VISÕES POPULARES

Segurança pública nos programas dos candidatos ao governo de Minas Gerais

Robson Sávio debate os desafios da gestão de segurança em Minas Gerais e opina sobre as propostas dos candidatos a gover

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Diante da sensação de medo e insegurança, há quem proponha o aumento no aparato repressivo: mas será que essa é a melhor solução? | Crédito: Brasil de Fato MG

No penúltimo episódio da série especial de eleições, o Brasil de Fato MG continua as análises dos planos de governo e comparação das propostas dos candidatos a governador de Minas Gerais. O tema tem sido uma das maiores preocupações dos eleitores de todo o Brasil e em Minas Gerais o quadro não difere. Diante da sensação de medo e insegurança, há quem proponha o aumento no aparato repressivo: mas será que essa é a melhor solução?

Para Robson Sávio, “quando pensamos em segurança pública, temos que ampliar a nossa visão muito além da atividade policial e pensar que é uma política basilar para o exercício da cidadania”. O convidado do Visões Populares é professor da PUC Minas, especialista em estudos de criminalidade e segurança pública, integrante do Fórum Brasileiro de Segurança Pública e militante da área dos direitos humanos.

Confira a entrevista completa

Brasil de Fato MG – Que aspectos devem estar presentes quando pensamos a política de segurança pública no nosso estado, quais são os principais gargalos e demandas na área em Minas Gerais?

Robson Sávio – A primeira coisa importante para todas as pessoas entenderem é que segurança pública não é apenas coisa de polícia, ela é também a atividade policial, existe muito essa compreensão equivocada. Segurança pública tem a ver com a nossa condição de cidadão de pertencer a uma pólis, a uma cidade onde todos se sintam tranquilos. 

Até mesmo a percepção de medo ou de insegurança tem a ver com segurança. Veja que o tema é muito mais amplo. Estamos falando de atividade policial, de sistema prisional e do sistema de justiça criminal, portanto, de como o Poder Judiciário e o Ministério Público atuam, não somente na perspectiva da garantia de direitos de proteção, mas na área criminal. Estamos falando de políticas de atendimento ao adolescente infrator, que não é somente o adolescente internado, mas aquele que comete algum ato infracional e demanda outras políticas de acolhimento e acompanhamento. 

Estamos falando de ações de prevenção que podem ser feitas com muita qualidade por uma guarda municipal, que não deve ser pensada como uma polícia no sentido de polícia militar, mas como uma agência de proteção da comunidade. Estamos falando, inclusive, das ações que podem ser feitas, por exemplo, por uma associação de moradores que ajuda a comunidade a entender que a ocupação dos espaços públicos e a notificação de qualquer tipo de incidente criminal devem ser comunicadas, pois isso ajuda nas políticas de prevenção. 

Estamos falando do uso de tecnologia, por exemplo. A utilização de câmeras de segurança e o cuidado que se tem com isso, porque nenhuma tecnologia faz milagre. Por trás da tecnologia existem pessoas que devem estar qualificadas para operar eticamente isso, que inclusive pode invadir a privacidade dos cidadãos. Veja bem, estamos falando de um conjunto de ações. 

Eu diria o seguinte: por mais que as pessoas talvez não reconheçam, a segurança pública, inclusive inscrita na nossa Constituição como um direito de cidadania (como saúde, educação, assistência social e moradia), é uma política tão basilar que, sem que os cidadãos consigam perceber e viver em uma cidade, um estado ou um país de forma segura, isso vai refletir na sua qualidade de vida e nas outras relações do Estado. 

Vai refletir na saúde e no adoecimento das pessoas, no estresse, no medo, na tensão, na tentativa de ficar só dentro de casa e não ocupar os espaços públicos. Vai refletir, por exemplo, na mobilidade, que vocês já discutiram aqui. As pessoas inseguras não ocupam bem o espaço público e por aí afora vai. 

Eu diria que, ao pensarmos na segurança pública, nós temos que ampliar a nossa visão muito além da atividade policial, e pensar que é uma política basilar para o exercício da cidadania.   

De acordo com o Sindicato dos Servidores da Polícia Civíl do estado de Minas Gerais, o Sindpol/MG, a defasagem salarial dos policiais civis e demais forças de segurança em Minas Gerais atingiu um nível grave de 45% de perda de poder de compra. Outro dado que compõe esse cenário é o aumento no número de suicídios entre policiais, que foi de 40% no último ano. Diante disso, qual o cenário dos servidores da segurança pública em Minas Gerais? E como esses servidores são pautados pelos candidatos?

Em primeiro lugar, é preciso dizer que são muito legítimas e justas todas as reivindicações de todas as categorias profissionais. Quando os servidores da área da Polícia Civil reclamam de um menosprezo histórico em relação à polícia civil, eles têm toda a razão. 

Agora, sempre temos que pensar nas questões não somente a partir da perspectiva profissional, que também tem um elemento de interesse corporativo. Quando olhamos em retrospectiva, nos últimos anos, principalmente nos governos do Aécio Neves, do Anastasia e isso continuou em certa medida no governo Zema, por exemplo, a polícia militar recebeu aumentos e formas de remuneração maiores do que a média dos demais servidores do estado. E também a polícia civil.

Não tanto quanto a polícia militar, mas hoje considerando a média salarial dos funcionários do estado, a polícia, principalmente a polícia militar, está numa condição que eu diria muito boa em relação à servidores da educação, saúde, assistência, etc. A polícia civil não está numa média tão precarizada, mas, é claro, há defasagens que precisam ser corrigidas.

Mas o problema não é só esse. Por exemplo, em relação à Polícia Civil, o maior problema é o déficit do número de policiais civis. É o número de cidades que não têm uma delegacia em Minas Gerais, nos 853 municípios. O número de cidades que não têm delegacias especializadas na questão da violência de gênero. A incapacidade de investigação por falta de pessoal e de condições técnicas em um estado tão grande quanto o nosso. 

Outro gargalo é a baixa integração entre as duas polícias, porque há problemas corporativos muito grandes, uma questão de articulação muito séria entre polícia militar, polícia civil, Ministério Público e Judiciário. Chegando ao resultado de que, por exemplo, uma grande parte do crime contra a vida (homicídio), sequer é solucionada. As famílias sequer tem respostas sobre isso. Veja que o problema é muito mais amplo. 

Quando pensamos em atividade policial, nós estamos pensando na atividade policial para além das categorias: a articulação das várias agências, inclusive da agência policial. Nós temos que pensar em uma disparidade de uma polícia militar que é melhor remunerada e é muito maior e mais presente, em relação à polícia investigativa, que é fundamental para o fluxo do sistema de justiça criminal. Há um problema sério nisso daí, que é um déficit muito grande.

O que adianta prender, prender, prender se não há investigação? Nós temos uma quantidade grande, quase 40% de pessoas presas que não têm uma sentença transitada em julgado. O que não somente está lotando o nosso sistema prisional de pessoas, inclusive de jovens, formando mão de obra barata dentro das unidades prisionais (que não são controladas totalmente pelo Estado) para as organizações criminosas, mas tornam o sistema prisional altamente caro e oneroso. 

Algum tempo atrás eu fiz um estudo e os gastos com segurança pública em Minas Gerais já superavam os gastos com educação e saúde. As pessoas falam “prenda, prenda, prenda”, mas até do ponto de vista da eficiência e custo-benefício, ninguém faz o cálculo de quanto custa o aprisionamento em massa de pessoas. Eu estou querendo trazer isso aqui, para a gente não simplificar o debate. 

O outro ponto que você falou é um ponto terrível: o adoecimento de profissionais da área da segurança pública, de policiais, não somente fragiliza as ações policiais —  eu não gostaria de ser atendido por um policial que está extremamente estressado ou deprimido, ou usando medicamentos que precisam de afastamento, mas estão no trabalho —, como leva a indicadores como esse de suicídio. E existe uma incapacidade de se tratar disso porque nem as próprias instituições policiais (não os policiais individualmente, mas as instituições) querem tratar disso. As instituições policiais querem apresentar-se à sociedade como as todo-poderosas que resolvem tudo, e essa é uma demanda de expectativa social, mas nem os governos estão preocupados com isso. Eles estão exigindo cada vez mais eficiência, e não efetividade do trabalho policial. 

Prender muito, fazer muita atividade de polícia ostensiva que mostra viatura em tudo quanto é lugar. Um dos candidatos, o atual governador, que era vice, e muitos outros também fizeram do mesmo jeito, o que ele tem para mostrar é: “compramos não sei quantas viaturas novas e helicópteros”, como se viaturas e helicópteros novos resolvessem o problema da segurança. 

E mais do que isso: o que está por trás dessas compras de tantas viaturas que hoje são todas terceirizadas e não são do estado? Estou dizendo isso porque a segurança pública envolve muito dinheiro, e muito dinheiro sobre o qual inclusive nós, cidadãos, não temos nenhum controle, porque não há prestação de contas sobre ele. Ou seja, para problemas complexos, não há receita de bolo. A gente tem que pensar nessas questões. 

Eu entendo perfeitamente as reivindicações de todos os profissionais, porque eu sou profissional e professor e quero que a minha categoria seja bem remunerada. Isso é justo e é ético, mas esse é apenas um dos problemas em um contexto muito mais amplo.  

O Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2026 aponta que, embora o número de Mortes Violentas Intencionais apresente queda de 14,2% em Minas Gerais, as ocorrências envolvendo o tráfico de drogas cresceram 41,7% de 2024 para 2025. Como você enxerga este cenário?

Este é outro tema que é muito complexo. Primeiro: há uma diminuição no Brasil nos últimos anos de crimes contra a vida, principalmente de homicídios e crimes letais. Isso é algo bom, mas não dá para comemorar, porque os indicadores ainda são muito altos. As taxas do Brasil e de Minas Gerais, quando comparadas, por exemplo, com outros países, são extremamente elevadas.  É claro, de alguma forma a gente comemora porque é uma redução, mas de outro lado ressaltamos que não está bom desse jeito. 

Quando nós olhamos, inclusive em Minas Gerais, têm ocorrido repiques de aumento desses crimes, é importante dizer isso, sempre considerando um estado de 853 municípios com uma diversidade imensa. Há poucos dias, o ex-secretário e ex-ministro Nilmário Miranda, lançou um livro falando sobre as cidades em Minas Gerais que não tiveram nenhum homicídio e nenhum feminicídio. Mas ainda são ilhas em relação a esse estado atual, e isso é importante dizer.

Agora, em relação à questão de drogas. A primeira coisa que é importante percebermos é não fazermos equiparação entre tráfico de drogas e crime organizado. Porque ‘crime organizado’ é um conceito muito mais amplo. Tem relação com quando determinadas organizações estão dentro do aparato do Estado, corrompendo policiais, promotores, juízes, agentes prisionais, funcionários da fazenda pública, etc.

Por isso é muito importante sair um pouco dessa cantilena de pensar que aquele tráfico de drogas ali do varejão da Pedreira Prado Lopes (citei um território, não estou dizendo que é lá especificamente, mas um aglomerado urbano de Belo Horizonte), está necessariamente conectado com o crime organizado, que tem a ver com lavagem de dinheiro, evasão de divisas, corrupção de agente público e até participação de igrejas. Como a gente está vendo, por exemplo, hoje, ligado a essa questão do Banco Master. Aí sim, você tem crime organizado.

Agora, é claro, tem o contexto de que determinadas organizações criminosas operam também esse tráfico de drogas inclusive no território. Como o Comando Vermelho e o PCC, todo mundo já ouviu falar um pouco sobre isso, e outras tantas. São no Brasil quase 20 dessas organizações. Aqui a gente tem que separar as coisas, o que é a ação do tráfico de drogas no território e os prejuízos que dá para o cidadão, e os prejuízos que dá para esse mesmo cidadão quando o crime está organizado. 

Porque com o crime organizado, ele vai ter prejuízo na conta de luz, na conta de água, nos serviços públicos, nos impostos, naquilo que deveria estar indo para a saúde e para a educação e que não está indo. Então, é claro, nós precisamos tanto ter uma ação de segurança pública voltada para os territórios, ações que vão desde polícias bem equipadas para prevenção, com boa investigação da polícia civil para desarticular essas lideranças, mas também políticas que envolvem, por exemplo, infraestrutura urbana, iluminação, acesso das pessoas aos locais públicos e a tomada dos territórios pelo controle do Estado, e não por essas organizações locais. 

São ações totalmente diferentes, que envolvem o campo da segurança pública, principalmente esse que está no território, e que envolvem outras agências para além da segurança pública no caso do crime organizado. Aqui nós temos que falar, por exemplo, na área fazendária, de impostos e de fiscalização tributária; Temos que ver a participação de empresas; como o Poder Legislativo tem atuado (por exemplo, a legislação que favorece determinadas instituições em detrimento de outras); e o Poder Judiciário. 

Nós temos um Judiciário tão elitista e patrimonialista que tem juiz que manda prender uma pessoa porque roubou um bombom porque estava com fome, e deixa pessoas que roubam bilhões soltas sem nenhum problema. Eu queria chamar a atenção para isso porque, geralmente, essa é a propaganda dos populistas, e isso está muito presente na propaganda eleitoral de alguns candidatos a governador agora: trabalhar com o medo das pessoas. 

Dizer: “Olha, aquele grupinho que trabalha ali naquele aglomerado, naquela rua, ele é tão perigoso como o crime organizado que está lá no topo”. Não, não é. Aqui, com uma ação muito pontual e específica, sem nenhum abuso de autoridade, dá para resolver esse problema. 

Inclusive com a apuração no próprio sistema de segurança pública, porque, muitas das vezes, a tomada de territórios por milícias tem a ver com a corrupção policial. Isso significa enfrentar o problema internamente. É mais um elemento para a gente pensar de forma mais completa. 

Temos que ter políticas de segurança pública voltadas à identificar os problemas dos territórios, quais são os agentes que participam desses problemas geradores de insegurança e quais são as políticas específicas para prevenir e, eventualmente, agir de forma repressiva. E outras ações, identificando esse crime que pode estar conectado com outras modalidades de crime, de muita gente que está frequentando os melhores salões de festa, os melhores bairros, indo nas igrejas e falando amém, mas que fazem muito mal e que podem ter relação com esse problema no território. 

Então, veja que esse populismo canalha de propagandas que dizem que vai ter muita polícia, muito armamento, muita prisão e castração de pessoas, tudo isso é propaganda populista que gera medo e apreensão nas pessoas e não resolve absolutamente nada. Apenas acaba injetando muito dinheiro em empresas de segurança e em instituições policiais, e não resolve o problema da criminalidade na ponta, que é o que o cidadão tem a expectativa de resolver.  

De que forma os candidatos abordam essa questão em suas propostas?

A partir dos planos de governo dos principais candidatos, os que, neste momento, as pesquisas indicam como os mais competitivos, sobre essa questão do crime organizado. A primeira questão que eu acho muito importante é fazer uma distinção para todo mundo: uma coisa é o plano de governo que os candidatos apresentam ao TRE e ao TSE. É uma peça obrigatória que não tem nenhum laço na efetividade. 

Eu até brinco que é preferível a gente confiar no passado desses políticos, no que eles fizeram e no que pregam, do que no plano de governo que é uma obrigação formal que os candidatos têm que fazer. Não estou desprezando o plano de governo e não estou dizendo que as pessoas não devam cobrar a sua implementação depois. Mas eu nunca vi uma propaganda eleitoral ou uma entidade da sociedade civil pegando um plano de governo e falando: “Você disse isso e não fez”. Existe uma formalidade da legislação eleitoral, todos os candidatos vão apresentar, mesmo sendo um plano de governo feito por inteligência artificial. 

Dito isso, vamos pegar os planos de governo pensando no crime organizado: Cleitinho, por exemplo, que está aí nas pesquisas em primeiro lugar. Ele fala genericamente em “inteligência integrada e combate financeiro”. É claro que, do ponto de vista genérico, pensar que a integração entre as atividades policiais e a questão de lavagem de dinheiro é algo interessante. Mas se eu pedir qualquer boa ação de segurança pública para um governante, a IA vai me responder isso. 

Quando eu vejo ele e a sua propaganda, com pouquíssima experiência e extremamente populista, eu fico pensando: como ele vai articular atores que conheçam bem disso? Do ponto de vista político, ele vai implementar isso que significa mexer com muitos interesses? Não sei, mas está lá no plano de governo. Então, o eleitor tem que pensar nisso. 

Quando eu olho o plano de governo do Patrus Ananias, ele fala em “desarticulação econômica financeira”, que também é um elemento muito importante para crime organizado. Veja a distinção que fiz anteriormente entre crime organizado e tráfico de drogas. Se essa ideia for bem implementada, é uma excelente ideia. E quando dou uma olhada no Patrus, além de ser ministro, ele já foi prefeito. Ele tem uma experiência administrativa que me permite pensar nesse conceito a partir de uma práxis, da teoria junto com a prática. 

É um pouco nessa mesma perspectiva quando eu olho para o plano do Alexandre Khalil, quando ele fala em crime organizado: “Inteligência, investigação e ataque às finanças”. Veja que todos trabalham mais ou menos na mesma perspectiva. Por isso brinquei que a IA resolve bem o problema de um plano de governo. Mas analiso a questão a partir do objetivo, da meta e da experiência.

Khalil também foi prefeito de Belo Horizonte, administrou a situação de uma capital e a guarda municipal. Então, o eleitor tem um outro elemento para comparar, pois tem ali uma ideia articulada a uma práxis. 

E quando olho, por fim, para o Mateus Simões, ele fala em “combate territorial e financeiro”. Em primeiro lugar, ele faz uma confusão entre território e crime organizado, o que é uma pena porque ele é governador e o grupo dele está no estado há oito anos. Aqui a pergunta é: o que foi feito nesses oito anos com o uso de predicadores que nós temos aqui? Porque no caso do Mateus Simões, os eleitores estão vendo um período de oito anos do que foi feito. Tem um caráter plebiscitário também nessa escolha. Não fez em oito anos, por quê? Tem que fazer esse tipo de questionamento. 

É olhar o que está lá escrito e olhar para o sujeito, perguntando: o que ele escreveu ele faz? Ele conhece? Ele tem experiência? Por exemplo, uma pessoa que fala em articulação entre agências. Alguém acha que é fácil trabalhar com uma instituição, como a polícia militar de Minas Gerais, com o tamanho que ela tem, o poder político e simbólico? Com a polícia civil, com o sistema prisional, com o Poder Judiciário? Simplesmente uma boa ideia resolve? 

Outro ponto é considerar que há pessoas que atacam o tempo todo todas as instituições. A  Polícia Militar, Polícia Civil e Poder Judiciário são instituições, o Sistema Prisional é uma institucionalidade. Como pessoas que querem atacar as instituições o tempo todo vão se relacionar com essas instituições que estruturam formas de poder? É importante que o eleitor perceba isso.   

É comum que os especialistas em segurança pública apontem a coordenação entre as forças, o compartilhamento de informações, o fortalecimento de medidas de inteligência e o ataque ao braço financeiro do crime, como os melhores caminhos para combater essas organizações criminosas que são tão bem estruturadas e tem se infiltrado no nosso estado. Como essas medidas deveriam ser estruturadas de maneira mais efetiva? Você percebe esses aspectos presentes e bem definidos nos planos de governo?

Essa pergunta é super importante, porque, fundamentalmente, para se conseguir essas ações, temos que ter um governo com grande capacidade de articulação, capacidade de ouvir, de não se colocar como dono da verdade, de articular instituições grandes e poderosas, de colocar as pessoas para sentarem e traçarem objetivos e metas comuns. 

E isso não se faz com demagogia, populismo, nem dando chilique (“pitis”) como de vez em quando o atual governador gosta de fazer em público. Isso se faz com uma capacidade muito grande de respeito às instituições, às suas histórias e às idiossincrasias que essas instituições têm, ou seja, aos problemas e defeitos que elas têm. Idealmente — e temos experiências registradas na literatura internacional e aqui no Brasil (inclusive em Minas Gerais já tivemos boas experiências) —, você tem como fazer uma boa articulação através de um fórum interinstitucional na área da segurança pública que articule todas as agências: polícias, Judiciário, Ministério Público, sistema prisional, as entidades da sociedade civil que também querem uma polícia cidadã e democrática, guardas municipais e outros segmentos da sociedade civil. 

Por exemplo, é claro que quem é comerciante quer ter uma percepção de segurança onde tem o seu comércio, e isso é correto em uma sociedade capitalista como a nossa. Colocar isso tudo para conversar e pensar em um plano articulado exige uma característica transversal, que é a capacidade de diálogo e de conhecimento das políticas públicas e das agências públicas. 

Um bom governador não pode ser um populista, demagogo ou uma pessoa de espírito autoritário; Ele tem que ter uma grande capacidade de articulação e de integrar órgãos e agências tão díspares e com níveis de poder diferenciados. A partir daí, você pode preparar uma ação exitosa que envolve prevenção, investigação, combate, repressão e aprisionamento seletivo, o que a médio prazo dará excelentes resultados, inclusive econômicos para o Estado. Até porque não é possível continuar com esse esquema de aprisionamento em massa como nós temos. 

Mas nenhuma ação dessas se resolve num passe de mágica. Um governante tem que ter capacidade dialogal, conhecimento das políticas públicas e autoridade. Autoridade não é autoritarismo, é legitimidade para governar sem medo das pressões e com clareza do que tem que fazer, porque, na área da segurança pública, quem é governador tem que desagradar muita gente, às vezes gente poderosa, para conseguir fazer isso. 

Então, nós temos que pensar em um perfil de liderança política para o nosso estado que acumule uma série de características pessoais para ter a capacidade de transformar a ideia de articulação de interagências em algo efetivo, porque a ideia é muito boa, mas a maioria dos que prometem não tem capacidade para fazer. Seja pela sua própria condição de se colocar, por desconhecimento, autoritarismo, demagogia ou interesses nem sempre voltados para a segurança cidadã, mas para determinados grupos. As pessoas devem pensar nisso, porque isso passa a ser o critério anterior à ideia da própria articulação. 

Por outro lado, existe uma corrente que defende como solução a presença ostensiva  de uma polícia mais letal nos territórios, a famosa vertente do “bandido bom é bandido morto”. Embora com efetividade pouco comprovada, esse discurso gera consequências muito reais na prática. Ainda segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2026 houve aumento da letalidade policial do ano anterior para 2025 em Minas, o que acompanha a tendência nacional. Os candidatos a governador abordam a perspectiva de uma polícia que mate e morra menos? Como você enxerga essa problemática?

Realmente no Brasil nós temos uma polícia extremamente violenta. São mais de 6.000 pessoas mortas pela polícia na atividade policial por ano. Em alguns territórios (não aqui de Minas Gerais), a polícia mata mais do que o tráfico de drogas. Esse é um problema que tem a ver com o controle da atividade policial e com uma ouvidoria de polícia o mais autônoma e independente possível. E nenhum candidato traz isso nos planos de governo. 

Isso é uma questão importante, porque o controle interno da atividade policial não pode ser dado somente pelas corregedorias, que fazem um serviço razoável, mas são muito corporativas. Nós temos ainda no Brasil uma excrescência do regime militar que é a Justiça Militar. Como que, em uma democracia na qual todos são iguais perante a lei, você tem uma justiça especializada para chamados crimes militares? 

Temos ainda o problema de que a polícia é muito violenta, mas essa violência está relacionada a territórios e a pessoas específicas: nos territórios periféricos e para com os pobres. A mesma atividade policial, se é feita em uma região de classe média e alta ou uma região periférica, é totalmente diferente. Existem vários estudos no Brasil que comprovam isso.

Então é claro que as classes médias exigem cada vez mais uma polícia “para chamar de sua” e as classes populares querem uma polícia cidadã. Eu acho que a polícia cidadã é a polícia para todos nós, inclusive para nós da classe média. Mas a classe média, que tem grande poder de vocalização, quer uma polícia para proteger o seu patrimônio, para proteger os seus direitos que muitas vezes são privilégios, etc. Esse é o problema com o qual o governador e o presidente têm que lidar. 

É só a gente olhar também o passado dos candidatos que estão aí: quais segmentos eles representam? Alguém acha que um candidato a governo que só sabe fazer vídeo para ter muitos “likes” nas redes digitais consegue administrar uma situação de uma polícia que precisa ser valorizada, bem paga, reconhecida no seu trabalho, com boa capacidade operativa e instrumentais, mas que também tem que agir dentro da lei, tratar todo cidadão da mesma forma e prestar contas à sociedade? 

Tem que ter autoridade para fazer isso. As pessoas veem nas mídias digitais e na televisão uma ideia nesses programas policialescos de que a polícia boa é aquela que está entrando na comunidade, batendo e prendendo pessoas. Aliás, está uma moda hoje em dia colocar secretários de segurança pública que antes eram apresentadores de programas policiais, como se eles entendessem de segurança pública. 

Como dizia o líder da propaganda de Hitler, Goebbels, uma mentira dita mil vezes vira verdade. O tempo todo falando que tem que ser assim, a pessoa acaba acreditando: “Ah, tem que ser assim mesmo”. 

Mas é claro que muita coisa tem que ser feita em termos de controle. Estamos trabalhando com policiais que são seres humanos como nós, que têm os nossos defeitos e as nossas limitações. Nós temos que compreender que as pessoas podem errar, inclusive. Uma ouvidoria não recebe somente denúncia, mas recebe elogios. Ela recebe críticas que podem ajudar no aperfeiçoamento. 

Agora, uma outra questão é o papel do Ministério Público. Pela nossa Constituição, o Ministério Público tem a obrigação de controlar a atividade policial e não o faz adequadamente, porque existe uma articulação muito ruim entre Ministério Público, Poder Judiciário e instituições policiais para não atuar na correção de suas próprias atividades. 

Então é claro que um governador tem que exigir do Procurador-Geral de Justiça que haja um centro de controle operacional das atividades policiais forte e autônomo, enquanto ele não implanta uma ouvidoria. Ele tem que exigir que o procurador-geral que ele nomeia assuma esse compromisso com a cidadania. A questão é: quem vai fazer essa exigência? 

Não precisa criar ouvidoria no primeiro momento se não tem dinheiro, mas pode assumir o compromisso com o candidato a procurador-geral: “Só indico quem assumir esse compromisso comigo”. Já é um passo importantíssimo. Fica aí uma dica.  

Outro enorme gargalo em Minas está na superlotação e nas condições precárias do sistema penitenciário. Que medidas emergenciais deveriam ser tomadas para sanar as violações nos presídios em Minas? Como os candidatos abordam esse problema?

O governador tem que ter coragem, porque a primeira ação é acabar com essa política de encarceramento em massa, que é extremamente onerosa para o Estado e não gera nenhum resultado efetivo de médio e longo prazo. E está, inclusive, ajudando no recrutamento de jovens, cada vez em idade mais tenra — lembrando que muitos desses candidatos também são a favor da redução da maioridade penal. 

Os jovens vão para as unidades prisionais superlotadas e altamente onerosas, nas quais o Estado só garante o controle daquele espaço físico para não ter fuga ou rebelião. Porque do restante, em níveis diferentes, o Estado não tem controle. São espaços que são tomados por organizações que recrutam jovens, para que, quando saírem, sejam obrigados a entrar no circuito dessas gangues e desses grupos criminosos. 

Não é somente o tráfico de drogas. Hoje essas organizações ampliaram seu escopo de atuação em redes de crime: tráfico de drogas, armas, pessoas, lavagem de dinheiro, roubo de mercadorias, violência patrimonial seletiva (roubo de shoppings, joias, etc). Por isso, inclusive, tem que ter uma boa estrutura de investigação, que hoje é muito bem feita no nível federal pela Polícia Federal (que é tão atacada, porque a organização criminosa detesta uma polícia boa na investigação). A polícia civil tem essa função no âmbito dos estados para que outras ações possam ser feitas com efetividade. 

O nosso sistema prisional é terrível, é uma fábrica de violação sistemática dos direitos humanos. Eu fui presidente do Conselho Estadual de Direitos Humanos durante oito anos e 80% das nossas denúncias de violações de direitos eram do sistema prisional. Tudo o que as pessoas podem pensar, e não é somente o preso sendo violado por violência física. É falta de alimentação, é alimentação podre, não ter acesso à saúde, presos com doenças gravíssimas que não têm atendimento mínimo, atuação de instituições corrompendo pessoas dentro do sistema prisional, fazendo chantagem, violência aos familiares, uma loucura. 

Gosto de chamar a atenção das pessoas sobre o custo desse sistema. Isso é uma mina de dinheiro, porque também há uma indústria do sistema prisional que funciona para que essa máquina de moer gente exista. 

Isso é algo muito complexo que o governador sozinho não faz. Ele precisa de articulação com o Ministério Público e o Poder Judiciário, e precisa de uma ação muito efetiva não somente na atividade policial, mas na administração do sistema prisional. Eu não gosto muito da palavra “gestão”, ela é muito neoliberal, prefiro “administração pública do sistema prisional”. 

Da mesma forma que o Estado tem que retomar territórios que são tomados por essas milícias e grupos, o Estado tem que retomar as nossas unidades prisionais. Para cumprir o que a Lei de Execução Penal, determina: que uma pessoa que comete uma infração e é punida pela sociedade, depois de uma sentença transitada em julgado (não pelo julgamento da televisão e das mídias digitais), vai cumprir uma pena, e o cumprimento da pena deve ser de tal forma que essa pessoa saia em condições de voltar para a sociedade sem praticar outro crime. 

Se essa função não existe, o sistema prisional não cumpre a sua função e não faz sentido de ser. Agora, para transformá-lo tem que ter coragem, porque isso daqui é um enxame de abelhas. Tem interesses, disputas, jogos de poder, gente que ganha com essa indústria, funcionários públicos envolvidos em todo tipo de maracutaia em várias agências. 

É um desafio que está posto e do qual o governador não pode fugir nem terceirizar. Por isso a importância de o governador ser uma pessoa que tenha um compromisso ético com o Estado com um conjunto de políticas para dar bem-estar a todos. Essa área está totalmente fragilizada, fragmentada e deteriorada, e é uma área de responsabilidade do Estado que precisa ser enfrentada com políticas públicas. 

Quando dou uma olhada rápida nos programas de governo, fala-se em “Controle e combate às organizações criminosas”. O Cleitinho cita isso, mas não sei o que isso tem a ver com a administração do sistema prisional; essa é a principal questão que está lá. 

Já o Patrus Ananias fala em “separação por gravidade, redução provisória do número de presos, políticas de ressocialização”. Aqui já tem um caminho.

Mateus Simões fala em “controle das comunicações criminosas e ressocialização pelo trabalho”. A minha pergunta é aquela que fiz: o que eles fizeram nesses oito anos? Eles não fizeram isso? O Estado não controla as comunicações dentro dos presídios, senhor Mateus Simões? É a pergunta que eu tenho que fazer. E qual é a rede de trabalho para os egressos que o Estado montou? Cadê? Porque você está colocando aqui no site do governo. 

E, por fim, o Kalil fala em “redução da pressão sobre o sistema e APAC”. Redução da pressão sobre o sistema significa políticas de desencarceramento, uma coisa interessante. Agora, a APAC não resolve o problema sozinha, é um sistema muito bom, mas se você continuar construindo APAC para ter mais presos, não consegue atuar na questão do aprisionamento em massa. Você pode trabalhar com a APAC na seguinte medida: para cada APAC nova, menos um presídio comum, quero saber se o seu Khalil fará essa negociação. “Para cada APAC nova que eu construir eu vou fechar um Ceresp [presídio comum]”. 

Para fechar a conversa de hoje, o tema das mulheres vai ser debate do nosso último programa, que vai ao ar na semana que vem, mas infelizmente existe uma interseção com a nossa conversa de hoje. Isso porque, também segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2026, Minas concentra 11,3% de todas as vítimas de feminicídio do país, ocupando o segundo lugar nacional em números absolutos. O levantamento também mostra crescimento de outras formas de violência. De que forma esse problema deveria ser pautado quando pensamos em políticas de segurança pública? Os candidatos reconhecem esse problema? E além disso, você enxerga medidas efetivas postas nos planos de governo?

Nos planos de governo, o candidato que apresenta isso com maior ênfase é o Patrus Ananias. Eu imagino que porque o Patrus, como foi ministro do Desenvolvimento Social, entende que o problema de violência de gênero é transversal também à área da segurança pública, mas ele é mais do que a segurança pública. 

É claro que tem que ter ações de segurança pública, programas e políticas específicas para violência de gênero, assim como a gente precisa ter para quilombolas, para ciganos e para a população LGBT+. 

A violência de gênero é uma questão terrível, porque em um país que vai ficando cada vez mais democrático e plural, parece que muitos homens não reconhecem mais o lugar deles. Estão preocupados em se auto-reafirmar. Hoje aparecem tantos desses “legendários”, “incels” e “redpills” da vida, uma coisa lá da Idade Média. 

Parece que muitos homens estão meio desnorteados, pensando: “Em uma sociedade democrática, as mulheres têm mais direito, perdi meu lugar”. E aí qual é a resposta? Mais violência, mais repressão. Claro que Freud explica isso, mas além de Freud explicar, nós precisamos de políticas públicas. 

E uma questão fundamental no campo da segurança pública é o atendimento para as mulheres vítimas de qualquer tipo de violência. Há que se ter canais implementados com ouvidorias nos CRAS, rede de assistência social, nas escolas e em postos de saúde, que podem ser canais para acionar a polícia, abrir investigação, etc., mas inclusive em estruturas policiais, como delegacias especializadas. 

Em Minas Gerais, não temos nem delegacias regionais para o atendimento das mulheres. Está praticamente centralizado em Belo Horizonte, em um estado com 853 municípios. Isso precisa ser feito para pelo menos mitigar o problema, porque os números são tão vergonhosos de violência de gênero no Brasil, é uma coisa chocante. Uma sociedade na qual 80% se diz cristã, com esses indicadores mais graves que nos países muçulmanos, que são tão criminalizados aqui sobre violência de gênero. É um cristianismo sem lastro. 

Uma política pública muito interessante que poderia ser colocada em todas as regiões e microrregiões, são as Casas da Mulher Brasileira, que articulam uma política nacional com a política estadual e têm recursos. Aliás, uma questão muito interessante que eu vi em poucos planos de governo, e o do Patrus tem, é articular o Sistema Único de Segurança Pública (SUSP) com Minas Gerais, criar canais de articulação com o ente nacional. 

É preciso articular políticas de segurança com políticas de assistência e saúde, para que as mulheres tenham acolhimento. Uma mulher em uma cidade de Minas Gerais, que só tem um batalhão de polícia masculino e uma polícia com pouco diálogo com a sociedade, como ela vai falar que foi vítima de uma violência do marido, companheiro ou filho? Sem contar que a sociedade vai criminalizá-la ainda, porque tem esse preconceito. 

Então veja que é como uma cebola, tem um monte de questões sobrepostas. Mas é claro que tem que ter uma política de segurança pública voltada para essa questão. 

Editado por: Lucas Wilker

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