Nenhum partido conseguiu formar maioria no Knesset, o parlamento israelense, após as eleições gerais que aconteceram no início da semana. Neste cenário, as legendas que conseguiram votos expressivos correm para construir coalizões. A expectativa da oposição seria impor uma derrota a Benjamin Netanyahu. Para isso, contudo, teriam que compor o bloco com partidos árabes.
Para a realização dessa possível aliança, há um entrave que tem se mostrado intransponível: a orientação sionista, presente mesmo nos partidos de oposição. Ao BdF Entrevista, Yoáv Goldring, do Partido Comunista de Israel, explica que essa posição acaba por excluir dois públicos que poderiam dar a maioria das cadeiras no parlamento e destruir Netanyahu: o público árabe e o ultraortodoxo. “O líder Eisenkot, que é o líder do segundo maior partido, já declarou que esse é o governo que ele quer fazer”, destaca.
Goldring relata que, ano após ano, Netanyahu não tem medido esforços para deslegitimar a participação do público árabe na política, inclusive com propaganda abertamente racista. Nesse sentido, considerando as formações da oposição e a participação nas eleições, o especialista avalia que a conquista já pode ser considerada sem precedentes. “O comparecimento do público palestino às urnas foi maior do que em qualquer eleição anterior. A gente subiu de 38% para 70%. É um voto de raiva, de luta, mas também de desejo a participar e fazer parte na retirada do Netanyahu do poder”, explica.
O caráter sionista da oposição israelense acaba refletindo diretamente na forma como a questão palestina, a expansão colonial e o genocídio são abordados. Eisenkot e o bloco opositor representam, segundo Goldring, “uma tradição, que também é o sionismo tradicional, de falar de uma opção de um Estado palestino enquanto fortalecem os assentamentos”. Ou seja, eles aceitam a criação do Estado, mas mantendo a maioria israelense, o que não passa nem perto da defesa da autodeterminação palestina por princípios de direitos humanos ou libertação nacional. “Eles não negam ou até apoiam um teórico Estado Palestino para manter a maioria judaica, porque, se você confisca a Cisjordânia sem criar um Estado Palestino e dá direito a voto, aí a maioria judaica não existe mais”, explica.
“É muito evidente que o Netanyahu, com os atuais parceiros dele no governo, tem uma ideologia da grande Israel. Eles têm uma ideologia de nunca, de não definitivo para o Estado Palestino, entre o rio e o mar, em nenhum pedaço. Isso é uma ideologia que eles tentam fazer por meio de limpeza étnica e de assentamentos”, compara. “Deixar Netanyahu seria uma continuação da catástrofe. Estamos escolhendo entre o mal e o pior”, resume.
Confira a entrevista completa:
Para ouvir e assistir
O BdF Entrevista vai ao ar de segunda a sexta-feira, sempre às 16h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo.

