostra talvez que a gente esteja em um momento de esgotamento desse crescimento da extrema direita, sobretudo com o Donald Trump, que também apoiou várias candidaturas da extrema direita mundo afora, como no Canadá, como na Austrália, enfim, na Bulgária, e todas as candidaturas saíram. perdendo das urnas. E vários outros cenários também em que a gente vê que a extrema direita perdeu força”, pontua.
Pimentel explicou que o cenário do segundo turno foi improvável e marcado por uma rápida reversão de votos na reta final da campanha. “Historicamente, no Brasil, a gente observa que, em 70% dos casos, o candidato eleito é o que chega ao segundo turno em primeiro lugar. E o cenário era mais desafiador para o presidente Lula, porque, nessa eleição, aqueles eleitores que votaram em outras candidaturas votaram em candidaturas muito mais à direita”, avalia.
O professor observa que o avanço de Lula foi impulsionado pela intensa mobilização nas redes sociais, pela atuação dos jovens nas mobilizações de rua e pela introdução de pautas econômicas e trabalhistas de grande apelo popular, como o fim da escala 6×1. “Essa movimentação final, esse sprint final, num momento em que as pessoas estavam muito ansiosas e com muitas dúvidas, se deve a essa virada que realmente era improvável e nesse sentido histórico”, ressalta.
Ao abordar as contestações ao resultado por Flávio Bolsonaro e aliados, o professor destacou que os dados técnicos não apontam qualquer impacto da prorrogação de duas horas da votação a partir da decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) no resultado das urnas. Os votos computados após as 17h não chegaram a 35 mil e a diferença entre os dois candidatos foi de mais de 4 milhões.
Segundo Jairo Pimentel, as narrativas de fraude e o questionamento da legitimidade do pleito refletem a dinâmica interna de grupos políticos radicais, como é o bolsonarismo. O cientista político enfatizou que a descrença na votação eletrônica decorre da forma como a bolha opera. “As próprias lideranças insuflam essas teorias da conspiração e fazem com que o processo democrático e a legitimidade do processo eleitoral sejam questionados”, pontua.
Em relação ao novo mandato de Lula, Pimentel aposta em desafios econômicos e de governabilidade significativos, especialmente na relação com o Congresso Nacional, muito mais conservador. “Eu acho que ele vai tentar fechar um pouco a torneira dos orçamentos, do orçamento secreto, enfim, de todo aquele tipo de orçamento que não é discricionário, que acaba sendo a decisão de como o deputado vai aplicar essa verba. Ou seja, voltar a um cenário antes de Jair Bolsonaro, em que o executivo tinha mais controle do orçamento e podia gastar de maneira mais sensata. O Congresso, por sua parte, tende a reagir”, afirma.
Somado a isso, o plano de expandir a comunicação digital demandará canais eficazes para lidar com demandas sociais diversas. “Entender melhor como esse discurso vai ser posto em prática é um desafio para nós nos próximos anos”, resume.
Para ouvir e assistir
O BdF Entrevista vai ao ar de segunda a sexta-feira, sempre às 16h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo.

