VISÕES POPULARES

Políticas para as mulheres: como os candidatos ao governo de Minas Gerais abordam o tema?

Minas Gerais concentra 11,3% de todas as vítimas de feminicídio do país, ocupando o segundo lugar nacional.

No audio source provided.

....
Bruna Camilo é doutora em ciências sociais pela PUC Minas e pesquisadora de gênero, misoginia e políticas públicas. | Crédito: Brasil de Fato MG

Para encerrar a série especial de eleições, o Brasil de Fato MG aborda as propostas dos candidatos ao governo de Minas para as mulheres mineiras.  Segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2026, Minas Gerais concentra 11,3% de todas as vítimas de feminicídio do país, ocupando o segundo lugar nacional em números absolutos.

“Infelizmente, o nosso estado é um dos mais violentos do país, é uma realidade assustadora. É violento ser mineira atualmente e isso é muito difícil da gente reconhecer e aceitar”, comenta Bruna Camilo, doutora em ciências sociais pela PUC Minas e pesquisadora de  gênero, misoginia e políticas públicas. 

Confira a entrevista completa

Brasil de Fato MG – O que precisa estar presente quando pensamos em uma política que seja voltada para as mulheres no nosso estado? Quais são os principais gargalos e demandas nesse tópico em Minas Gerais? Aqui pensando não só a multiplicidade de demandas que envolve a vivência das mulheres mineiras, mas também as desigualdades presentes em um estado da proporção do nosso.

Bruna Camilo – A primeira coisa que precisamos reconhecer é que não existe uma única experiência de ser mulher em Minas Gerais. Estamos falando de um estado com 853 municípios e desigualdades territoriais enormes. Então, por exemplo, a mulher que vive em Belo Horizonte não, necessariamente, enfrenta os mesmos obstáculos de uma mulher do Vale do Jequitinhonha, do Norte de Minas, do Triângulo Mineiro ou do Sul de Minas. Cada mineira tem a sua peculiaridade, isso já é um desafio muito grande. 

Existe uma segunda camada, que é a desigualdade. As mulheres não estão na mesma posição social, temos as mulheres negras, as mulheres pobres, as mulheres quilombolas, as mulheres do campo, as indígenas, mulheres com deficiência, mulheres trans e mães solo. Cada uma enfrenta suas barreiras específicas. 

Então, quando eu penso numa política estadual para as mulheres, o que a gente precisa focar? Por exemplo,  em uma leitura dinâmica do projeto de um candidato ou candidata, o que tem que ter minimamente? Eu colocaria cinco grandes dimensões:

Primeiro a violência, infelizmente o nosso estado é um dos mais violentos do país, é uma realidade assustadora, é violento ser mineira atualmente e isso é muito difícil de reconhecer e aceitar. Então, Minas precisa ter uma rede capaz, não apenas de atender a mulher depois da agressão, mas  identificar as situações de risco e impedir que elas evoluam para uma forma mais grave. É necessária prevenção, é necessária educação, porque o ponto da violência é um ponto muito crítico no nosso estado. 

Outro ponto super necessário, para muitas mulheres (eu diria todas), é que é mais possível sair de uma situação de violência quando se tem autonomia econômica. A gente sabe que uma das violências que as mulheres sofrem é a violência patrimonial, ou seja, quando os seus bens são confiscados ou são proibidas de trabalhar. Não adianta dizer para uma mulher romper com uma relação de violência se ela não tem renda, se ela não tem trabalho, se ela não tem moradia, se não tem crédito disponível para os seus filhos e filhas ou qualquer outra rede de apoio. A autonomia econômica também é uma política de prevenção da violência. 

Um terceiro ponto seria a saúde integral. Eu sou assessora do Ministério da Saúde e a gente consegue perceber de perto a nossa preocupação com a saúde da mulher. Claro que a saúde dos homens, a saúde de outros grupos, é tão importante quanto, mas a saúde da mulher é algo fundamental para nossa sociedade. Nós somos maioria no país, somos quem desenvolve a economia do cuidado, nós somos uma grande estrutura da sociedade. 

E a gente está falando aqui de todas as mulheres, não apenas, por exemplo, a gestante. Pensa-se muito na gestante por conta do pré-natal, mas são todas as mulheres, inclusive  as mulheres trans, por exemplo. É necessário pensar na saúde das mulheres LBTs (lésbicas, bissexuais e transexuais). As mulheres gestantes, por outro lado, têm toda a delicadeza daquele momento da gestação e da hora do parto, por exemplo, para não ter a violência obstétrica. 

Assim como as mulheres de todas as regiões de Minas, as mulheres em diversos momentos da sua vida também têm as suas especificidades: temos que falar de saúde sexual e reprodutiva, pré-natal, puerpério, menopausa, endometriose (que é uma discussão que tem chegado com muito mais força no Ministério da Saúde para a gente colocar isso na ponta da atenção primária), saúde mental. Além disso, o atendimento à vítima de violência dentro dos espaços de saúde, porque sim, uma das portas de entrada para acolher uma mulher em situação de violência é o postinho. Então, a saúde é literalmente integral. 

O outro ponto importante é a política de cuidado. É aquela coisa: quem cuida das crianças, dos idosos, das pessoas com deficiência, dos familiares doentes? São as mulheres, hoje esse trabalho recai desproporcionalmente na vida das mulheres. A política nacional do cuidado foi aprovada em 2024, mas e na prática? Como vamos fazer com que isso, do nível nacional, chegue nos estados? Como esses candidatos estão lidando com a política nacional do cuidado? Eles estão pensando no cuidado? 

É importante a gente dizer que os candidatos com maior destaque são homens. Esses homens estão entendendo que o cuidado também é sobre a divisão sexual do trabalho, que os homens também têm que se responsabilizar pelo cuidado? Não sei, eu não vejo algo explícito nisso em todos os candidatos ao governo de Minas Gerais. Então, é um ponto importante da gente dizer. 

A quinta dimensão é a educação e a transformação cultural. Não dá para não falar de cultura, ela é um direito. A educação também é um direito. A gente pode ampliar a delegacia, casa-abrigo, medida protetiva, mas se não enfrentarmos a cultura que naturaliza o controle dos corpos das mulheres, vamos continuar nesse ciclo de violência. A cultura atua como uma ferramenta de emancipação das mulheres e dá diversas ferramentas para conseguir, de fato, quebrar essa lógica patriarcal da violência contra as mulheres. 

Eu diria que o principal desafio de Minas é construir uma política que não enxergue apenas a mulher como uma vítima. Não dá para a gente reduzir a mulher a isso, a que ela tem que ser protegida, coitada, ela é uma mulher inimputável, ela é uma pessoa que não tem vontade própria. Não, ela não é só vítima. Ela é um sujeito de direito. Ela tem que ter autonomia econômica, saúde, trabalho, ela tem que ser cuidada, mas ela tem que ter uma vida livre de violência. Se a gente conseguisse juntar um programa ideal, ele teria que ter minimamente esses cinco pilares. 

Segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2026, Minas Gerais concentra 11,3% de todas as vítimas de feminicídio do país, ocupando o segundo lugar nacional em números absolutos. O levantamento também mostra crescimento de outras formas de violência. A violência psicológica foi a modalidade que mais aumentou em Minas Gerais, com alta de 32,5%. O estado contabilizou ainda 85.993 vítimas de ameaça e 6.533 casos de perseguição (stalking), um crescimento de 22,2% em relação ao ano anterior. Como esse problema deveria ser enfrentado? Os candidatos reconhecem esse problema? E além disso, você enxerga medidas efetivas postas nos planos de governo?

Eu vou falar de algumas propostas, de alguns candidatos, que eu acho importantes, mas antes de tudo, eu queria falar do governo do Estado de Minas Gerais atualmente. Eu falo com muita certeza, o enfrentamento ou não da violência contra as mulheres é uma decisão política. Da mesma forma, o aumento da violência contra as mulheres no estado de Minas Gerais foi uma decisão política. 

Quando se reduz investimento no enfrentamento à violência contra as mulheres e na autonomia das mulheres, quando se reduz a mulher a uma mera vítima e não busca uma autonomia dela, uma saúde integral dela, isso é uma escolha politica. Temos que ter isso em plena consciência. O que foi feito nos últimos anos em Minas Gerais foi o enfrentamento às mulheres. Enfrentou-se a vida das mulheres, reduziu-se a vida das mulheres. 

Falando agora dos candidatos, precisamos fazer uma distinção: reconhecer que o feminicídio existe é uma coisa; construir uma política de prevenção do feminicídio é outra. Porque reconhecer, todos os candidatos reconhecem. Até porque os dados mostram, então não tem como negar que o feminicídio está acontecendo. 

Quando eu olho para os planos de governo, encontro diferentes formas de compreender esse problema, é aí que está a chave. Algumas candidaturas concentram a resposta, principalmente, na segurança pública, o que eu já sou contra. A violência contra as mulheres não será resolvida apenas com uma solução de segurança pública. Se fosse assim não estaríamos discutindo a aprovação de um PL de combate à misoginia. A gente não estaria precisando de uma lei de combate ao feminicídio. A gente já teria parado na lei Maria da Penha, que teria dado conta de tudo. E é uma lei extremamente avançada que temos que continuar aprimorando e valorizando. 

Só que, se focarmos sempre na punição e for visto como um quadro de segurança pública, não vai resolver. É o caso, por exemplo, do Cleitinho, ele propõe ampliar delegacias especializadas, fortalecer a patrulha da Maria da Penha, ampliar o monitoramento eletrônico dos agressores com tornozeleira. Isso resolve, de fato, a violência contra as mulheres? Não resolve. Porque você está focando apenas na punição e no monitoramento.

Você não está desconstruindo a lógica patriarcal da estrutura, nem reeducando ou desradicalizando aquele homem, que continua achando que ele tem o direito de agredir aquela mulher. Porque, na cabeça dele, está fazendo justiça, já que aquela mulher, por algum motivo, o desobedeceu ou não quer estar com ele. Na cabeça dele, ela de fato é uma propriedade. Não vai ser a tornozeleira ou as delegacias especializadas, nada disso vai resolver tudo. Claro que precisamos das delegacias, queremos as tornozeleiras, a questão não é essa; mas achar que apenas esses pontos resolvem não é o caminho. O Cleitinho leva tudo ao fim e ao cabo para a segurança pública. 

O Flávio Roscoe, por sua vez, também trabalha fortemente com a ideia de gestão de risco, ou seja, vamos resolver só lá na ponta, quando mata. Quando mata é a ponta do iceberg, a gente não quer perder mais mulheres. O plano dele propõe uma reavaliação obrigatória a cada 15 dias dos casos de mulheres com medidas protetivas ativas. Especialmente aqueles casos de risco extremo. Ele articula com a saúde materna, com a primeira infância, mas é sempre na lógica da mulher vitimizada. 

Não se pensa na raiz do problema que é o homem agressor. Não se pensa que os nossos meninos hoje concordam, e pesquisas apontam isso, que as mulheres sim devem ser submissas aos homens. Não está se olhando para esse lado. 

Mateus Simões, reconhece a persistência da violência doméstica e do feminicídio. E aí ele continua nessa questão da proteção, mas no sentido de articular com a segurança pública. Mais uma vez a segurança pública como grande remédio do enfrentamento à violência contra as mulheres e ainda não é. Estamos há anos fazendo a mesma coisa, agora estamos começando a entender que não, é para além disso, precisamos responsabilizar os homens no sentido social, não apenas na segurança pública. 

Em contrapartida, esses homens, principalmente da direita e da extrema-direita, querem fortalecer esse cenário do pânico. As mulheres estão morrendo, então vamos prender, vamos punir e vamos resolver, vamos encher as cadeias. Em todos os países em que a penitenciária está lotada, não se resolveu nada. Precisamos pensar em um outro caminho. 

Existem algumas propostas que estão para além da segurança e é importante dizer, estou colocando a análise de uma socióloga que não necessariamente fala em votar em x ou y, mas temos que reconhecer os candidatos que, de fato, pensam para além dessa caixinha da segurança pública. 

Por exemplo, Alexandre Kalil fala em uma rede integrada envolvendo a polícia militar, a polícia civil, mas também a assistência social, a saúde e a justiça. E isso é muito interessante de se pensar. Criar esses fluxos de proteção, de atendimento, e fortalecer a capacidade de resposta do estado. Isso já existe, temos redes de proteção. Eu já fui superintendente do Consórcio Mulheres das Gerais, um consórcio que reúne 12 municípios em Minas Gerais que faz essa rede, mas é necessário o fortalecimento dessa rede. Então, Kalil não traz novidade mas ele pensa fora dessa caixinha da segurança pública, conecta a autonomia econômica das mulheres junto com a autonomia social dessas mulheres. 

O Gabriel Azevedo fala no que ele chama de uma ‘rede estadual de recomeço’, que também faz a integração de segurança, habitação, qualificação e trabalho. Isso vai além de toda essa questão da segurança pública também, é importante reconhecer. Agora, independente de quem vai ganhar ou não, é necessário cobrar, porque uma proposta, um documento aceita tudo. Mas será que de fato eles pensam isso? É uma outra etapa. 

O Gabriel Azevedo dentro desse programa fala sobre auxílio temporário, atendimento remoto 24 horas, a questão da prioridade da habitação, que já temos no Minha Casa Minha Vida, onde as casas são no nome das mulheres. É importante dizer que, até agora, desses homens que pensaram fora da caixinha da segurança pública, não existe novidade. Nada é inédito, mas precisamos de fato colocar isso em prática. 

O Patrus Ananias apresenta uma política super integrada. Articula o enfrentamento da violência, a autonomia financeira, a qualificação das mulheres, isso é super legal, a inclusão produtiva e cuidados. Cuidar da mulher não somente como uma vítima da violência, mas cuidar da mulher de toda essa forma articulada, principalmente com relação a sua autonomia. 

E há uma proposta, que o programa do Patrus traz e eu considero particularmente importante: atenção às crianças órfãs do feminicídio. Porque, infelizmente, muitas mulheres estão morrendo e têm muitas crianças ficando órfãs. Vamos entregar essa criança para quem? Como está a saúde mental dessa criança? Porque muitas delas presenciam a violência que as suas mães sofreram. Como cuidar dos meninos e meninas expostos a essa violência? Porque, por exemplo, as meninas expostas a essa violência tendem a reproduzir essa violência ou sendo submissas ou terem comportamentos violentos. E os meninos, majoritariamente, têm comportamentos violentos. Então, como fazer com que esses meninos e meninas não reproduzam todas essas violências? 

Temos a Indira Xavier que apresenta uma agenda que inclui delegacias especializadas, ampliação da rede de enfrentamento, transferência de renda, aluguel social. Isso tudo existe, mas é importante que existam candidatas e candidatos que reconheçam que existem outras formas para além da segurança pública. Porque é muito fácil a gente cair na lógica de punição. Ah, então você quer que os agressores fiquem soltos e sem punição? Não, eles têm que ser punidos. Mas precisamos ir além disso, porque quando eles saem da cadeia, a primeira coisa que fazem é matar a mulher, já que se sentem revoltados de terem sido presos. 

Rafael Duda e Túlio Lopes trabalham nessa violência de maneira mais estrutural. Associam a prevenção, a educação, os serviços públicos e a proteção. Então, esse último bloco que eu falei são de candidatos e candidata que pensam fora dessa lógica do bolsonarismo e da extrema direita. 

Alguns dos que eu falei até aqui podem até ser de direita, mas tentam pensar a mulher sob uma outra lógica, isso é importante dizer. Respondendo de uma maneira geral à pergunta sobre as medidas efetivas, temos que pensar num plano de governo que apresenta essas propostas fora da caixinha da segurança pública. Senão não vai ser efetivo, senão Minas Gerais continuará sendo inimiga das mulheres. 

É um panorama bem geral sobre o que aponta cada candidato e candidata. Mas um ponto fundamental é: o feminicídio não começa no feminicídio. Se você pensa na segurança pública, você está pensando que o feminicídio é o ponto inicial, mas não é, temos que pensar lá atrás. Meninos que estão sendo mais radicalizados através da comunicação, meninos que não entendem o letramento sobre consentimento, letramento digital, e a falta de letramento das meninas sobre consentimento. 

Então, se investirmos na prevenção e na educação, certamente a lógica do feminicídio ser o ponto de partida começa a ser transformada. Uma boa política pública começa com o antes, não na hora de reduzir esse dano do feminicídio que acaba com toda a sociedade.

Nós também somos desproporcionalmente excluídas do acesso a emprego e renda. Por que isso se dá? Há propostas concretas apresentadas pelos candidatos para sanar esse problema?

Isso acontece porque existe a divisão sexual do trabalho, que estrutura a nossa sociedade. O que significa isso: Historicamente, o trabalho doméstico e o cuidado foram atribuídos às mulheres. Provavelmente, todas as pessoas que estão nos ouvindo, ou a maioria delas, só estão onde estão porque alguma mulher cuidou. A gente sai para trabalhar, e certamente outras mulheres acordaram mais cedo do que nós para fazer a cidade se movimentar.

A mulher entra no mercado de trabalho, mas muitas vezes continua sendo responsável por esse trabalho não remunerado que é o do cuidado. A economia do cuidado é o que, de fato, faz o capitalismo girar. Se a economia do cuidado, do jeito que ela é, não remunerada ou desvalorizada e invisibilizada, não existisse dessa forma, o capitalismo não seria tão forte assim. Ou seja, existe uma exploração em cima das mulheres. 

E a maternidade ainda produz essas consequências de diferentes formas entre homens e mulheres. A maternidade vai recair sobre as mulheres. “Ah, Bruna, mas só a mulher amamenta, na maioria dos casos”, mas não é somente sobre amamentar, é sobre cuidar da criança, é sobre se o homem vai sair mais cedo do trabalho para levar a criança ao médico. Isso é muito difícil de ver e isso é sobre a divisão sexual do trabalho. 

Uma mulher que tem filhos pode reduzir a sua jornada de trabalho, pode interromper a sua carreira, pode recusar uma oportunidade porque ela vai pensar na criança, ela está educada a reproduzir aquele cuidado. O homem raramente vai fazer isso e raramente vai ser penalizado profissionalmente, porque ele é visto como o cara massa. Olha que legal o homem que sai com o seu filho. É bem diferente. Ele não está fazendo mais que a obrigação dele, só que é visto como um grande herói, enquanto as mulheres são completamente exploradas e a sociedade vê como se não fosse  mais que a obrigação delas serem exploradas pelo cuidado. 

Então, quando falamos da desigualdade salarial,  não é  apenas sobre salário, é toda essa estrutura que determina quem tem tempo, quem pode trabalhar, quem pode estudar, quem pode ser promovido. E isso aparece nos planos de governo de formas bem diferentes. 

O Alexandre Khalil coloca a autonomia econômica das mulheres como parte da própria política de proteção. Isso é muito interessante. O plano fala de qualificação profissional, qualificação do próprio trabalho, empreendedorismo, economia solidária – que é um ponto super importante e que a gente tem desenvolvido muito – a inclusão produtiva e o apoio às mulheres em situação de violência. Como a gente disse, uma das formas da mulher sair desse ciclo de violência é sobre a autonomia. 

O Patrus Ananias propõe fortalecer o programa ‘A Vez Delas’, que articula o atendimento às mulheres, a qualificação profissional, o banco de empregos e as políticas de trabalho e renda. E é muito bom pensar isso fora da caixinha, não existe enfrentamento à violência contra as mulheres sem essa articulação. É importante ver que existem candidatos que estão, de fato, articulando todos esses pontos. 

Gabriel Azevedo conecta diretamente a violência com a autonomia econômica, como eu já tinha mencionado, através de uma rede estadual de recomeço, propõe a qualificação e o trabalho junto com habitação, saúde e assistência. 

O Flávio Roscoe trabalha com empreendedorismo feminino, crédito e capacitação. Eu coloco um ponto de atenção com relação ao empreendedorismo feminino e ao crédito, porque existem muitas mulheres que são empreendedoras, existem muitas mulheres que pegam crédito no banco para conseguir começar o seu negócio, entretanto, isso também pode gerar endividamento. 

Muitas mulheres empreendedoras estão endividadas, por quê? São elas que investem no seu empreendimento, pegam o dinheiro emprestado, mas também estão inseridas na divisão sexual do trabalho e, às vezes, não têm tempo para, de fato, levar adiante aquele empreendimento. O endividamento também é um ponto de risco quando a gente fala de empreendedorismo. 

Até porque o conceito de empreendedorismo é muito neoliberal, da forma como é colocado na sociedade. Então eu acho muito complicado oferecer crédito sem pensar em juros, sem pensar em todos os obstáculos na vida das mulheres. É um ponto crítico que a gente tem que pensar, não basta dar o crédito, tem que dar condição para a mulher usufruir desse crédito. 

O Cleitinho também conecta a rede de proteção, a qualificação e a reserva de vagas de emprego. Mas é algo muito abstrato também. Não tem nada muito bem definido. Reserva de vaga de emprego, tá, mas e aí? Qualificação, mas como isso acontece? Como ele está muito ligado à segurança pública, me parece que é meio difícil pensar numa outra forma de autonomia das mulheres, já que, nessa lógica, elas são todas vítimas e não têm autonomia.

 A Indira Xavier apresenta uma proposta mais ampla de geração de emprego e de renda para a mulher em situação de vulnerabilidade. Faz também recortes bem específicos para as mulheres, o que é bem interessante, pensando em como isso seria aplicado para mulheres negras, quilombolas, indígenas e mulheres com deficiência. É importante pensar nisso, porque dentro do guarda-chuva “mulher”, existem várias mulheres. 

Então como respinga nas mulheres essa questão do emprego e da renda, da autonomia financeira? Pensando de uma maneira geral nesses candidatos e nessa candidata, eu acho que existe uma questão muito importante aqui. A autonomia econômica não é simplesmente colocar a mulher no mercado de trabalho. 

Não adianta dar o crédito. Qual é a condição? Não adianta endividar a mulher. Muitas mulheres estão endividadas por conta das “bets”. Porque são as arrimos de família e não estão dando conta de colocar o dinheiro dentro de casa. Provavelmente estão endividadas no banco. O financeiro é muito delicado. Não adianta só falar: tome o seu empreendimento. É muito mais complexo que isso. 

E a gente tem que falar de creche, de transporte — aí entra a tarifa zero —, de jornada de trabalho, da divisão do cuidado. Para a mulher, de fato, temos que pensar numa rede muito mais complexa: é falar sim da creche em tempo integral, da valorização dessas professoras que estão dentro da creche, pensar na tarifa zero, na corresponsabilização do cuidado, que não é só o mercado de trabalho, já que as mulheres são as primeiras a saírem mais cedo para cuidar. 

Do que se trata, na prática, uma política de cuidados? Isso aparece nos planos de governo a nível estadual?

A política de cuidados é basicamente reconhecer que cuidar é trabalho e que esse trabalho precisa ter a responsabilidade compartilhada entre o Estado, as famílias, a comunidade e, principalmente, os homens que secularmente nunca se responsabilizaram pelo cuidar de maneira geral. É claro que a gente nunca pode generalizar 100%, mas a maioria dos homens não se responsabiliza pelo cuidado e, quando faz o mínimo, é visto como um grande herói, como a gente já falou por aqui. 

Hoje, quando uma criança precisa de cuidado, quando um idoso ou uma idosa adoece, quando alguém tem alguma deficiência e precisa de alguma ajuda, geralmente é alguém da família que vai cuidar e quem vai cuidar, na maioria dos casos, são as mulheres. Isso produz uma desigualdade enorme, porque a mulher deixa de trabalhar, reduz a jornada, abandona o curso, deixa de descansar. 

Por exemplo, o fim da escala 6 por 1 também é, principalmente, sobre o descanso das mulheres. Então é um ponto super complexo quando a gente fala de política do cuidado. A política do cuidado significa construir uma rede pública capaz de compartilhar toda essa responsabilidade. Isso envolve as creches, serviços para idosos, atendimento a pessoas com deficiência, apoio às famílias cuidadoras e aos cuidadores do SUS quando vão visitar as casas. Os serviços domiciliares, equipamentos públicos, articulação com a saúde, assistência, educação, habitação e trabalho. A política do cuidado faz toda essa rede conversar. 

Lavanderias comunitárias, que também são um espaço de organização das mulheres e acabam trazendo o questionamento do porquê somente elas estariam ali, também fazem parte da política do cuidado. Isso também aparece de diferentes maneiras dentro dos planos. 

O Alexandre Kalil, por exemplo, apresenta explicitamente uma proposta sobre uma política estadual de cuidado. Isso é bem interessante, porque ela é articulada com a assistência social, saúde, trabalho, educação, habitação e desenvolvimento econômico. A proposta parece reconhecer que o cuidado recai desproporcionalmente sobre as mulheres e prevê redes territoriais para crianças, idosos, pessoas com deficiência e pessoas dependentes desse cuidado. 

O Patrus Ananias também trata o cuidado como política pública. O que é importante, porque você dá nome, responsabiliza e coloca na mesa: olha, isso aqui também recai sobre a vida das mulheres, isso aqui também gera algum tipo de sobrecarga, isso aqui também é trabalho. Ele propõe um Conselho Estadual de Política do Cuidado, voltado à serviços para pessoas idosas e populações vulneráveis que precisam de cuidado e, assim, consegue-se de fato organizar essa política dentro do estado. Esse plano também se articula com creches e com políticas para mães solo, que também são muito invisibilizadas. 

O Gabriel Azevedo trabalha também com a proteção das famílias cuidadoras e articula assistência, saúde e educação, mas não é muito detalhado como isso seria. Por exemplo, fala-se em política, fala-se em conselho, fala-se em alguma coisa que vai se fazer, mas a gente não entende muito bem como se faz. 

O Rafael Duda apresentou uma proposta muito concreta nesse sentido. Ele fala das lavanderias públicas e isso é uma coisa importante de se resgatar. E da ampliação dos restaurantes públicos. O Patrus Ananias, lá atrás, há décadas, trouxe o restaurante popular para Belo Horizonte, é importante ampliá-lo. Fala-se sobre a redução do trabalho doméstico para a vida das mulheres, em pensar nessa corresponsabilização. 

Nesse sentido, quando falamos de cuidado, não é só falar: ah, isso recai na vida das mulheres e pronto, acabou. Não, tem que discutir, tem que aprofundar. Tocar na ferida mesmo, dar nome àquilo que acontece. 

Túlio Lopes apresenta uma política de cuidado que defende a universalização das creches públicas, inclusive o atendimento noturno. Muitas mulheres trabalham à noite, e aí, como faz? E as mulheres que estão na área rural, qual é o cuidado que essas mulheres estão recebendo? Isso tem que ser questionado, é importante quando aparece algum projeto assim. 

A Indira Xavier relaciona diretamente a creche com a inserção das mulheres no mercado de trabalho. Isso faz todo o sentido, porque se a mulher tem paz de saber que a criança está em um lugar seguro e que ela vai poder trabalhar até o final do seu expediente e buscar a criança com o tempo necessário, é super importante. 

O Flávio Roscoe trabalha principalmente com a expansão das creches e com a primeira infância, mas não apresenta um plano de política estadual de cuidado, como o Kalil e o Patrus colocam. 

Acho que, ao meu ver, Patrus e Kalil se debruçam muito mais nessa questão do cuidado. É importante prestar atenção nisso: não existe autonomia feminina sem a socialização do trabalho. Aprendi isso na Marcha Mundial das Mulheres e aprendo muito com as mulheres trabalhadoras, não tem como falar de cuidado e não falar da corresponsabilização de toda a sociedade com relação a esse cuidado.   

A gente tem acompanhado um crescimento alarmante de uma cultura de ódio às mulheres, que é um dos seus temas centrais de estudos. A educação é o caminho para combater essa cultura misógina e de que forma? Como a perspectiva de gênero aparece no debate sobre educação proposto pelos candidatos?

Parece muito clichê, mas realmente acho que a educação é fundamental. Apesar de que, eu diria que ela não é suficientemente sozinha. A educação não vai dar conta de tudo. A misoginia não existe simplesmente porque as pessoas não receberam a informação. Ela é produzida nas relações sociais e nas instituições. 

Por exemplo, o que adianta ter a delegacia de acolhimento das mulheres se as pessoas trabalhadoras dela não têm uma formação e o entendimento de que aquela mulher é vítima? Não adianta revitimizar, não adianta questionar, tem que acolher. Então, as instituições também reproduzem essa violência. 

A misoginia também está na instituição família e nos meios de comunicação, principalmente na comunicação hegemônica, que consegue alcançar pessoas nos rincões do nosso país. A misoginia também está nesses espaços: nas novelas que reproduzem violência, nas redes sociais, nos grupos de mensagens, Telegram, WhatsApp e no YouTube. As mídias realmente também podem reproduzir toda essa violência, e a gente infelizmente percebe que está cada vez mais forte isso. 

Precisamos de educação, mas também da responsabilização, das políticas de prevenção, da proteção das vítimas e da transformação das instituições. Se não conseguirmos, de fato, abalar e rachar essa estrutura patriarcal da nossa sociedade, não vai existir política pública e educação no mundo que combata tudo isso.

De fato, estamos nas mãos também dos operadores do direito e da política pública, ou seja, é necessária toda uma rede de desconstrução: política pública, educação e quem opera. O grande desafio é fazer isso se articular. Por exemplo, na escola, isso significa ensinar meninos e meninas a reconhecerem relações de violência, discutir consentimento, respeito e igualdade de direitos. 

Cada instituição, cada local, tem que desenvolver a sua forma de desconstrução. Existe uma coisa que eu considero fundamental: não podemos ensinar apenas as meninas a se protegerem, precisamos ensinar os meninos a não serem violentos. Nós, mulheres, estamos há séculos falando sobre como não nos violentarem. Onde estão os homens e meninos falando sobre não serem violentos? Falta isso também. 

Ao olhar para os planos encontramos diferentes graus de presença dessa perspectiva. O Cleitinho fala muito nessa questão de ação educativa no ensino fundamental e ensino médio, em escolas públicas e privadas, voltada para a prevenção da violência contra as mulheres. Mas como seria esse programa? O que garante que essa política implementada nas escolas não iria reproduzir mais violência? Os professores estão sendo valorizados no seu salário e na sua trajetória para conseguir absorver e entender a importância de falar sobre essa prevenção? Tem que ser mais detalhado. 

Flávio Roscoe também fala da prevenção com a educação dos meninos. Só que aí, ele não fala como seria essa educação dos meninos, sendo que a todo momento ele foca na concentração do combate à violência a partir da segurança pública. Como é essa educação passando pela segurança pública? Onde se combina escola com presídio? Como é isso, já que você falou tanto de segurança pública e do nada fala de educação para meninos? É um pouco confuso. De fato, existem candidatos que não sabem sobre o que estão falando e que colocam coisas ali para tentar se destacar de alguma forma. 

O Rafael Duda fala sobre educação sexual e ações educativas contra o machismo. Isso é super importante. Relacionar a formação da prevenção do estupro, prevenção do feminicídio, prevenção das agressões. Pensar na educação como uma forma de prevenção é importante, mas é mais importante ainda a gente detalhar como seria isso, precisamos de um plano de trabalho. Como é que vai ser na prática? Vai ter dinheiro? Tem que ter investimento, tem que ter dinheiro para conseguir colocar essa roda para girar. 

A Indira Xavier fala de ações educacionais. Como a gente vai agir contra a violência e a favor da igualdade? É importante ficar nesse lugar do ativo, de propor. Ficar passivo, aguardando e esperando o feminicídio acontecer, não adianta. 

O Kalil trabalha com uma perspectiva educacional em respeito às diferenças e enfrentamento à discriminação. E o Patrus Ananias também segue essa lógica de respeitar cada indivíduo a partir da sua diferença e pensar no combate à discriminação. Não dá para a gente falar de combater a misoginia sem entender cada território, e o Patrus Ananias também coloca isso muito bem delimitado, o que é super importante.

 Se um adolescente aprende na escola, aprende nas instituições, aprende no cotidiano que mulheres e homens têm direitos iguais, mas ao mesmo tempo ele fica horas e horas na internet sem ter letramento digital, com a família sem entender o que ele está vendo na internet e aquela novelinha que consome sendo extremamente violenta, não vai adiantar. 

Precisamos que todo mundo converse. O que são as big techs, as grandes empresas da internet? Qual é a responsabilidade do Estado de Minas em relação ao que as empresas de disseminação de conteúdo estão fazendo nos nossos territórios? É necessária uma articulação muito forte. Eu vejo muito pouco essa questão de letramento digital em todos os programas. A discussão sobre as grandes empresas, as big techs, é algo que deveria ser aprofundado mais em todos os programas. 

Enfim, eu queria ter, de fato, uma resposta definidora para o combate à misoginia, mas ainda não encontramos, e a gente espera que a pessoa que seja eleita como governador ou governadora do Estado de Minas Gerais se preocupe de verdade, porque até agora não foi uma preocupação central manter as mulheres vivas, saudáveis e seguras. 

Editado por: Lucas Wilker

|

Newsletter