O ex-presidente Jair Bolsonaro está preso. Os filhos Flávio e Eduardo fugiram para os Estados Unidos. Apesar de Carlos, Renan e a primeira-dama Michelle seguirem no Brasil e estarem eleitos, há um espaço simbólico vago pela extrema direita nos rearranjos de poder. Quem deverá ocupar esse lugar?
Ao BdF Entrevista, o filósofo e professor da PUC-Rio Rodrigo Nunes, autor do livro “Do transe à vertigem: Ensaios sobre a extrema direita e um mundo em transição”, avalia que, mesmo sem feitos relevantes, a família Bolsonaro tem um poder nuclear e de indiscutível influência na política brasileira, impulsionado sobretudo pela conjuntura de 2018 e pela canalização do sentimento antipetista.
“A gente pode pensar que a família Vargas já era uma família influente em alguma medida no Rio Grande do Sul, depois uma família que se torna influente nacionalmente depois do governo Vargas, que é um governo muito transformador na história do país. A família Bolsonaro se torna uma família importante sem ter tido nenhuma grande realização”, pondera.
Para Nunes, Bolsonaro teve sucesso durante um tempo na política ao focar em um nicho muito específico da sociedade: os militares. “É com esse público que ele dialoga, seja os corporativos desse setor, seja defendendo uma certa nostalgia da ditadura militar. Ele consegue construir um capital político inicial a partir disso e aí vai conseguindo encaixar os seus outros filhos na política”, avalia.
Nos anos que antecederam a chegada do Bolsonarismo à presidência, houve as jornadas de junho de 2013 (nas quais a população manifestou nas ruas uma insatisfação geral) e posteriormente o golpe contra Dilma Rousseff. “Nessa fase, o Jair Bolsonaro vai aumentando a visibilidade dele e o seu raio de influência, aquele momento em que ele vai conquistando notoriedade como uma espécie de clown de programas de entretenimento, em que ele aparece como essa figura meio ultrapassada, meio deslocada do mundo contemporâneo”, pontua o professor.
Até que, em 2018, com Lula preso, ele desponta como candidato mais viável para tirar o PT do caminho. O filósofo lembra que havia um sentimento de revolta por conta da corrupção na política, alavancada pelas revelações da operação Lava Jato: “Bolsonaro desponta como outsider e, ao mesmo tempo, acaba despontando o candidato mais vivo anti-lulismo. E nesse ponto é que a família acaba adquirindo o capital político que ela tem hoje”, resume.
Na avaliação dos nomes da família com capital eleitoral para a sucessão, a senadora Michelle Bolsonaro aparece com elevado potencial, especialmente na visão do presidente do PL, Valdemar Costa Neto, embora enfrente divergências familiares. “Michelle é uma personagem que todo mundo entende como mais forte, mais competitiva, talvez mais perigosa até que o próprio Jair Bolsonaro. Mas existe uma resistência por parte dos filhos e até um medo muito grande por parte do Jair Bolsonaro de que ela, uma vez liberta das suas amarras, solta para alçar um voo solo, saia nesse voo solo e não volte mais”, avalia.
Fora do núcleo familiar mais restrito, Rodrigo Nunes comenta a possibilidade de o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), ser esse nome alternativo e moderado. Para ele, essa aposta ganha força à medida que aumenta a rejeição a perfis considerados mais radicais. “Tarcísio é uma figura mais anódina, mais neutra, e por isso consegue transitar melhor por diferentes espaços”, analisa.
Em paralelo, figuras jovens como o deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) correm por fora e contam com o fator tempo a seu favor, enquanto Flávio e Eduardo Bolsonaro veem suas chances eleitorais reduzidas devido às investigações e à ausência do país. “O Eduardo está queimado, sobretudo por ele ter abandonado o posto dele na Câmara e ter ido fazer lobby nos Estados Unidos contra o Brasil e agora não poder voltar por estar sendo investigado por conta da sua atividade de lobby contra o país. Ao passo que o Flávio, eu acho que sempre se soube, muita gente dentro da direita achava que o Flávio era um balão de ensaio, que era uma coisa que não ia, não era para ser, não era para vingar de fato”, aponta. “Eu acho que esses são, certamente, nomes fora do páreo, hoje em dia”, aposta.
O filósofo e escritor também aborda a capacidade de reorganização da extrema direita, que, na avaliação dele, pode ser explicada pela velocidade na formação de novas lideranças por meio da economia da atenção e das redes digitais. “Os influenciadores digitais tomaram conta, colonizaram a política. Eles demonstraram, de 2018 para cá, uma capacidade de produção e renovação de quadros que é absolutamente espantosa”, destaca. Nunes classifica essas figuras de “empreendedores políticos”, estratégia que, de forma tímida, a esquerda conseguiu imprimir um pouco mais esse ano. “A esquerda apresentou uma renovação maior nessas eleições. E um pouco por esse caminho também, do empreendedorismo político.”
Confira a entrevista completa:
Para ouvir e assistir
O BdF Entrevista vai ao ar de segunda a sexta-feira, sempre às 16h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo.

