Enquanto a parcela de eleitores progressistas no Brasil ficou arrasada após os resultados do primeiro turno das eleições, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, certamente comemorou, já que tem buscado interferir nas eleições em favor de Flávio Bolsonaro (PL).
Essa não é uma novidade e muito menos uma exclusividade do Brasil, mas partem de um histórico contínuo de ingerência dos EUA sobre processos políticos da região, evidenciado em disputas em países como Colômbia, Peru, Equador, Argentina, Honduras e Venezuela.
Ao podcast de política internacional do Brasil de Fato, O Estrangeiro, o analista geopolítico Miguel Stédile lembra que, em outros períodos da história do Brasil, já houve intervenção direta dos EUA e cita como exemplo o golpe de 1964.
“Os Estados Unidos preparavam desde 1961, financiavam entidades, faziam pressão diplomática, sabotaram o governo João Goulart, chegaram a executar a operação Brother Sun, de enviar porta-aviões, etc. Que não foi necessário, porque o trabalho sujo já tinha sido feito antes. E da mesma forma agora nessa campanha eleitoral. A gente não precisa entrar nessa apuração como se fosse algo clandestino”, avalia, ao destacar as recentes ações públicas e notórias de Trump, como o tarifaço, o enquadramento das facções criminosas como organizações terroristas e a suspensão dos serviços consulares dois dias antes do primeiro turno. “Tem uma série de digitais do governo Trump dentro do processo eleitoral brasileiro”, afirma.
O correspondente do BdF na Venezuela, Leonardo Fernandes, discorre sobre como a narrativa de combate ao narcoterrorismo foi uma forma de legitimar ações ilegais em diversos países, com destaque para a Venezuela, que foi atacada e teve o presidente Nicolás Maduro sequestrado em 3 de janeiro.
Fernandes conta que, muito além de pressões políticas e econômicas, o governo Trump tem lançado mão de aportes financeiros para colocar em prática essa estratégia.
“Muitos analistas têm chamado isso de uma espécie de ocupação silenciosa dos Estados Unidos sobre os territórios latino-americanos. Os Estados Unidos têm pelo menos quatro normas legais que autorizam o governo estadunidense a atuar em território estrangeiro para o combate do que eles consideram como organizações terroristas. Na Colômbia, a primeira visita de Marco Rubio após a posse do presidente de extrema direita, Abelardo de la Espriella, esse foi um dos principais temas, inclusive ali foi anunciado cerca de US$ 10 milhões para a construção de uma sede do Escudo das Américas na cidade colombiana de Medellín”, relata.
No contexto brasileiro, Miguel Stédile aposta que, caso Flávio seja eleito, Trump não deve investir em ações militares, mas pode manter, por exemplo, como já fez em outros momentos, sanções do tipo das previstas na Lei Magnitski a autoridades brasileiras consideradas inimigas pela extrema direita.
Sobre a onda da extrema direita no Brasil e o fato de discursos que apontam como esse movimento coloca em risco a soberania e a democracia e abre espaço para ingerência externa, Stédile afirma que nada disso importa para o eleitor bolsonarista. “O que tem de tragédia para a gente nessa eleição é que, de maneira geral, o eleitor disse: ‘Eu sei que o Flávio é corrupto, eu sei que o Flávio está ligado com o Vorcaro, que ele não tem uma ideia que preste, ele não é capaz de pensar sozinho, e ele vai ser o pet do Trump. Mas não é o Lula. Basicamente, a opção que o eleitor fez, o eleitor de direita, de extrema direita”, avalia.
Caso Lula vença, o analista acredita que o resultado pode ser fortemente questionado, ainda mais com a maioria do Congresso recém-eleito alinhada a Flávio Bolsonaro. “Faz parte da extrema direita questionar o resultado das eleições”, aponta.
Confira a entrevista completa:
Para ouvir e assistir
O podcast O Estrangeiro vai ao ar semanalmente às quartas-feiras às 15h, disponível nos canais do Brasil de Fato.

