O Congresso que tomará posse em 2027 contará com forte presença da extrema direita e deve ser uma pedra no sapato do quarto mandato do presidente reeleito Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Durante os anos de Lula 3, o presidente já precisou encarar alguns reveses. A tendência, contudo, é que esse tensionamento aumente, já que o PL, sigla que representa o bolsonarismo, elegeu 121 deputados e 29 senadores.
A fuga de Flávio Bolsonaro (PL) após perder as eleições, no entanto, pode modificar em alguma medida essa correlação de forças, já que a maioria dos quadros aliados desaprovou a atitude, em especial depois da carta golpista questionando o resultado do pleito.
Ao BdF Entrevista, a cientista política Daniela Constanzo afirma que, neste momento, a extrema direita está um pouco enfraquecida, impactada pelos acontecimentos e também porque os eleitos ainda não tomaram posse. Portanto, acredita que, tão logo o ano comece, isso poderá mudar.
“A oposição não tem poder de veto exatamente sozinha no Congresso, porque, pelas minhas contas, o bolsonarismo é 31% das cadeiras, mas ela tem um poder de veto muito importante no Senado, onde é metade das cadeiras”, pondera.
A analista destaca que, diante desse cenário, Lula já começou uma série de articulações com o Centrão, que teve uma leve redução de 50% para 45%, inclusive para pautar temas importantes antes de o ano terminar. “Quando ele foi eleito em 2022, ele tentou contornar o teto de gastos ainda em 2022, antes de tomar posse. Isso é importante porque o presidente chega com uma moral um pouco maior”, afirma.
De acordo com Constanzo, Lula não conseguirá fugir da dependência do Centrão para governar, e a concessão de ministérios a partidos da coalizão já não assegura a fidelidade irrestrita das bancadas no plenário. “O Centrão hoje tem as suas próprias emendas; as emendas são obrigatórias. Um ministério não significa tanto dinheiro, porque a maioria das despesas já é obrigatória do Executivo. Então acaba que o Congresso não tem tanto interesse em ter um ministério e já votar com o governo. Não adianta você dar um ministério e esperar que todos os votos daquele partido venham para você”, pontua, observando que o governo precisa negociar item por item. “Agora, cada pauta, você vai lá negociar com todo mundo. E o que isso significa? Que as pautas mais populares são mais aprovadas. A gente viu agora o fim da escala 6×1”, ressalta.
Em meio a esse cenário, o governo enfrentará algumas batalhas, como a aprovação da Tarifa Zero aos finais de semana, que é uma promessa de campanha, e as indicações de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), que precisam ser aprovadas pelo Senado. “A Tarifa Zero é um tema que vai ser muito disputado. Eu acho que só vai passar se tiver muita mobilização popular, como a gente viu na 6×1. Também tem a PEC da segurança, que o Lula também está querendo passar agora. Ele quer aproveitar esse momento, que é mais fácil de negociar e passar essa PEC, que também seria muito importante para o governo dele”, avalia.
Nesse sentido, Constanzo considera que o engajamento da sociedade nas discussões e a mobilização popular nas ruas terão papel de grande importância para garantir a governabilidade de Lula. “Eu acho que teve uma parte da população que saiu às ruas, puxada muito pelos jovens, e que também saiu às redes, vamos dizer assim. Teve essa mistura fundamental entre ruas e redes, que a gente viu acontecendo nesse segundo turno, que vai ser fundamental para o governo poder governar”, afirma. “O campo progressista aprendeu de novo que tem um poder de mobilização, e isso vai ser fundamental para poder pressionar no Congresso”, resume.
Confira a entrevista completa:
Para ouvir e assistir
O BdF Entrevista vai ao ar de segunda a sexta-feira, sempre às 16h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo.

