A campanha eleitoral de 2026, que deve definir quem ocupará os cargos de presidente, governadores, deputados e senadores, tem seu início oficial no próximo dia 16 de agosto. Na preparação para o processo eleitoral de outubro, o Visões Populares debate os temas centrais no dia a dia de brasileiros e mineiros, e o que deve pesar na hora de escolher em quem votar.
Quando pensamos na economia, apesar da melhora nos índices econômicos no país, a sensação da popular não tem acompanhado o otimismo numérico. Como explicar, por exemplo, que o desemprego esteja em baixa e a renda em alta, enquanto muitas pessoas ainda sentem dificuldade para fechar as contas no fim do mês?
É na intenção de entender esse fenômeno e comparar o que mudou, nos números e na vida da população, entre os governos de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e de Jair Bolsonaro (PL), que o Brasil de Fato MG entrevistou Juliane Furno.
Professora da Universidade Federal Fluminense (UFF) e pesquisadora do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social, Furno explica que, apesar da sua importância, a economia não deve ser tema central nos debates do período eleitoral.
“Eu tenho dúvidas sobre o peso que a economia terá nesta eleição. Cientistas políticos afirmam que, quando a economia vai bem, ela não é um tema prioritário nas eleições, passando a ser um tema prioritário quando está indo mal. Por exemplo, em 2022, a economia foi um tema muito importante, pois havia o governo de Jair Bolsonaro, com uma gestão econômica completamente desastrada durante a pandemia. Já em 2014, a economia ainda ia bem e, neste ano, temas como a corrupção e o aborto eram mais presentes”, explica a professora.
Confira a entrevista na íntegra
Brasil de Fato MG – Lula assumiu o país após um período marcado pelos efeitos da pandemia, inflação elevada e juros em alta. Quais foram as principais mudanças econômicas observadas entre o fim do governo Bolsonaro e o cenário atual? O que pode ser atribuído às políticas do governo e o que decorre do contexto internacional ou da própria recuperação pós-pandemia?
Juliane Furno – Acho que uma coisa muito importante aconteceu ainda antes de Lula tomar posse: quando estávamos vivendo o governo de transição, ele fez um acordo que foi fundamental para haver essa inflexão dos principais dados econômicos. Ele propôs suspender o teto de gastos, reajustar os benefícios da seguridade social e o auxílio emergencial (depois chamado de Auxílio Brasil), turbinar o Bolsa Família e recompor o orçamento público das universidades, da saúde, da ciência e da tecnologia.
Esse acordo permitiu que as regras fiscais anteriores cessassem, ou seja, o teto de gastos não estaria em vigor, em troca da elaboração de uma outra regra fiscal para o segundo semestre de 2023. Isso possibilitou um aumento dos gastos públicos superior a 20%. Enquanto com o teto de gastos anterior previa crescimento real zero da despesa.
Assim, no início do governo Lula, o crescimento das despesas foi maior do que 20%, e isso foi fundamental para que a economia voltasse a girar, para que os trabalhadores voltassem a consumir, para que o mercado interno ganhasse tração e para que houvesse uma retomada dos investimentos, tanto públicos quanto privados. Isso explica, em primeiro lugar, essa mudança substancial, principalmente com o aumento da renda e com a redução do desemprego.
Outras políticas foram sendo construídas nesse período de retomada dos programas sociais, como o Minha Casa, Minha Vida (MCMV), a construção de uma nova política industrial
chamada de Nova Indústria Brasil, o Bolsa Família e a recomposição do orçamento das universidades federais. Isso foi dando tração e explica a melhoria dos indicadores econômicos ao longo do tempo.
Claro que também há elementos do mercado internacional. Houve uma desvalorização do dólar com relação ao real. O real foi se valorizando nesse processo, o que aumenta o poder de compra dos trabalhadores. Se o real está mais valorizado em relação ao dólar, as coisas que importamos ficam mais baratas. Grande parte do nosso consumo cotidiano é importado ou possui componentes importados. Portanto, a valorização do real amplia o poder de compra da população.
Esse cenário internacional é ditado por vários elementos externos sobre os quais o Lula não tem controle, mas também por elementos internos, como a retomada da confiança na economia brasileira e as parcerias internacionais que foram recompostas. Dá para dizer que, mesmo no cenário internacional, ainda que ocorra a despeito das políticas domésticas, a figura do Lula, como um estadista capaz de garantir um certo nível de previsibilidade, foi um sustentáculo importante.
Para estabelecermos um comparativo mais direto com o governo de Jair Bolsonaro, o que você diria que é especificamente diferente na atuação de cada um para que tenhamos dados tão distintos de renda e desemprego?
Acho que é uma aposta, que vem claramente desde o primeiro governo Lula. Na elaboração do Plano Plurianual (PPA), que é a primeira peça apresentada pelo governo sobre como serão geridos os quatro anos de mandato, já estava explicitado que o mercado interno é o motor do desenvolvimento econômico.
Enquanto isso, o governo Bolsonaro insistiu, até por seus sustentáculos internos, no agronegócio e em uma economia de exportação de commodities. Inclusive, Bolsonaro se orgulhava de o Brasil estar abastecendo o mundo no período da pandemia, enquanto a população brasileira estava na fila do osso.
Em contraposição a esse modelo, que tem menores impactos positivos na economia brasileira, os governos petistas se guiam por uma perspectiva de desenvolvimento mais assentada no mercado interno. Para dar certo, esse modelo precisa desconcentrar a renda. Daí a retomada da política de valorização do salário mínimo.
O salário mínimo ficou congelado, inclusive com perda real em alguns anos, durante os governos Temer e Bolsonaro. No governo Lula, é retomada a política de não só compensar a inflação do período anterior, mas também somar o ganho do PIB de dois anos antes, sob a ideia de que, se a economia cresce porque os trabalhadores estão produzindo mais, é justo que eles se apropriem de uma fatia maior do Produto Interno Bruto.
Há também a elaboração de políticas de curto e de longo prazo. Ao mesmo tempo em que lida com a herança do governo Bolsonaro – marcada pelo retorno do Brasil ao mapa da fome, pelo aumento da desigualdade e pela queda real da renda dos trabalhadores com desemprego acentuado – o governo Lula também pensa em medidas de longo prazo, sinalizando mudanças pontuais e conjunturais sobre que país o Brasil quer ser no futuro.
Não estou dizendo que ele seja totalmente bem-sucedido, porque há questões ligadas à dinâmica externa, mas no governo Lula foi retomada a ideia de pensar a política industrial. Nenhum país se desenvolveu sem passar por um robusto processo de complexificação de sua estrutura econômica. Os Estados Unidos hoje têm, em seu enfraquecimento como principal nação do mundo, o processo de desindustrialização; não à toa, as tarifas de importação são uma tentativa de recompor a indústria deles.
No governo Lula, encontra-se, pelo menos do ponto de vista da elaboração, a intenção de recuperar a tecnologia da segunda ou terceira Revolução Industrial, apostando naquilo em que o Brasil tem maior vantagem comparativa, como o complexo econômico da saúde e a soberania e segurança alimentar.
Acho que por aí passa a abertura de espaços de investimento, pensando no potencial que o Brasil tem e que só se realiza na medida em que o mercado interno funciona. E o mercado funciona melhor quanto mais se reduzem as desigualdades sociais.
Pensando em um eventual novo mandato de Lula, quais seriam hoje os principais desafios econômicos? Uma pauta importante é o novo arcabouço fiscal. Ele deve revogar?
Até 2016 não existia no Brasil uma regra fiscal rígida. Não existia nada na lei que determinasse que o Executivo só poderia gastar uma certa porcentagem da receita, ou limitar o aumento de gastos, ou congelá-los. Simplesmente não existia. E o Brasil nunca quebrou por isso. Teve crises importantes, mas principalmente denominadas em moeda estrangeira; em reais, o Brasil nunca quebrou. Ou seja, nunca deixou de pagar a aposentadoria das pessoas ou de honrar os compromissos do setor público.
O que o Executivo fazia era entregar uma peça orçamentária estimando, por exemplo, uma receita de 100 e projetando para aprovação do Congresso uma despesa de 80. Essa diferença de 20 era o superávit primário. O governo apresentava ano a ano uma proposta de superávit primário.
Acontece que, em 2014, pela primeira vez nos governos do PT, houve a ocorrência de déficit primário. Ou seja, ao invés de arrecadar 100 e gastar 80, o governo arrecadou 80 e gastou 100, por vários motivos que não o aumento de gastos, mas sobretudo pela compressão das receitas.
A partir de então, começou a ser disputada na imprensa a ideia de que o problema do Brasil e da crise brasileira eram os excessos: excesso de gastos, excesso de Estado, excesso de ativismo estatal, excesso de empresas estatais e de funcionários públicos. Portanto, convencionou-se a ideia de que o Brasil precisa ter controle rígido sobre os seus gastos. Frente a essa hegemonia das ideias neoliberais, muito presente a partir de 2016, era difícil que o governo Lula voltasse ao que era antes, ou seja, à inexistência de regras.
O arcabouço fiscal é uma mediação dentro do possível, levando em consideração que as ideias neoliberais ganharam terreno. Acho que o arcabouço fiscal foi a concertação possível que, por um lado, extinguiu o teto de gastos, que era um problema importante e impedia o crescimento das despesas, mas, por outro lado, manteve uma trava que limita o crescimento das despesas públicas a 2,5%.
O governo acalmou o mercado, mostrando que tem um nível de responsabilidade fiscal e que está cuidando dos gastos, mas o Brasil enfrentará um dilema. As despesas gerais podem crescer até 2,5%, mas há duas despesas que possuem regras próprias de crescimento vinculadas à receita líquida corrente de impostos: saúde e educação. Isso gerará um problema provavelmente já em 2027.
Para cumprir o arcabouço fiscal, ou seja, para que as despesas cresçam no máximo 70% da receita ou fiquem dentro da variação de 2,5%, a saúde e a educação terão de entrar no limite do arcabouço. Não há como garantir um crescimento de apenas 70% da receita se essas duas áreas crescem em velocidade superior.
Assim, ou a saúde e a educação terão seus pisos constitucionais descumpridos, ou o teto terá de ser flexibilizado para comportar essas áreas e também a previdência, que cresce acima da regra devido ao envelhecimento populacional. Essa será a grande disputa do próximo governo: ceder ao mercado e dar mais um passo rumo ao engessamento do orçamento público, ou aproveitar a força da sociedade e uma vitória eleitoral para reduzir os entraves e as amarras criados em um período em que o tema era hegemonizado pela direita liberal.
O Lula não deve fazer sinalizações ao mercado, mas sim à sociedade brasileira, oferecendo mais educação, saúde e segurança. Isso depende de um orçamento que possa ser manejado com mais flexibilidade do que permite o arcabouço atual.
Acredita que a pauta econômica terá um peso central nas eleições de 2026? Quais assuntos tendem a mobilizar mais o eleitorado?
Tenho dúvidas sobre o peso real que a economia terá nesta eleição. Como aponta um cientista político, quando a economia vai bem, ela não é um tema prioritário nas eleições; passa a ser prioritária quando vai mal. Em 2022, por exemplo, a economia foi muito importante devido à gestão desastrada de Bolsonaro durante a pandemia e à demanda da sociedade por serviços públicos, renda e emprego. Em 2014, por outro lado, com o desemprego baixo e apesar do início do déficit público, a economia ia bem, e temas como corrupção e aborto foram mais presentes.
Resta saber em qual terreno o adversário tentará jogar. Por um lado, a economia vai bem, mas, por outro, a extrema direita tem sido vitoriosa em disputar a narrativa sobre os gastos públicos. Teremos de ver se Flávio Bolsonaro jogará em um terreno no qual perde em termos de indicadores econômicos, mas no qual pode ganhar pela disputa ideológica que eles fazem atualmente melhor do que a esquerda; ou ele desviará do tema econômico para focar em valores, costumes e cenário internacional?
Se a pauta for economia, o governo não deve ceder às chantagens da direita e da mídia. Temos de saber como queremos ganhar essas eleições. É muito diferente ganhar fazendo concessões que depois resultem em medidas impopulares, como ocorreu após 2014, ganhando de forma apertada e na defensiva. Ou ganhar como em 2006, apontando para uma plataforma de mudanças com um governo mais desenvolvimentista e intervencionista.
Devemos tentar ganhar com uma aliança alicerçada nos trabalhadores, nas conquistas, nos movimentos sociais e em uma agenda de mudanças positivas para o próximo período. Os representantes do mercado financeiro e a mídia vão se dividir: alguns apoiarão Bolsonaro, outros Lula, mas os que apoiarem Lula o farão no sentido de disputar o programa e domesticar um futuro quarto governo.
Quem assistiu ao Jornal Nacional recentemente viu como ele se dedicou a apresentar números recordes de endividamento público e colocar economistas defendendo que o governo corte gastos e faça uma nova reforma da previdência. Haverá esse tipo de pressão, e o governo não deve responder aceitando a chantagem e propondo mais cortes.
Isso cria a falsa ilusão de que quem garante a vitória da esquerda é o centro ou a centro-direita, quando, na verdade, quem garante a vitória em última instância é a sociedade brasileira mobilizada, as mulheres nas ruas e os movimentos sociais fazendo campanha. O que o centro e a direita têm a oferecer em termos de votos é pouco e pode custar muito caro.
O programa já deve apontar para uma agenda de reformas mais radicais e apostar na mobilização da sociedade, que está cansada de constatar problemas em sua vida e não se mobilizará por uma candidatura que apresente mais do mesmo ou retrocessos. Se não nos cuidarmos, quem oferecerá propostas de futuro, ainda que um futuro tenebroso, será a extrema direita, com propostas mais radicais de mudança de vida.
Como a disputa geopolítica mundial pode aparecer como desafio e como oportunidade para a economia brasileira?
São desafios e oportunidades. A história mostrou que Lula recompôs sua popularidade quando não se submeteu à chantagem tarifária de Donald Trump e adotou uma política externa mais altiva na defesa da soberania brasileira. Espero que isso sirva de aprendizado.
Do ponto de vista da formação histórica do povo brasileiro, parece haver uma certa idealização de figuras com estilo forte, altivo e soberano. Grandes representantes da política brasileira, como o próprio Ciro Gomes, apostavam na emulação dessa figura.
Muitas pessoas que gostavam de Bolsonaro, mesmo sem saber explicar ideologicamente o motivo, apontavam características como autenticidade e capacidade de falar o que pensa. Temos essa referência histórica em lideranças capazes de afirmar com categoria os interesses brasileiros.
Essa postura do Lula, de negociar sem abrir mão do exercício da nossa soberania, pode reposicionar o governo e reconquistar popularidade. O cenário internacional pode ajudar nesse sentido. A pressão externa e mais explícita do imperialismo estadunidense, respondida de forma não submissa, tem capacidade de nos ajudar.
Por outro lado, as tarifas que Donald Trump aplica também geram impactos macroeconômicos e microeconômicos direcionados, afetando empresas que produzem produtos customizados para o mercado norte-americano e que são difíceis de substituir por outros mercados. Se o governo não apresentar de forma consistente uma política para dirimir esses impactos, isso pode custar popularidade.
A proposta de reduzir ou extinguir a escala de trabalho 6×1 ganhou espaço no debate público. Do ponto de vista econômico, quais mudanças a aprovação traz?
Esse é um grande tema, pois tem condições de nos reaproximar dos mais jovens. Pesquisas de opinião mostram que cerca de 70% da juventude desaprova o governo, refletindo um mal-estar das gerações atuais, que estão vivendo pior do que viveram seus pais, interrompendo um ciclo de progresso e mobilidade intergeracional.
A juventude vive pior porque não tem perspectiva de aposentadoria, enfrenta vínculos instáveis de trabalho, o preço dos imóveis disparou e os empregos gerados pagam baixos salários. Para a parcela importante da juventude que conseguiu cursar o ensino superior, é ainda mais frustrante ter esse futuro não entregue, pois estudaram mais que seus pais e, ainda assim, correm o risco de viver materialmente pior do que eles.
É preciso haver um reencontro com a juventude, e esse encontro passa pela radicalidade. A juventude, por não ter naturalizado o mundo como ele é, é mais disputada por propostas radicais de transformação. Grande parte dos processos revolucionários foi feita por jovens. O fim da escala 6×1 é uma pauta que aponta para a juventude que é possível ter um futuro onde caiba o trabalho, o lazer e o estudo.
O impacto econômico disso, como já mostrou o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), é plenamente absorvível pela economia brasileira. Os pequenos negócios terão mais dificuldade, sendo necessária uma transição. No entanto, a valorização do salário mínimo ocorrida entre 2006 e 2012 teve impactos financeiros maiores do que terá o fim da escala 6 por 1.
A economia brasileira já absorveu choques maiores. O que haverá é uma readaptação. A ideia de que a redução da jornada levaria a uma redução do PIB faz uma leitura muito pobre sobre consumo e sobre o papel da jornada de trabalho no PIB. O impacto econômico é pequeno, e o impacto político é muito grande. Esse tipo de medida deve ser estimulado e estar presente na campanha eleitoral.
Na sua avaliação, qual é o maior desafio para traduzir dados econômicos complexos em informações compreensíveis para a população? Como explicar, por exemplo, que o desemprego esteja em baixa e a renda em alta, enquanto muitas pessoas ainda sentem dificuldade para fechar as contas no fim do mês?
Acho que há três fatores. Primeiro, há uma perspectiva de estagnação da vida: o dado melhora, a pessoa está empregada e o salário subiu, mas ainda é difícil pensar que a vida vai mudar significativamente, porque a economia brasileira gera majoritariamente empregos que pagam entre 1 e 1,5 salário mínimo. Há uma sensação de ausência de futuro, embora o presente esteja melhor do que antes.
Segundo, o padrão de consumo globalizado mudou. Vivemos sob a sensação permanente de que não acessamos os bens de consumo que garantem uma cidadania compartilhada, o que tem a ver com a globalização, as redes sociais e o estímulo ao consumo. A renda cresce, acessamos mais coisas, mas não alcançamos aquele telefone muito caro que habilita a participação em um grupo de pertencimento em uma sociedade consumista.
Por fim, há o fenômeno do endividamento, que atinge 80% da população. Isso não significa necessariamente que as pessoas não estejam honrando seus compromissos; o endividamento pode até sinalizar confiança no futuro para comprar um imóvel ou automóvel. O problema é a inadimplência, que também está muito alta e bateu recordes históricos.
A população está empregada e a renda real cresce, mas a renda disponível no bolso é menor porque uma parcela maior do salário está comprometida com o pagamento de juros, amortizações e dívidas. A taxa Selic elevada e a ausência de regulação sobre o custo do crédito pessoal fazem com que os bons indicadores econômicos sejam anulados pela drenagem que o sistema financeiro realiza sobre as poupanças das famílias.
No Instituto Tricontinental, lançaremos uma pesquisa mostrando que, entre 2012 e 2022, a renda do brasileiro caiu. Em 2022, a renda ainda não havia recuperado o patamar de 2012, refletindo uma década de estagnação e queda real dos rendimentos. De 2022 a 2024, a renda subiu 16%. É um indicador muito bom, mas ainda não houve tempo suficiente para que as pessoas percebam essa melhora de forma consolidada após tantos anos de perdas.
Devemos disputar os números e apresentar esses indicadores, mas também acolher o sentimento popular de que a vida ainda está difícil, dialogando com a população e propondo um projeto de futuro. Não podemos tratar as pessoas como alienadas ou apenas cooptadas pela extrema-direita por não identificarem os números reais, pois há um descolamento entre a realidade estatística e a realidade sentida. Esse diálogo humilde e não sectário, que mostra os números mas acolhe o sentimento de frustração, é fundamental.
