VISÕES POPULARES

Balanço e desafios da saúde em Minas Gerais para o próximo governo, com Unaí Tupinambás 

Mineiros consideram saúde o maior problema do estado; governo Zema deixa para trás saldo negativo, diz médico

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Tupinambás é médico infectologista e professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). | Crédito: Brasil de Fato MG

Pesquisas de opinião apontam que a população de Minas Gerais considera que a saúde é o maior problema do estado. Diante desse cenário, esse é o tema que abordamos no quarto episódio da série especial de eleições do Visões Populares. 

Para falar sobre o tema, convidamos Unaí Tupinambás, médico infectologista e professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Ele analisou o que aconteceu com a saúde pública em Minas Gerais nos últimos oito anos da gestão Zema/Simões e os principais desafios a serem enfrentados por quem vencer as eleições para o governo de Minas Gerais.

“Podemos falar que foi uma catástrofe, uma tragédia, o governo Romeu Zema (Novo) na saúde. Esperamos que o próximo governo valorize o SUS, a ciência e os trabalhadores da área de saúde, e possa reverter esse cenário, que é um cenário de terra arrasada na área da saúde”, avalia o infectologista.

Confira a entrevista completa 

Brasil de Fato MG – Que aspectos devem estar presentes quando pensamos a política de Saúde no nosso estado. E quais são os principais gargalos e demandas na área em Minas Gerais? 

Unaí Tupinambás – Infelizmente, não temos muito o que comemorar nestes oito anos do governo Zema-Simões. Três características marcam esse período: a omissão, a incompetência e a burocratização. 

A omissão ficou muito explícita na época da pandemia. O governador até chegou a falar que o vírus tinha que circular, enquanto nós falávamos que não, o vírus não tinha que circular e que tínhamos que esperar a vacina chegar. Quando a vacina chegou, para piorar a situação do governo Zema, houve aquele fura-fila: o secretário de saúde furou a fila de quem deveria vacinar. 

Algumas pessoas, parentes e amigos foram ao galpão do aeroporto aqui em Belo Horizonte e receberam a vacina em detrimento aos trabalhadores da saúde que estavam na ponta. Isso foi catastrófico. Lembrando também que os municípios ficaram abandonados às suas próprias iniciativas, às vezes não confrontadas pelo próprio estado. Foi uma catástrofe na pandemia. 

Dos seis prometidos, ele não fez nenhum; um foi uma iniciativa privada do Mário Penna e o outro foi do Governo Federal. Isso deixa bem claro o quanto o governo foi letal para a saúde, e não podemos esquecer o desmonte da Fhemig. Ele está sucateando o Hospital Júlia Kubitschek, que está sob controle do Hospital Mário Penna. Fechou o Hospital Maria Amélia Lins, lembrando aos ouvintes que o Maria Amélia Lins é o hospital que mais faz cirurgias ortopédicas em Minas Gerais, neste cenário de acidentes de moto. 

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Vemos uma escalada no aumento de acidentes com motos e entregadores de bicicleta. Essas pessoas que quebram a perna não conseguem trabalhar nem gerar renda. Ficam aguardando em uma fila para operar. O governo Zema fecha o hospital nesse cenário de aumento de demanda por esse serviço, e não coloca nada no lugar. É uma situação catastrófica. 

Podemos falar também da saúde mental e dos CAPS. Ele desmonta a característica do Centro de Atenção Psicossocial, onde deveríamos ter a internação diária para desospitalizar os pacientes em sofrimento mental. Ele desestrutura essa rede, não forma a Rede de Atenção Psicossocial e deixa muitos vazios assistenciais em Minas Gerais.

Lembrando que, neste cenário catastrófico de apostas em ‘bets’ e crise climática, com pessoas viciadas nas ‘bets’ e no abuso de álcool e outras drogas, o governo vem desmontando a rede e criando outras soluções que sabemos que não dão certo. São aquelas clínicas e casas de internação, que notoriamente apresentam desvios de verbas e problemas com os direitos humanos. 

Podemos falar que foi uma catástrofe, uma tragédia, o governo Zema na saúde. Esperamos que o próximo governo que assumir,  seja um governo do campo progressista que valorize o SUS, a ciência e os trabalhadores da área da saúde, e possa reverter este cenário de terra arrasada na área da saúde.

Segundo uma pesquisa Quest divulgada em Julho deste ano, a saúde em Minas está entre as áreas com pior avaliação pelos eleitores mineiros. Após oito anos de governo Romeu Zema/Mateus Simões, 32% avaliam a condição da saúde no estado como negativa. Como é, hoje, a condição dos servidores públicos da saúde em Minas e como os candidatos a governador propõem lidar com a precarização herdada do governo Zema e sentida pelos mineiros nos serviços de saúde?

O candidato que vencer, que espero que seja do campo que valoriza o SUS, a ciência, a tecnologia e os trabalhadores, vai herdar uma dívida e um passivo trabalhista, porque não há aumento nem valorização dos profissionais da área de saúde. Vemos, por exemplo, hospitais como o Júlia Kubitschek e o João XXIII com trabalhadores sem reajuste, condições de trabalho precárias e sucateamento dos equipamentos. 

O João XXIII é o hospital de referência em Belo Horizonte. Mesmo quem tem saúde suplementar, se sofrer um acidente, quer ser levado para o João XXIII, pois lá tem uma equipe estruturada e competente que sabe lidar com pacientes politraumatizados. E essa equipe, seja do João XXIII, do Júlia Kubitschek, do Maria Amélia Lins – que acabamos de falar que foi fechado – ou do Alberto Cavalcanti, não tem reajuste. 

Mais uma vez, os equipamentos estão sucateados e obsoletos, sem qualquer perspectiva. Esperamos que o novo governador possa reerguer o complexo hospitalar da Fhemig e pegar os recursos que foram oferecidos pelo Governo Federal de 2022 a 2026 e que foram mal gerenciados. 

Se houver uma dobradinha interessante do governo estadual com o Governo Federal, esse repasse de recursos poderá ser usado para reestruturar a rede da Fhemig, a Rede de Atenção Psicossocial e a área de atenção primária. Também poderá acabar com as filas para cirurgias e consultas eletivas, nas quais houve um avanço pelo Governo Federal com o programa Mais Acesso a Especialistas e a saúde digital. 

Todas essas iniciativas do Governo Federal não foram bem aproveitadas pelo governo estadual, muito por conta de uma birra infantil do governo estadual de não aceitar recursos federais. Quando aceitava o recurso e realizava as ações, o nome do Governo Federal era omitido. Parecia que era apenas uma iniciativa do governo estadual, quando, na verdade, era uma iniciativa do Governo Federal que era omitida.

Outro ponto sensível foi o plano de fechamento de unidades estratégicas da rede Fhemig, encampado pelo governo Zema. De que forma a diminuição dos leitos e o fechamento de hospitais é tratado nos planos de governo? Como você avalia que este gargalo deveria ser tratado? 

O governo Zema propôs esses hospitais novos, que comentei que ele não entregou, e propôs, inclusive, fechar o Maria Amélia Lins, o Júlia Kubitschek e o Alberto Cavalcanti para criar um hospital só, que seria o HOPE, um hub desses três hospitais. Mas é um hospital que sequer saiu do projeto e não tem nenhuma perspectiva de ser iniciado, e isso diminui a oferta de leitos. 

Vou citar mais uma vez a tragédia que é não ter leitos para cirurgia ortopédica. O Hospital Risoleta Neves, que é um hospital do SUS cuja gestão é feita pela Universidade Federal de Minas Gerais, está sobrecarregado. Os pacientes começaram a se dirigir para lá e a fila para a cirurgia ortopédica só faz aumentar, repito, neste cenário de aumento de acidentes com motocicletas. Isso é uma tragédia para a família e para a pessoa que fica esperando pela cirurgia. Ela não vai receber salário, o que vai gerar pobreza. 

A proposta para o próximo governo seria aumentar a oferta de leitos estratégicos e regionalizar esse cuidado. Eu trabalho na região hospitalar, no Hospital das Clínicas, e vemos muitas ambulâncias do Norte de Minas e do Vale do Jequitinhonha, cujos pacientes poderiam muito bem ser atendidos em regionais como Diamantina, Teófilo Otoni, Governador Valadares, Montes Claros ou Juiz de Fora. 

Isso não só facilitaria a vida, mas também poderia salvar vidas. Transferir um paciente do Norte de Minas para Belo Horizonte pode ser uma questão de vida ou morte. Ter um hospital regionalizado, bem equipado e montado pode fazer a diferença entre a vida e a morte nesses casos. Temos que estar atentos a essa descentralização. Precisamos fortalecer as regionais de saúde em Minas Gerais, criando autonomia, dando recursos e entregando o que foi prometido em relação aos hospitais regionais. 

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Sabemos que a atenção primária teve um ganho muito grande nestes anos, muito por conta do investimento do Programa Mais Médicos do Governo Federal. A grande maioria dos territórios mineiros tem pelo menos uma equipe de Saúde da Família, que poderia ser muito mais bem estruturada se houvesse uma parceria mais afinada com o Governo Federal. 

O Governo Federal tem vários projetos de saúde digital onde é possível fazer uma consulta virtual com um especialista, estabelecendo uma triangulação entre médico, paciente e especialista. É uma ideia fantástica para o Brasil e para o mundo, pois facilita o processo. Não é necessário enviar o paciente presencialmente ao cardiologista ou ao endocrinologista; faz-se a consulta virtual. Na maioria das vezes, o médico da ponta consegue resolver. 

A conta é mais ou menos a seguinte: de cada dez pessoas encaminhadas para a especialidade, é possível fazer uma triagem. Assim, o médico da atenção primária, recebendo a orientação adequada do especialista, consegue resolver o problema ali. Resta em torno de 20% dos casos que realmente precisam ser encaminhados para a atenção secundária. 

Ou seja, temos que fazer uso da saúde digital, que ainda é incipiente. Mais uma vez, o Governo Federal tem recursos para isso. Há uma secretaria no Ministério da Saúde que trata de saúde digital, que precisamos expandir para podermos ter um SUS em Minas Gerais com mais resolutividade, equidade e fácil acesso. 

E, claro, tudo isso deve estar aliado a uma política de valorização do trabalhador. Não temos concurso público; o que se vê são contratos. A pessoa é contratada para dar um plantão, depois o contrato cai, ela tem que fazer outro, e o salário é pior. Não se fixa o profissional no serviço, e assim não se cria uma horizontalidade do cuidado. Há uma alta rotatividade. 

As pessoas concursadas que amam os hospitais, trabalhadores que conhecemos do Júlia Kubitschek, do João XXIII, do Alberto Cavalcanti, têm um carinho especial por essas unidades e estão se aposentando. Em seus lugares, entram pessoas sem vínculo, devido a contratos de trabalho muito precarizados. É a pejotização ou uberização do trabalho na saúde. Às vezes o trabalhador não tem décimo terceiro nem férias. Realmente será um grande passivo que teremos na saúde e que dará muito trabalho.

A privatização na área da saúde está presente nos planos de governo dos principais candidatos? Como você avalia as propostas?

Primeiro, saúde e educação não são mercadorias. Como o Governo Federal sempre diz, saúde e educação não são gastos, são investimentos. O presidente Lula fala muito isso: gasta-se mais mantendo um presídio do que com uma professora dando aula para um aluno, pois, com a educação adequada, esse aluno terá um futuro melhor, longe do crime organizado. Isso é claro. 

Saúde não é custo, é investimento, e não é mercadoria. Vamos combinar que não dá para querer tirar lucro da saúde. Quem quiser fazer uma parceria na privatização vai querer ter lucro. O governo vai repassar um valor, e qualquer pessoa que faz contas no mercado entende isso: se o governo der dez para o gestor administrar a unidade, ele vai querer tirar o lucro dele. Então, o que ele vai fazer? Vai sucatear, colocar menos profissionais de saúde, oferecer menos serviços e criar barreiras de acesso. 

Não haverá a longitudinalidade do cuidado, que é fundamental para doenças crônicas. O acompanhamento contínuo da trajetória de vida do paciente se perde; Na rede pública, se o paciente tem tuberculose, o agente comunitário vai até ele ver se está tomando o remédio. Se tem diabetes, o profissional vai incentivar a dieta e o exercício físico na academia da cidade. 

Se você privatiza a saúde, o gestor vai querer lucro. De onde ele vai tirar? Vai reduzir o salário, a oferta de serviços e criar barreiras de acesso, vai burocratizar ainda mais para não ter gastos. 

Na proposta do campo progressista, está muito claro que a saúde é um direito e um dever do Estado, ponto final. Claro que temos que buscar recursos, pois sabemos que o SUS sofre com subfinanciamento desde sempre. Infelizmente, não conseguimos aumentar a alíquota de financiamento do SUS. Quando entra um governo democrático, preocupado com a justiça social, a democracia, a saúde e a educação, há um aumento do aporte. Não aumenta mais por conta do Congresso, devido às emendas impositivas, que dificultam a aprovação de pautas de interesse da população para aumentar a cobertura financeira. 

Mesmo nesse cenário, voltando a Minas Gerais, houve um incremento no financiamento, um aumento de cerca de 40% na oferta de financiamento para a atenção primária e para a atenção especializada. Gostaria de deixar claro que Patrus Ananias, quando prefeito, foi quem municipalizou o SUS. Belo Horizonte foi a primeira prefeitura a municipalizar o sistema de saúde, no início da década de 1990. Até hoje esse modelo é referência, embora algumas gestões recentes venham enfraquecendo o SUS, umas mais e outras menos. 

Contudo, nas gestões de Patrus, de Célio de Castro e, posteriormente, nos anos de Fernando Pimentel, o SUS só foi fortalecido. Ele tem experiência e conta com uma equipe de saúde que já sabe fazer a gestão da área. Têm propostas excelentes para avançarmos nesse cuidado regionalizado e qualificado, tanto na atenção primária quanto na secundária, junto ao programa Mais Acesso a Especialistas. 

E também, como falei anteriormente, há foco na reestruturação da rede de atenção da saúde mental e dos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), que foram desestruturados. Vamos estruturar melhor esse cenário junto ao Fórum Mineiro de Saúde Mental. Todos sabemos que vivemos uma crise na saúde mental, com o aumento da dependência e do abuso de álcool e outras drogas. 

Há também a questão das apostas em ‘bets’. O governo Lula recentemente se propôs a enfrentar as ‘bets’, o que considero fundamental, pois funcionam como um desvio de dinheiro do mais pobre para o mais rico. Cria-se a ilusão de ganhar dinheiro, a pessoa entra num ciclo vicioso que infelizmente acaba em histórias de suicídio, depressão e abandono, levando a família toda à bancarrota. Teremos que lidar com isso, reestruturando e fortalecendo a Rede de Atenção Psicossocial e a saúde mental.

Este ano, o Hospital Colônia de Barbacena, um dos locais mais associados a violações de direitos humanos no país, teve as atividades definitivamente encerradas. E embora a capital do nosso estado tenha um histórico forte de luta antimanicomial, o debate está longe de estar encerrado, sendo permeado ainda por discussões éticas e estruturais. De que forma os candidatos abordam o tema da saúde mental? Você vê algum destaque positivo ou negativo nas propostas?

De negativo, não vejo nada nas propostas do Patrus Ananias. Quem está elaborando o plano de saúde mental é uma equipe bem especializada, que já enfrentou essas questões na década de 1990 e que também atua junto ao Governo Federal. É uma equipe que faz uma crítica contundente às comunidades terapêuticas, pois sabe o quanto são complicadas. 

Toda semana ou mês vemos manchetes de clínicas sendo fechadas por maus-tratos e trabalho escravo. São clínicas que recebem somas vultuosas do governo para funcionarem. Repito: é preciso reestruturar os CAPS, e também a Rede de Atenção Psicossocial, além de as equipes para focar na desinstitucionalização. 

Claro que há pessoas com sofrimento mental que eventualmente precisarão ser internadas, mas são a minoria. Os pacientes passarão o dia no CAPS recebendo tratamento e cuidados, como fisioterapia e terapia ocupacional, sendo medicados e tendo o suporte médico e do SAMU para a cobertura dessas unidades. 

Quando você desestrutura essas unidades públicas, o que sobra para essa população, em meio aos vazios assistenciais, é a comunidade terapêutica. A família, desesperada, não tem alternativas quando o CAPS fecha. O que sobra é uma atenção à saúde mental muito aquém do necessário, com problemas de violações aos direitos humanos e trabalho escravo. Essa não é a solução. A solução é fortalecer o sistema de saúde, os CAPS e a rede de atenção à saúde mental, e tudo isso está presente nas propostas.

O SUS é composto pelo Ministério da Saúde, Estados e Municípios, conforme determina a Constituição Federal, distribuindo a responsabilidade, ou seja, cada ente tem suas corresponsabilidades. Como os candidatos se posicionam sobre a relação com a esfera federal e municipal quando o ponto é a saúde? Qual a importância de ter essa parceria bem alinhada?

Isso é algo muito óbvio. Quando você tem um governo republicano, não precisa que o estado e a união sejam do mesmo partido. O governo Lula foi muito republicano, oferecendo recursos para todos, pois governa para todo o país, e tem que ser assim mesmo. Se o governo estadual era de outro partido, não havia problema, os repasses eram feitos. 

Mas o governo do estado também precisa querer receber e saber fazer o uso correto dos recursos. Às vezes faltava capacidade técnica para aplicar aquele dinheiro; é preciso saber executar os recursos. Muitas vezes faltava uma estrutura adequada. 

Houve um desmonte e um seccionamento na Secretaria Estadual de Saúde e é o desmonte do corpo técnico que impede que o recurso chegue à ponta. Acaba sendo uma questão de vontade política. Repito: não precisa ser do mesmo partido. Claro que, se for do mesmo partido, a coisa flui mais facilmente e a conversa ocorre de forma menos truncada. 

Mas esse republicanismo do Governo Federal atual não foi visto no governo anterior. O atual governo ofereceu propostas de financiamento para a atenção primária e secundária, como o programa Mais Acesso a Especialistas. Muitas cidades enfrentaram entraves por não terem corpo técnico para fazer a fila andar, o que é uma questão delicada. Se houvesse pessoas indicadas pelo governo estadual para gerenciar e fazer a fila do programa andar, a implementação seria muito mais fluida. 

Ainda assim, a situação melhorou e conseguimos avançar na questão da atenção secundária. A atenção secundária refere-se aos especialistas: reumatologista, cardiologista, ortopedista e neurologista, por exemplo. E deixo claro aos ouvintes que até na saúde suplementar, ou seja, nos planos de saúde privados, há dificuldade de acesso. Em vários convênios, os médicos especialistas têm filas de espera de três ou até seis meses por uma vaga. Trata-se de uma questão estrutural e conjuntural. 

::Ouça: Mobilidade urbana e transporte nos programas dos candidatos, com André Veloso::

Com isso em mente, se tivermos um governo estadual com uma visão republicana e federativa em sintonia com o Governo Federal, tudo ficará muito mais fácil. O recurso chegará mais rápido e será gasto de forma eficaz por um corpo técnico reestruturado. 

O atual governo estadual precisaria ter vontade política para formar um grupo técnico capacitado para gerir esses repasses. Acreditamos que o candidato do nosso campo terá esse corpo técnico preparado para administrar os recursos, e esperamos que o próximo governo assuma uma postura republicana. O foco não é governar para o próprio partido. Ficou claro que o Governo Federal atual governa para o povo brasileiro, não para um partido específico. Se houver essa afinidade entre a união e o estado, as ações fluirão mais rapidamente e com maior eficácia.

Nos aproximando da sua área de pesquisa e de um tema que tem gerado bastante preocupação, tem crescido no Brasil nos últimos anos um movimento de pessoas que nega a eficácia e se recusa a tomar vacinas. Aqui em Minas essa realidade também se impõe. De que forma os candidatos se posicionam e tem propostas concretas para combater o negacionismo e fortalecer as vacinas? Na contramão disso, existem candidatos que fomentam em seus planos o negacionismo?

Sabemos que os candidatos que estão postos, com exceção de um ou outro, têm posições variadas. No caso do Patrus Ananias é muito claro: a vacina salva vidas, deve ser expandida, ofertada e novas vacinas devem ser incorporadas ao sistema. 

Essa questão que você colocou me tocou muito na época da pandemia, com o fortalecimento desse movimento antivacina, que é impulsionado pela extrema-direita. Vimos em outros estados mais de 2.000 casos de sarampo. É uma doença que já estava erradicada e que voltou a causar mortes. E houve gestores de saúde que tentaram retirar alguns óbitos dos registros oficiais, alegando que a morte não foi diretamente pelo sarampo, mas por complicações decorrentes dele. 

Preciso falar diretamente com o ouvinte: não caia nessa de achar que não precisa tomar vacina contra coqueluche ou sarampo porque as doenças não circulam mais. Elas não circulavam justamente porque nós vacinávamos. Desde as décadas de 1970, 1980 e 1990, nós tínhamos uma excelente cobertura vacinal. 

Abro um parêntese para o Programa Nacional de Imunizações (PNI), que era um modelo mundial. O Brasil era o único país a oferecer, na rede pública, todas as vacinas preconizadas pela OMS para a infância. Batíamos patamares de mais de 90% ou 95% de cobertura vacinal. A minha geração vacinou-se. 

Quando eu era estudante de medicina, entre 1985 e 1986, ainda vi crianças morrendo no hospital por causa do sarampo. Logo depois, a cobertura foi expandida. Mesmo em outros governos de diferentes matrizes ideológicas, não havia essa conversa atravessada de ser contra a vacina. É um discurso que não sei de onde tiraram. 

Com a expansão da vacinação a partir dos anos 1980, nós eliminamos o sarampo, a coqueluche e a rubéola; a varíola já havia sido erradicada e estávamos caminhando para controlar a hepatite B. Aí, as pessoas começam a falar: “Não vou vacinar. Para quê? É bobagem, a doença nem existe mais”. Não existe mais exatamente porque nos vacinamos no passado. Chamamos isso de paradoxo da prevenção. Como as pessoas não veem mais a doença, acham que não precisam se vacinar. Ao deixarem de vacinar, o que acontece?

 Vemos surtos de sarampo no México, nos Estados Unidos e em alguns países das Antilhas. A coqueluche voltou. Em 2023, tivemos 10 óbitos por coqueluche no Brasil. Em 2024, foram 14 óbitos. As pessoas nem sabem mais o que é a coqueluche. Quando eu era criança, meu primo teve coqueluche. Vi o tanto que ele sofreu, quase morreu. É uma tosse intensa que deixa a criança sem ar e pode evoluir para o óbito. Tivemos mortes recentes por uma doença imunoprevenível, coberta pela vacina tríplice. Deixo claro que toda gestante deve tomar essa vacina na gestação para  imunizar a si mesma e ao bebê. É uma vacina que vale por dois, protegendo a mãe e o recém-nascido. 

Nos últimos anos, houve um aumento da cobertura vacinal, mas, infelizmente, ainda não chegamos ao patamar do início da década de 2010. Vimos essa conversa atravessada antivacina surgir com força e ganhar espaço, mas agora estamos conseguindo avançar novamente na cobertura. 

O SUS implementou a vacina do vírus sincicial respiratório. Deixo bem claro para as gestantes que nos ouvem que essa vacina é indicada na gravidez e previne a bronquiolite, doença que causa a morte de muitas crianças menores de seis meses. Ao tomar a vacina contra o VSR, a mãe se protege e passa os anticorpos para o bebê, garantindo que ele fique protegido nos seus primeiros seis meses de vida, um período de grande vulnerabilidade. 

Nesta primeira rodada de vacinação, que teve uma cobertura interessante, vimos que as gestantes aderiram bem. Dados mostram que já houve uma redução de 50% nas internações de crianças por bronquiolite. Temos trabalhos mostrando que, de cada dez pessoas que apresentam hesitação vacinal (que é o medo causado por fake news, como as histórias absurdas de que a vacina transforma a pessoa em jacaré), se bem informadas, conseguimos reverter esse quadro em até oito pessoas.

É compreensível que as pessoas tenham medo quando até um presidente da República fala que a vacina faz virar jacaré. Por si só, ele deveria ser preso por conta disso, pois é um crime de lesa-pátria espalhar algo assim. A pessoa fica com receio, mas quando conversamos e orientamos no dia a dia, e aqui destaco o papel fundamental da imprensa em esclarecer os fatos, de dez pessoas hesitantes, conseguimos convencer oito a se vacinarem. Elas compreendem que a vacina é segura e eficaz. 

Infelizmente, sobram aqueles 20% que estão sequestrados em um universo paralelo. Nesses casos é mais difícil encontrar solução. Mas conseguimos convencer oito em cada dez pessoas de forma transparente, horizontal e dialógica, explicando que a vacina existe exatamente para evitar a doença, e que algumas doenças desapareceram justamente porque a população foi vacinada no passado. 

Há uma diferença clara entre a hesitação vacinal e o negacionismo. Com a hesitação vacinal, o Governo Federal fez o seu papel, os trabalhadores da saúde e a imprensa também, conseguindo avançar e aumentar a cobertura. A parcela negacionista minoritária é a que continuará no seu universo paralelo, acreditando em terra plana, por exemplo.

Editado por: Lucas Wilker

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