A ofensiva do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), contra a indicação do advogado-geral da União, Jorge Messias, ao Supremo Tribunal Federal (STF) revela um Senado que quer controlar mais diretamente a Corte e tensiona a relação com o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) às vésperas das eleições de 2026. No podcast Três por Quatro, do Brasil de Fato, a cientista política Graziela Albuquerque e o historiador Valério Arcary analisam que o impasse ultrapassa a “birra” pessoal do senador e se insere numa disputa mais ampla pelo rumo das instituições diante do avanço da extrema direita.
Para Albuquerque, “o que vemos hoje é um cenário muito distinto de indicações para ministros do Supremo.” Ela acredita que essa movimentação “serve também para pensarmos que o Senado quer um nome no Supremo para chamar de seu”, avalia. Segundo a cientista política, o jogo envolve não só o Executivo, mas também a vontade dos senadores de indicar figuras com “trânsito” político no Legislativo, como seria o caso do ex-presidente do Senado Rodrigo Pacheco (PSD-MG).
A professora considera a decisão recente do ministro do STF Gilmar Mendes, que restringe ao procurador-geral da República a iniciativa de pedidos de impeachment de ministros do STF, como parte de uma tentativa de “blindagem” diante do avanço da extrema direita. Por outro lado, alerta que “juridicamente é muito temerário que uma decisão como essa venha de um ministro”, destacando que a medida está “olhando para 2026”.
Albuquerque também chama atenção para o caráter incomum da postura de Alcolumbre, que tem adiado a sabatina de Messias e elevado o conflito com o governo federal. “O estranho nessa história do Alcolumbre, é esse ponto inédito, inusitado, que é a birra, porque geralmente isso acontece, mas se chega ali no meio do caminho”, diz. Para ela, a resistência prolongada foge ao padrão histórico, em que insatisfações costumam ser resolvidas antes da votação no Senado.
STF contra o neofascismo
Já Arcary critica a leitura que reduz o impasse a um confronto pessoal e defende que o fundo da disputa é o papel do STF frente ao neofascismo. “Existe uma tendência da mídia liberal de simplificar o que é um conflito de muito maior profundidade. A personalização é um excesso da interpretação da política brasileira”, opina. Ele lembra que o Brasil é hoje uma exceção no cenário internacional por punir com rigor setores da extrema direita. “Nós estamos numa realidade em que a corrente mais dinâmica de representação dos interesses da classe dominante a escala mundial é a corrente neofascista”, lembra.
O historiador enxerga a indicação de Messias como parte da disputa sobre até onde vai a autonomia do STF diante de um Congresso fortemente bolsonarista. “A disputa de um nome no Senado, fundamentalmente, consiste em saber se o Supremo continuará tendo este papel de ser uma trincheira de luta intransigente contra a extrema direita”, afirma. Ele relaciona ainda a pressão de Alcolumbre às negociações da extrema direita em torno de um eventual indulto a Jair Bolsonaro e de tentativas de usar o Senado para ameaçar o Supremo com pedidos de impeachment de ministros.
Arcary também avalia que, depois de um ciclo de derrotas no Congresso, o governo Lula passou a enfrentá-lo com mais firmeza em 2025, impulsionado pelas mobilizações de rua contra a anistia a golpistas e a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da Blindagem. “2025 é o primeiro [ano] que termina menos ruim. A rigor, o governo Lula vinha, até meados de 2025, lentamente sendo encurralado”, diz. Ainda assim, ele acredita que continua “muito incerto qual vai ser o desfecho da luta do ano que vem, está tudo em aberto”.
Para ouvir e assistir
O videocast Três Por Quatro vai ao ar toda quinta-feira, às 11h ao vivo no YouTube e nas principais plataformas de podcasts, como o Spotify.
