Nesta terça-feira (3), os eleitores dos Estados Unidos participam das midterms, as eleições de meio de mandato, que medem a popularidade do presidente Donald Trump, que tem mais dois anos de governo, além de escolher novos deputados e trocar parte do Senado.
O contexto interno econômico e o envolvimento do país em conflitos como o do Irã têm gerado reprovação do republicano. Ao BdF Entrevista, Fernando Brancoli, professor de Relações Internacionais da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a discussão deixa de ser sobre se a base governista perderá cadeiras, mas qual será a dimensão disso. “Pode ser a maior lavada dos democratas, do partido de oposição, nos últimos 40 anos”, aponta. “Tradicionalmente, o presidente perde poder ao longo das eleições de meio de mandato”, conta.
Para Brancoli, as grandes dificuldades que serão enfrentadas por Trump serão orçamento, a dinâmica de conflitos internacionais e investigações que o presidente e seus secretários de governo terão que encarar.
“Ele [Trump] vem pedindo orçamentos extras emergenciais, o que obviamente demanda um cargo e uma possibilidade política um pouco mais potente, porque acaba sendo algo de excepcionalidade ou algo que o valha”, conta. Sobre o conflito no Irã, o professor destaca que “Trump está desesperado” para encontrar uma saída para a guerra. “Pode até parecer meio esquisito, mas pode ser que ele até gostaria de dizer: ‘Olha, eu queria continuar a guerra, mas os democratas me obrigaram a sair'”, avalia.
“Trump vem sendo acusado de uma série de malfeitos, desde que ele teria ganhado dinheiro pessoalmente, usando informações ou fazendo declarações no cargo da presidência. Eu lembro também, ele, por exemplo, lançou uma moeda própria para ganhar alguns milhões de dólares e figuras do próprio entorno do presidente, filhos, cunhados, genros; todos, em alguma medida, são também acusados desse tipo de processo”, aponta, ao destacar que Trump terá que responder a tudo isso diante de um Congresso que estará, certamente, modificado e mais hostil a ele.
Sobre esse último ponto, o professor traça até mesmo um paralelo com as CPIs no Brasil, que são comissões que muitas vezes acabam por não “dar em nada”. Segundo ele, a importância de modalidades como a CPI é dominar a agenda e obrigar o presidente a se defender. “Mesmo imaginando que Trump consiga esquivar de uma condenação ou mesmo de um processo maior de investigação, você tem, obviamente, uma agenda negativa sendo gerada por parte desse processo e o presidente na defensiva”, explica.
Fernando Brancoli destaca a atuação de alguns apoiadores tradicionais de Trump na campanha, entre eles, Elon Musk, que, na rede social X, da qual é dono, tem dedicado a impulsionar conteúdos de ataques aos democratas. “Quem ainda está no X, antigo Twitter, vai reparar que ele vem, inclusive, patrocinando, que não é patrocinando porque a empresa é dele, então ele coloca o que quiser lá, ataques aos democratas de maneira recorrente. Então não é só dinheiro que ele tem mobilizado, mas também ações de ataque, de acusações, beirando às vezes algo que é quase risível, mas tem impacto de pânico moral e a ideia de que migrantes vão invadir os Estados Unidos no dia seguinte, os democratas voltarem ao poder e todas essas sandices que a gente tem ouvido”, relata.
Já a campanha dos democratas tem focado em resgatar a memória de figuras populares, como o ex-presidente Barack Obama. “É uma das figuras mais populares dos democratas que ocupou um cargo importante ao longo dos últimos anos. Os vídeos que circulam na internet são fascinantes porque, apesar de velho, o tempo passou para o Obama com bastante energia. Ele entra pulando e fazendo piada, ainda tem uma cabeça muito boa. A gente tem visto também o crescimento de lideranças ao longo desse processo, de pessoas que estão concorrendo ao Senado, seja no Texas, com o Talarico, em Ohio, no próprio Kansas e no Alasca, em que os democratas agora se colocam um pouco representados, e eu diria, materializados pela figura do prefeito de Nova York, o democrata Mandami”, argumenta.
Confira a entrevista completa:
Para ouvir e assistir
O BdF Entrevista vai ao ar de segunda a sexta-feira, sempre às 16h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo.

