As eleições de meio de mandato nos Estados Unidos impuseram derrota ao presidente Donald Trump. Com a maioria Democrata no Senado e na Câmara, existe uma expectativa de mudança na condução política de temas sensíveis, como a guerra no Irã, as tarifas (que também têm impactado a economia interna) e a imigração.
Ao BdF Entrevista, Jana Silverman, professora e secretária de Relações Internacionais dos Socialistas Democráticos dos EUA (DSA), destaca que, além de modificar a correlação de forças, a derrota republicana proporcionou como grande novidade a ascensão de candidaturas abertamente de esquerda. “É a eleição de uma bancada não apenas progressista, mas socialista pela primeira vez na história dos Estados Unidos. Nós, como DSA, dos nove candidatos a deputado federal, ganharam oito. Dos oito, seis mulheres e dois homens”, afirma.
A dirigente enfatizou que os candidatos endossados pela organização precisavam cumprir critérios rígidos, devendo “ser explicitamente anticapitalistas, não receber e não aceitar dinheiro, nenhuma fonte empresarial” e manter um posicionamento abertamente anti-imperialista. “É uma coisa muito importante, porque nos Estados Unidos, diferente do Brasil, o que a gente chama aqui de Caixa 2 é totalmente liberado por lei”, conta.
Outro aspecto central que foi colocado em debate nas eleições estadunidenses diz respeito aos rumos do conflito provocado pelos EUA contra o Irã. Silverman lembra que Trump atropelou o Congresso ao declarar guerra ao país persa e precisará passar pela aprovação do parlamento para a sua continuidade. “As possibilidades políticas de guerra se estenderem mais são quase nulas hoje em dia. Eu tenho certeza absoluta de que o novo Congresso vai chamar essa votação, que se chama War Powers Authorization, ou autorização para ir à guerra. E, se não ganhar essa votação, que vai ser altamente provável, o Trump, por lei, teria que já retirar as tropas e cessar a ação bélica na ação referida no projeto de lei”, aponta. “Penso que será uma prioridade altíssima, já que até republicanos estão rejeitando a política externa de Trump com relação ao Irã.”
Jana Silverman também ressaltou que o fator econômico teve um peso importante para o eleitorado, já que a perda no poder de compra e o encarecimento do custo de vida transformaram o pleito em um referendo contra as promessas econômicas não cumpridas. “A inflação nos EUA nem é tão alta para os padrões latino-americanos. Mas o problema é que o poder de compra está baixando porque os salários reais não estão subindo. É um país em que você não tem um aumento real do salário mínimo nacional desde 2008”, enfatiza.
Além disso, a truculência das operações do órgão de imigração (ICE) em portas de escolas e comunidades causou indignação pública e provocou uma expressiva virada no voto dos eleitores latinos. “Esse grande tsunami azul, sobretudo no estado do Texas e outros estados como Arizona, Novo México, foi com base na mudança do padrão do voto latino. O voto latino, sobretudo dos homens, foi quase a maioria para o Trump em 2024. E vimos uma mudança de quase 30% desses eleitores, sobretudo homens latinos, mudando do Trump para o partido Democrata”, conta.
Diante dessa conjuntura, Silverman defendeu posições contundentes sobre a reestruturação da política migratória. “Eu tenho muito medo de que o setor mais moderado do partido, que, no final das contas, é o que ganhou a maioria das cadeiras no novo Congresso, vai tentar uma solução muito meio-termo.” Ou seja: ‘Vamos dar mais treinamento, vamos dar aquelas câmaras nos uniformes, etc’. Mas nossa posição é abolir totalmente o ICE”, defende.
A professora também avaliou com otimismo a capacidade de organização social, não apenas no Brasil, como nos EUA, frente à onda conservadora global. “Não é inevitável o crescimento da extrema direita, mas o poder do povo, o poder da classe trabalhadora, ainda está muito vigente”, conclui.
Confira a entrevista completa:
Para ouvir e assistir
O BdF Entrevista vai ao ar de segunda a sexta-feira, sempre às 16h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo.

