redes e ruas

Mobilização popular será fundamental para governabilidade de Lula 4, analisa socióloga

Para Maria Carlotto, Lula dependerá da manutenção da pressão social sobre o Congresso para garantir reformas estruturais

Crédito: Paulo Pinto / Agência Brasil
Presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi reeleito para o quarto mandato | Crédito: Crédito: Paulo Pinto / Agência Brasil

A mobilização nas ruas e nas redes foi central para a virada de Lula no segundo turno, e o próprio presidente já afirmou que vai mudar sua maneira de governar e, especialmente, de se comunicar com a população. Na última semana de campanha antes do segundo turno, houve um movimento de migração de votos — em muitos casos por parte de pessoas que nunca tinham votado em Lula — que reconheceram a necessidade de defender a democracia e guardam muita rejeição à família Bolsonaro.

Ao BdF Entrevista, a cientista social Maria Carlotto, professora da Universidade Federal do ABC (UFABC), afirma que, alguns dias após o primeiro turno, começou a perceber um ascenso da campanha de Lula, que ainda tinha muito para crescer, e, ao mesmo tempo, que a candidatura de Flávio Bolsonaro (PL) havia atingido o teto. “Logo depois do primeiro turno, eu cheguei a declarar que íamos viver um levante popular no Brasil e foi exatamente o que aconteceu”, aponta. 

Carlotto pondera que o medo do bolsonarismo foi um fator importante, mas apenas esse elemento não seria capaz de promover a virada. “O segundo turno fez com que o medo se transformasse em esperança e mobilizasse as pessoas num processo político que a gente vai demorar muito tempo ainda para entender”, avalia.

Para ela, houve também um processo de politização, em especial a partir de 2016, no golpe contra Dilma Rousseff. “Nós vivemos acontecimentos políticos de grande magnitude. A gente viu um golpe em 2016, a gente viu a prisão do Lula, a gente viveu a ascensão da extrema direita, a gente viu o Lula sair da cadeia e voltar à presidência da República. Então foram acontecimentos políticos, num contexto mundial muito conturbado, que fizeram com que a população brasileira se politizasse”, afirma.

Com relação a projeções para o governo Lula 4, a socióloga argumenta que a governabilidade precisará se apoiar na força contínua da pressão popular, e não apenas em conciliações institucionais com o Centrão ou em exigências de ajuste fiscal. “Milhões de pessoas apostaram nesse quarto mandato do Lula. Milhões de pessoas se mobilizaram.”

“Se a gente não entregar para essas pessoas resultados, isso vai gerar um ressentimento, uma onda negativa, digamos, que vai ser trágico. E o Lula tem consciência disso. Ele precisa entregar para essas pessoas um quarto mandato muito mais avançado. Você não vai construir isso sem mobilização social. A governabilidade que a gente precisa construir é ampliar e muito essa mobilização e canalizar isso para uma pressão sobre o Congresso para que a gente possa fazer as reformas estruturais que o Brasil precisa para virar uma página de 500 anos da sua história. Uma página de dependência, de desigualdade e a gente ir realmente para um outro lugar”, defende.

No âmbito internacional e das relações exteriores, Maria Carlotto classificou as eleições brasileiras como uma das mais decisivas do milênio por reafirmar a soberania do país e a sua posição estratégica no Brics e no Sul Global.

“Nós estamos num contexto de guerra internacional, e é guerra mesmo. Em vários lugares a gente tem guerra, e o que acontecesse aqui seria decisivo para a geopolítica dos próximos 30 anos”, pontua.

Ela acredita que a experiência de mobilização do eleitorado brasileiro passou a ser vista como uma referência para movimentos progressistas em outros países. “Eles mobilizaram ruas e redes com uma base popular e uma agenda ousada para enfrentar a extrema direita. E essa é a fórmula”, sintetiza.

Confira a entrevista completa:

Para ouvir e assistir

O BdF Entrevista vai ao ar de segunda a sexta-feira, sempre às 16h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo.

Editado por: Gia Matheus Almeida

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