VISÕES POPULARES

Meio ambiente nos programas dos candidatos ao governo de MG, com Carla Wstane

Doutora em geografia e diretora técnica do Instituto Guaicuy reflete sobre as propostas dos postulantes

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“Meio ambiente é sobre o pão e a água que chegam na mesa das pessoas. É sobre saúde, sobre onde a gente mora e como a gente vive”, destaca a ambientalista. | Crédito: Brasil de Fato MG

Desmatamento, estratégias para a crise climática, política ambiental estadual, a condição dos servidores públicos do meio ambiente, impactos da mineração e a política de terras raras. Esses foram alguns dos temas abordados nesta entrevista especial que visa comparar os planos de governo dos candidatos ao governo de Minas. 

De volta ao Visões Populares, a conversa desta semana é com Carla Wstane, doutora em Geografia, diretora técnica do Instituto Guaicuy e especialista em gestão das águas e de projetos socioambientais. Para ela, é preciso desfazer o mito de que o meio-ambiente é um tema isolado.

“A política ambiental em Minas Gerais, e o meio ambiente de maneira geral, não é um tema que só interessa a quem está no mato. Meio ambiente é sobre o pão e a água que chegam na mesa das pessoas. É sobre saúde, sobre onde a gente mora e como a gente vive”, destaca a ambientalista. 

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Confira a entrevista completa 

Brasil de Fato MG  – Que aspectos devem estar presentes quando pensamos a política de meio ambiente no nosso estado? Quais são os principais gargalos e demandas na área em Minas Gerais? 

Carla Wstane – Para pensarmos a política ambiental em Minas Gerais, precisamos desfazer o mito de que o meio ambiente é um tema isolado, que só interessa a quem está no mato. Meio ambiente é sobre o pão e a água que chegam à mesa das pessoas, sobre saúde, sobre onde moramos e como vivemos. 

Em um estado imenso e diverso, qualquer política ambiental séria precisa ter como ponto de partida a justiça territorial e a superação das desigualdades. Quando olhamos para o mapa, vemos várias Minas Gerais dentro de uma só. Os pilares dessa política ambiental deveriam passar obrigatoriamente por esse olhar. 

Trago três pontos que me parecem essenciais: primeiro é a ideia do Cerrado como a caixa-d’água do Brasil. Costumamos ouvir falar da Amazônia, mas o Cerrado mineiro é um verdadeiro berço das águas do país. É no Cerrado e em suas transições que se alimentam bacias hidrográficas vitais, como a do Rio São Francisco, do Rio das Velhas, do Paraopeba e do Rio Doce. 

Se o Cerrado for destruído pelo avanço predatório da monocultura e do desmatamento, não secará apenas a torneira do mineiro, a segurança hídrica e alimentar de boa parte do Brasil entrará em colapso. Proteger o Cerrado e as veredas é proteger a vida de quem está no Norte de Minas, no Jequitinhonha e também na região metropolitana. 

Outro ponto essencial é a proteção das serras, dos campos rupestres e dos aquíferos: nossas serras não são apenas belas paisagens de cartão-postal, elas funcionam como verdadeiras esponjas da natureza, segurando a água da chuva e alimentando os lençois freáticos. O problema é que, em Minas, onde há serras ricas em biodiversidade e água, há também riqueza de minério de ferro de alta pureza. 

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O Quadrilátero Ferrífero é um ótimo exemplo disso. É uma região que guarda aquíferos que abastecem milhões de pessoas, mas que sofre uma pressão gigantesca das mineradoras. A pergunta que o Estado precisa responder é: a água e a vida das pessoas valem mais do que o lucro imediato da exportação de minério? Uma pergunta como essa pode orientar um plano de governo. 

O terceiro ponto muito importante são os gargalos e a pressão sobre os territórios. A política ambiental em Minas opera hoje muito mais como um balcão de negócios para acelerar licenciamentos flexíveis do que como um órgão de proteção e fiscalização. O modelo econômico do Estado continua refém do extrativismo mineral e do agronegócio predatório, e as consequências são sentidas pelo povo.

São os crimes socioambientais que devastaram as bacias do Paraopeba e do Rio Doce. É a violência contra os povos e comunidades tradicionais, contra os geraizeiros, os quilombolas e os atingidos por barragens. É o racismo ambiental que faz com que a conta da poluição e do racionamento caia sempre nas periferias e nos territórios mais vulneráveis, e não em quem toma as decisões. 

Em resumo, uma política ambiental justa para Minas Gerais precisaria parar de enxergar o meio ambiente como obstáculo para o desenvolvimento e passar a enxergá-lo como a base da vida. Isso significa garantir a gestão participativa das águas, dar poder de decisão às comunidades atingidas, proteger nossos aquíferos e entender que não existe justiça ambiental sem justiça social. O candidato que tiver em mente essas questões essenciais poderá ter um bom plano de governo no quesito ambiental.

Como a preservação dos nossos biomas aparece nos planos de governo dos candidatos a governador? E qual a importância de pautar esse tema?

O assunto é urgente. O desmatamento no Cerrado mineiro disparou 110%, destruindo o equivalente a centenas de campos de futebol em seis meses. Somado às apreensões na Mata Atlântica, fica claro que o meio ambiente em Minas pede socorro. Isso afeta a vida de todo mundo. Sem Cerrado, falta água na torneira e a seca aperta. Sem preservar a Mata Atlântica, perdemos nossa biodiversidade e os produtos de Minas perdem espaço no exterior. 

Avaliando os projetos, identifiquei três caminhos nos quais as propostas se dividem: há um foco em tecnologia, desburocratização e negócios nos planos do Novo, Missão, MDB e Republicanos. Esse bloco aposta na agilidade do licenciamento e na simplificação administrativa, lembrando que Minas já tem um histórico de simplificação que resultou em grandes problemas que se repetem na política nacional.

O PT e o PDT focam no fortalecimento do Estado, buscando dar mais estrutura aos órgãos de fiscalização e recuperar rios e florestas. Por fim, PCB, PSTU e UP apresentam uma proposta radical de mudança geral no sistema. Eles defendem o controle popular, o fim do agronegócio predatório e a revisão total das mineradoras. 

Detalhando um pouco: Patrus Ananias (PT), quer reforçar a proteção das nascentes, incentivar a agroecologia e a produção de alimentos sem agrotóxicos. Ele propõe dar mais força aos conselhos ambientais, com participação da sociedade, e criar áreas de preservação. 

Alexandre Kalil (PDT) defende o cruzamento de dados de agricultura, cidades e obras para evitar os estragos antes que aconteçam. Pretende também reforçar a gestão dos rios e pagar os produtores rurais que preservarem as nascentes em suas terras. 

Gabriel Azevedo (MDB) aposta fortemente na tecnologia. Propõe usar imagens de satélite para identificar desmatamentos e queimadas no momento exato, e promete valorizar os funcionários do meio ambiente para acelerar e organizar as autorizações e licenças. 

Benoni Mendes (Missão) propõe regras mais rápidas para quem polui pouco e rigor total para empreendimentos de grande impacto, utilizando drones e sensores para monitorar crimes ambientais, além de incentivar o turismo de natureza. 

Mateus Simões (PSD) quer usar tecnologia para garantir que o produto mineiro exportado não venha de área desmatada, prometendo prazos claros para o licenciamento e investimentos no Corpo de Bombeiros contra queimadas. 

Cleitinho (Republicanos) defende a sustentabilidade associada à segurança hídrica e ao agronegócio, propondo o uso eficiente da água, proteção de nascentes e recuperação de pastagens. Contraditoriamente, ele também aposta na simplificação e na digitalização do licenciamento ambiental como forma de modernizar a gestão sem perder o rigor técnico. 

Túlio Lopes (PCB) defende a contratação de mais fiscais por concurso para garantir uma fiscalização sem pressão das empresas, acabar com o esquema em que a própria empresa se fiscaliza e priorizar projetos que produzem água. 

Rafael Duda (PSTU) defende paralisar temporariamente a mineração para rever os estragos, passar o controle da exploração para os trabalhadores, banir os agrotóxicos, realizar reforma agrária e demarcar terras indígenas e quilombolas imediatamente. 

A Unidade Popular (UP) defende que as comunidades e os conselhos populares fiscalizem a água e a terra, retirando o poder das grandes empresas. Defende ainda a proibição de regras flexíveis de licenciamento e a expulsão de invasores de terras indígenas e quilombolas. 

De forma geral, as propostas focam bastante no licenciamento, e os candidatos mais progressistas defendem a soberania e o poder de decisão.

Algum candidato propõe alguma estratégia de reflorestamento das áreas degradadas nos biomas que compõem nosso território? Como você enxerga que essa problemática deveria estar sendo abordada?

A maioria dos candidatos traz propostas para o reflorestamento, mas a forma de colocar em prática varia bastante nos planos: Gabriel Azevedo e Alexandre Kalil apostam na recuperação de áreas degradadas, conectando conservação, segurança hídrica e produção sustentável. Kalil fala em atuar antes do dano acontecer e em recuperar o que já foi degradado, focando na proteção de nascentes e mananciais. 

Patrus Ananias e Túlio Lopes trazem o reflorestamento de forma bem direta. Patrus propõe aumentar as áreas florestais do estado com plantios em áreas públicas e privadas e recuperar nascentes e bacias. Túlio Lopes defende a recomposição da vegetação nativa com foco nas Áreas de Preservação Permanente (APPs) e em projetos como o Conservador das Águas. 

::Leia também: Saiba como o MST está recuperando área degradada de Mata Atlântica em Minas Gerais::

Mateus Simões, Benoni Mendes e Cleitinho focam na recuperação associada a incentivos ao setor produtivo e ao apoio tecnológico. Simões menciona combater o desmatamento ilegal e recuperar áreas usando monitoramento remoto. Mendes insere a restauração dentro de programas de incentivo ao turismo ecológico e compensações ambientais. Cleitinho pauta a recuperação hídrica e a proteção de nascentes por meio de programas estaduais de reflorestamento, restauração de bacias e fomento à recuperação de pastagens degradadas voltadas ao setor rural. 

Ou seja, esse segundo bloco (Matheus Simões, Benoni Mendes e Cleitinho), foca mais nos incentivos para a recuperação, diferente da proposta do Patrus e do Túlio Lopes, que se centra no reflorestamento de uma forma direta.

Rafael Duda e a UP tratam o reflorestamento de forma ligada à reforma agrária, à agroecologia e à criação de territórios livres de mineração, para que a vegetação nativa possa se regenerar sem a pressão do grande capital. 

Na minha visão, a problemática da degradação dos nossos biomas precisa, obrigatoriamente, ser tratada com muita responsabilidade e pensamento no futuro. Não dá para ficar apagando incêndio ou fazendo projetos de fachada em ano eleitoral. O governo precisa ter a sensibilidade de olhar os territórios e reconhecer as práticas de recomposição que já existem na ponta, feitas localmente por agricultores familiares e movimentos sociais. 

É fundamental que o governo do estado dialogue e respeite os planos diretores de bacia e os municipais construídos junto à base. Se o município ou o comitê de bacia possuir regras mais rígidas para proteger uma nascente ou uma mata ciliar, o estado não pode passar por cima; deve respeitar e reforçar a norma local. 

Precisamos entender que reflorestar não é apenas plantar árvores, é também plantar água. É uma ação urgente para sobrevivermos às mudanças climáticas e termos cidades sustentáveis para viver e não apenas economicamente sustentáveis. Preservar o Cerrado e a Mata Atlântica exige uma aliança entre tecnologia, vontade política, respeito ao planejamento local e a valorização do saber de quem já cuida da terra. Reforço que indígenas, quilombolas e ribeirinhos já resistem ao fim do mundo há bastante tempo.

Ao avaliarmos a preservação ambiental e a gestão desse setor pelo governo do estado é preciso também considerar a outra ponta: os servidores que trabalham todo dia para garantir a gestão ambiental em Minas Gerais. Qual é hoje a realidade dos servidores do meio ambiente e como eles são pautados nos planos de governo?

Não se pode falar de preservação ambiental em Minas sem lembrar das pessoas que enfrentam riscos no dia a dia para fiscalizar um estado gigantesco. A greve de mais de 90 dias dos servidores escancarou problemas muito sérios, como a falta de fiscais e analistas para dar conta de todo o território, a escassez de equipamentos e veículos, e uma defasagem salarial gritante comparada a outras carreiras. Muitos servidores relataram também que trabalham sob forte pressão institucional na hora de analisar e emitir licenciamentos. 

Ao abrir os planos de governo, percebemos que eles pautam essa realidade de formas diferentes. Túlio Lopes, Patrus Ananias e Gabriel Azevedo colocam como prioridade a valorização direta e o fortalecimento do Sistema Estadual de Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Sisema). Túlio Lopes e Patrus prometem realizar novos concursos públicos imediatos para recompor o quadro técnico e garantir autonomia para que os pareceres não sofram interferência política. 

Gabriel Azevedo pauta a recomposição das equipes da Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável de Minas Gerais (Semad), da Fundação Estadual do Meio Ambiente (Feam), do Instituto Estadual de Florestas (IEF) e do Instituto Mineiro de Gestão das Águas (Igam), tentando garantir formação continuada e condições de trabalho dignas. 

Em uma linha de denúncia, Rafael Duda e a UP trazem a pauta da greve para as suas propostas, exigindo concursos públicos urgentes e a revogação de leis que permitem o automonitoramento, que ocorre quando a própria empresa contrata quem vai fiscalizá-la. 

Por outro lado, Mateus Simões, Benoni Mendes, Kalil e Cleitinho focam em tecnologia, modernização e simplificação dos processos. Mendes propõe a criação de um centro de inteligência com drones e satélites para fiscalização, no programa Minas Monitor; Mateus Simões foca no monitoramento remoto e no treinamento dos bombeiros; Kalil pauta a celeridade e o rigor do licenciamento por meio de capacitação técnica. 

Cleitinho propõe a valorização do funcionalismo de forma transversal, mas, no meio ambiente, prioriza a digitalização, a simplificação de licenças e o fortalecimento de órgãos regularizadores como a Agência Reguladora de Saneamento e Energia de Minas Gerais (Arsae). 

A grande mensagem que fica é que não existe política de desmatamento zero e proteção das nossas águas que funcione no papel se não cuidarmos de quem fiscaliza e analisa na prática. Valorizar o servidor do meio ambiente é o primeiro passo para proteger as riquezas de Minas Gerais.

Quando pensamos em gestão ambiental, não há como não levar em conta o processo de colapso climático que já temos vivenciado e tende a se agravar, com eventos climáticos cada vez mais extremos. Como a mitigação e adaptação são tratados nos planos de governo? O que, na sua visão, falta abordar e que propostas se destacam como boas soluções? 

Não dá mais para tratarmos a crise climática como um problema do futuro. As secas no Norte e nos Vales do Jequitinhonha e Mucuri, os temporais devastadores em Juiz de Fora, Ubá e Belo Horizonte, além das queimadas recordes, mostram que a adaptação precisa ser para ontem. Analisando os planos, percebo que os candidatos tratam a questão de formas diferentes e alguns parecem não compreender bem o tema. 

Patrus, Kalil e Gabriel Azevedo trazem a adaptação ligada à justiça climática e à segurança hídrica. Patrus fala em criar uma política estadual de enfrentamento à emergência climática, trazendo a educação ambiental e o apoio à transição agroecológica, que é uma temática interessantíssima. Kalil foca na segurança hídrica regional, na drenagem e no apoio aos municípios para criarem planos de adaptação locais, é fundamental. Gabriel Azevedo propõe a descarbonização dos transportes e o uso de metas anuais para proteger os biomas. 

Mateus Simões, Benoni Mendes e Cleitinho tratam o tema sob um viés tecnológico e preventivo de infraestrutura. Mateus Simões aposta no monitoramento remoto, reforça o trabalho com os bombeiros e o mercado de carbono. Eu sinto que tem palavrinhas soltas e da moda para que as pessoas achem que são coisas mais importantes, mas enfim. 

Benoni Mendes foca na transição energética, mas sem clareza de como fará isso. Cleitinho traz em seu eixo de desenvolvimento a criação de uma política estadual de adaptação climática, com foco no apoio às prefeituras contra enchentes e secas, na elaboração de planos de alerta precoce e no monitoramento de riscos em tempo real. 

Na ala mais radical, Túlio Lopes, Rafael Duda e a UP denunciam que o colapso climático é fruto do modelo predatório do agronegócio e das mineradoras, propondo a reestatização da água e a soberania das comunidades nas decisões. Ou seja, tratar a ideia da soberania também das águas, indo na contramão do que temos, mas talvez na mão do que precisamos.

O que mais faz falta nos planos é a ponte real entre o Estado e os municípios. Os textos falam de metas gerais, mas falta garantir verbas carimbadas para infraestrutura verde, contenção de encostas e drenagem nas cidades. O Estado também precisa respeitar e reforçar os planos diretores locais quando forem mais rígidos. 

Uma boa gestão para encarar essa urgência precisa focar em plantar água e proteger as nascentes, respeitar o planejamento territorial valorizando os saberes tradicionais, e fortalecer o serviço público ambiental com concursos, para garantir, minimamente, um braço forte na fiscalização. Adaptação climática não é só reagir ao desastre, mas mudar a lógica de ocupação do solo e colocar a vida e a natureza acima do lucro.

A Justiça Federal determinou a suspensão imediata dos efeitos de todas as licenças ambientais da Sigma Mineração S.A. no Projeto Grota do Cirilo e a paralisação total das atividades de lavra. Isso após entender que a Comunidade Quilombola do Baú, em Araçuaí (MG), não foi ouvida em consulta livre, prévia e informada. Usando este caso como gancho a mineração é uma das atividades de maior impacto ambiental e humano no estado de Minas Gerais. Os planos de governo pleiteiam uma forma mais dura de lidar com a mineração ou alternativas para que esse setor não cause impactos tão nefastos nos biomas e para a vida dos mineiros? Existem pontos negativos ou positivos a serem destacados na forma que os candidatos abordam o tema?

O caso da Sigma Mineração no quilombo do Baú é o retrato exato de como a mineração tem sido gerida em Minas: passa-se por cima dos direitos das comunidades, ignora-se a consulta prévia e livre (garantida pelos tratados internacionais) e o lucro vai embora, enquanto o impacto social e ambiental vai ficar no Vale do Jequitinhonha. Se juntarmos isso aos crimes impunes nas bacias do Rio Doce e do Paraopeba e aos esquemas de corrupção, fica evidente que o modelo mineral está esgotado. 

As propostas dos candidatos se dividem: Patrus Ananias propõe uma mudança de postura institucional, com revisão das isenções fiscais para exportação de minério bruto e obrigatoriedade de consulta prévia às comunidades; 

As candidaturas socialistas de Túlio Lopes, Rafael Duda e da UP propõem o enfrentamento direto ao grande capital, acabando com o automonitoramento, suspendendo atividades predatórias e reestatizando a cadeia sob o controle dos trabalhadores;

Gabriel Azevedo propõe revisar os benefícios fiscais e usar a CFEM para construir ferrovias; Simões, Mendes, Kalil e Cleitinho abordam a mineração com foco na atração de investimentos, tecnologia e agregação de valor. Simões e Benoni defendem dar segurança jurídica ao investidor e usar tecnologia nas barragens. Kalil fala em industrializar o minério no estado. Cleitinho propõe uma “mineração do futuro” com aproveitamento de rejeitos, o que é problemático, e o desenvolvimento de cadeias de maior valor agregado. 

O ponto positivo é que quase todos reconhecem, pelo menos textualmente, que Minas não pode continuar apenas exportando minério bruto e deixando terra arrasada. O ponto negativo é a continuidade de propostas de licenciamento simplificado, que são vendidas como solução de eficiência, que abrem brechas para atropelos aos direitos humanos e ambientais, exatamente como aconteceu em Araçuaí.

A lição do caso do Quilombo do Baú é que não existe mineração sustentável sem respeito à vida, ao território e às decisões das comunidades. Muitas vezes tem soluções técnicas, muitas vezes tem mitigações ambientais, mas a decisão das comunidades que vivem naqueles lugares precisa ser soberana, precisa ser defendida e escutada.

Falando de mineração, um caso à parte com diversas complicações é o da possível exploração das Terras Raras. Até que ponto esse debate deve ser feito a nível estadual? De que forma essa especificidade das terras raras é tratada nos programas de governo? Algum deles é assertivo ou suficiente na abordagem sobre o tema?

As terras raras estão no centro do debate político, principalmente quando temos investimentos dessa vultuosidade, como o exemplo do projeto Caldeira de 2 bilhões de reais. Respondendo direto a sua pergunta, na minha visão, o debate deve ser feito no nível estadual. O governo não pode se esconder atrás de Brasília, pois a licença ambiental, a outorga da água e a gestão da CFEM são responsabilidades diretas do governo de Minas. Se o Estado cruza os braços, vira um mero carimbador de licenças para essa cambada de empresa gringa que vai invadir o nosso território.

Nos planos, Benoni Mendes coloca as terras raras como bandeira, prometendo criar uma indústria de refino, mas defendendo licenciamento simplificado por faixa de risco.

Mateus Simões aposta em atrair multinacionais focando na segurança jurídica para o investidor, não vimos nenhuma proteção para os mineiros. Cleitinho propõe fomento à pesquisa para criar uma cadeia de valor agregado, mas atrelada à facilitação do licenciamento digital. 

Patrus, Kalil e Gabriel Azevedo exigem que o mineral seja processado em Minas antes de ser exportado. Patrus propõe retirar isenção fiscal de quem só exporta minério bruto e exigir consulta prévia. Túlio Lopes, Rafael Duda e a UP denunciam a exploração como um saque neocolonial e propõem estatização com controle popular e poder de veto do povo, questões que defendem mesmo a nossa soberania. 

Na minha visão, nenhum deles é totalmente assertivo. As candidaturas alinhadas ao mercado ficam deslumbradas com as cifras de bilhões anunciadas pelas multinacionais e caem na ilusão do desenvolvimentismo. Ou seja, entregam a água e a terra e em troca temos alguns empregos temporários, alguns royalties irrisórios?

As propostas progressistas acertam na soberania, mas carecem de um plano operacional detalhado de como impedir que esses projetos entrem em operação, sem que haja transferência tecnológica real para o Brasil. 

O correto seria o governo adotar três travas: a trava do licenciamento, ou seja, nenhuma licença sem para as terras raras sem que a empresa construa a planta de refino e a separação química dentro do estado, acabando com a farra de exportar lama concentrada; 

A trava da soberania, que quer dizer, proibição de contratos de exclusividade que entreguem todo minério estratégico para uma única potência estrangeira; e a trava do território, dando poder real de veto às comunidades afetadas. Sem isso, a transição energética do mundo rico continuará sendo paga com a água, o suor e a contaminação do povo mineiro.

Para fechar, proponho um bate-bola rápido sobre suas impressões principais dos programas, começando por Alexandre Kalil (PDT).

Kalil propõe integrar a conservação ambiental ao desenvolvimento urbano e à segurança hídrica. Ele busca fortalecer instituições como o Igam e a Semad e modernizar o licenciamento com segurança jurídica.

Benoni Mendes (Missão)

Ele estrutura sua gestão ambiental em torno do monitoramento tecnológico por meio do programa Minas Monitor, atrelando os minerais críticos a cadeias de inovação, mas com licenciamento simplificado por faixa de risco.

Cleitinho Azevedo (Republicanos).

Ele pauta a digitalização do licenciamento, a fiscalização de barragens e o aproveitamento de rejeitos, além de propor uma política estadual de adaptação climática e proteção das nascentes.

Você comentou que o aproveitamento dos rejeitos era um risco, por quê?

Mineradoras querem recompor paisagens degradadas com rejeitos de mineração, o que é inadequado por conter metais pesados e contaminantes. Se essa moda pegar em Minas, além da água, teremos solos e lençois freáticos contaminados.

Flávio Roscoe (PL).

A lógica dele é cortar o que ele chama de papelada e burocracia do meio ambiente e dar licenças mais rápido para atrair investimentos, mas promete criar um site público para a população fiscalizar se as mineradoras e as grandes empresas estão mesmo cumprindo as condicionantes ambientais.

Gabriel Azevedo (MDB)

Defende a redução do desmatamento via sensoriamento remoto (quero que ele nos conte como vai fazer isso), a recomposição do Sisema, a descarbonização dos transportes e o uso da lista de espécies ameaçadas como critério orçamentário.

Henrique Áreas

Tanto Henrique Áreas quanto Indira Xavier da UP e Rafael Duda têm propostas parecidas, pautando a gestão pela revogação das leis flexibilizadoras, o fim do automonitoramento, a estatização dos recursos e a criação de conselhos populares.

Mateus Simões (PSD), atual governador de Minas Gerais.

Ele herda a atual política, focando no monitoramento remoto contra o desmatamento e queimadas, tenta inserir Minas no mercado de carbono e energias verdes. Ou seja, ele vem reforçando o que é feito pelo atual governo: o desmantelamento dos servidores e a simplificação do licenciamento ambiental.

Patrus Ananias (PT).

Ele propõe, o que eu achei muito interessante, uma política estadual de emergência climática baseada na justiça ambiental, na restauração de nascentes, na transição agroecológica e na revisão das isenções fiscais à mineração sem agregação de valor.

O que ele propõe, através da construção de uma política de enfrentamento, eu vejo com muitos bons olhos. Ele busca olhar para os vários setores da sociedade, pensa a proteção e o reflorestamento direto, e a revisão de isenções fiscais que nós sabemos como funciona em Minas Gerais: Muitos que deveriam pagar de acordo, pagam em desacordo.

Túlio Lopes (PCB).

Ele defende um combate direto ao agronegócio e ao modelo predatório de mineração, propondo fortalecer os órgãos ambientais com novos concursos públicos, acabar com o automonitoramento e colocar investimento na agroecologia, garantindo que o povo e as comunidades tenham controle real sobre a terra e a água.

Editado por: Lucas Wilker

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