Caso vença as eleições, Flávio Bolsonaro (PL) quer adotar um modelo econômico semelhante ao que Javier Milei implementou na Argentina. Ao lado da economista Daniela Marques, cotada para se tornar ministra em um eventual governo dele, o senador tem falado em promover um “tesouraço” nas contas públicas. O seu ídolo argentino usava uma motosserra.
O problema é: o modelo inspirador do bolsonarista é responsável por jogar a população argentina na pobreza. A redução de gastos promovida por Milei atingiu com força o setor previdenciário, que respondeu por cortes de 19,2%, e mais da metade dos trabalhadores deixaram de se aposentar em dois anos. O programa equivalente ao Bolsa Família, o Asignación Universal por Hijo para la Protección Social (AUH), sofreu corte de 42%. Os orçamentos da saúde pública, da educação e para proteção às pessoas com deficiência também tiveram redução. O desemprego no país também aumentou. Quase 10 milhões de argentinos vivem abaixo da linha da pobreza no país.
Na última segunda-feira (12), uma imagem que circulou pela imprensa mostra uma fila de mais de dez quarteirões em uma província de Buenos Aires de uma empresa de tecnologia que estava fazendo recrutamento para 30 vagas.
Em participação no 100º episódio do podcast de política internacional O Estrangeiro, o jornalista Leonardo Fernandes, correspondente do Brasil de Fato na Venezuela, analisa que a direita sempre acusa a esquerda “de socializar a pobreza”, mas, na verdade, é “exatamente o que a extrema direita faz”.
Fernandes afirma que existe uma lógica replicada pela extrema direita nos países que domina, caso de Milei na Argentina e Nayib Bukele em El Salvador. “Eles atraem alguns investimentos de um lado, garantem uma certa estabilidade da inflação, mas às custas daqueles que mais dependem do Estado, para que outros possam seguir acumulando. A gente já viu esse filme no Brasil [com Jair Bolsonaro] e estamos vendo na Argentina”, aponta.
O jornalista destaca que a proposta de Flávio prevê reduzir os custos públicos em cerca de R$ 200 bilhões. “O menu para atingir esse objetivo é aquele menu amargo que é difícil de engolir: desvinculação de reajuste de aposentadoria do INSS e BPC, assim como o salário mínimo, que hoje está vinculado ao crescimento da economia, e também a compensação dos índices de inflação”, destaca.
O historiador e analista geopolítico Valério Arcary observa que a extrema direita deseja fazer uma inversão qualitativa da relação social e política de forças e, para isso, “tenta legitimar que há uma aberração com a proporção da dívida” em relação ao Produto Interno Bruto (PIB). “É preciso distinguir o que é a manipulação ideológica da estratégia política. A manipulação dissimula os objetivos concretos. Todo o vocabulário da direita extremada é isso”, defende.
Arcary argumenta que a dívida pública foi criada para nunca ser paga. “Dívida pública é um mecanismo que, ao longo da história, dos séculos, cumpre um papel chave na perpetuação do capitalismo. O endividamento público é uma reserva estratégica para a valorização do capital”, critica.
O que está por trás desse argumento da grande preocupação com a dívida pública, segundo o historiador, é garantir que não haverá pressão sobre o capital para reduzir suas margens de lucro. “Assim como foi da posse do Milei na Argentina, o que Flávio Bolsonaro apresenta ao país é um projeto de choque de capitalismo selvagem contrarrevolucionário. E é pra dar medo mesmo. É dramaticamente cruel sem que ele [Flavio] diga exatamente o que fazer. E hoje declarou voto pelo fim da 6×1, mas estão dissimulando”, defende.
Confira o programa completo abaixo:
Para ouvir e assistir
O podcast O Estrangeiro vai ao ar semanalmente às quartas-feiras às 15h, disponível nos canais do Brasil de Fato.

