O resultado do primeiro turno das eleições mostra um cenário de grande avanço da extrema direita em todo o Brasil. A campanha de Lula, em especial, parece ter sido pega de surpresa, quando, na verdade, parte significativa dos movimentos populares já apontava as dificuldades que o campo progressista teria nas eleições: intervenções dos EUA, crescimento das fake news e atuação das big techs são apenas algumas delas.
Para analisar o recado das urnas e apontar os caminhos possíveis para o segundo turno, o Brasil de Fato MG conversou com João Pedro Stédile, da direção do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST).
“Só não ganha quem não luta, mas quem luta, de alguma maneira, sempre ganha. Então, agora nós da militância precisamos arregaçar as mangas. Temos 20 dias para fazer o nosso trabalho político, de politização e defesa dessas ideias, de um projeto para país, de um programa que ajude o resolver os problemas do povo de forma imediata”, aponta ele.
Confira a entrevista na íntegra
Brasil de Fato MG – Vivemos, neste domingo, o primeiro turno das eleições. A disputa presidencial segue indefinida, sendo que o candidato do PL, Flávio Bolsonaro, teve 47,03% dos votos, enquanto o presidente Luiz Inácio Lula da Silva do PT, que teve 45,16%. O PL saiu das urnas também como a principal força política no Legislativo, elegendo 121 deputados federais e 28 senadores. Qual é o balanço do resultado das urnas no 1º turno?
João Pedro Stédile – Eu acho que as eleições foram de fato uma fotografia da luta de classes no Brasil nesse último período, que vem, a rigor, desde 2016, quando a direita derrubou por um golpe a presidenta Dilma, sem ela ter cometido nenhum crime que levasse a isso. Então, nós estamos há 10 anos numa situação muito difícil porque as posições de classe se radicalizaram.
Emergiu no Brasil uma extrema direita com um conteúdo ideológico fascista. São ideias fascistas, não é que aqui tenhamos um movimento de massas fascista, como na Europa, entre a Primeira e a Segunda Guerra, ou no Japão. Ou até nos Estados Unidos houve movimento de massas fascista, como a Ku Klux Klan. Aqui são as ideias fascistas.
E as ideias fascistas propagadas pela extrema direita em todo o mundo e aqui no Brasil são: primeiro você utiliza a violência como instrumento de disputa política; em segundo lugar, você tenta desqualificar os adversários e os transforma em inimigos. E esses inimigos dos fascistas, então, devem ser eliminados. Eliminados pelas fake news, por propagandas, por desmoralização, ou às vezes prisões, como aconteceu com Lula e com Zé Dirceu, ou até assassinatos, como aconteceu com a Marielle Franco.
E, por último, faz parte desse ideário fascista impor o medo, fazer com que as pessoas tenham medo de falar em política, medo de expor as suas ideias. Então, foi isso que veio acontecendo nos últimos 10 anos no Brasil e isso gerou uma polarização que é verdadeira entre, de um lado, o PT e os partidos de esquerda, PSOL, PCdoB, a esquerda de forma genérica, e, do outro lado, essa extrema direita que adquire o rótulo de bolsonarista, mas que no fundo adota esses critérios fascistas.
Então, as eleições revelaram isso: nós temos ainda consolidado um setor da população brasileira que é cooptado por essas ideias fascistas. E por isso, na minha opinião, a eleição foi um empate, porque, se de um lado é verdade que o PL e a extrema direita avançaram no Senado, a esquerda também elegeu vários senadores muito bons que vão fazer a diferença. Da mesma forma, na Câmara, o PT e o PSOL aumentaram os seus representantes. Claro, não foi um crescimento extraordinário, mas aumentou.
E, por último, em praticamente todo o Nordeste, foram eleitos governadores progressistas, do PT, ou apoiados pela esquerda. E isso levou a que tenhamos também o retrato geografico do nosso Brasil dividido, o Nordeste será governado por governadores progressistas e o Sul, São Paulo e o Centro-Oeste, por governadores de direita. Então essa é a situação que saiu do resultado eleitoral.
Sobre o resultado de presidente, 47 a 45, como você nos lembrou, não é um fato de outro mundo, porque poderia também ser o contrário, 47 para o Lula, 45 para o Bolsonaro. O fato é que a eleição estava polarizada, ou seja, não havia mais formas de se diferenciar com novas adesões ou de indecisos, ou de eleitores que tenham votado em outros candidatos de esquerda ou de direita. Então, é essa a fotografia que os dados nos apresentaram como resultado das eleições de domingo passado.
É comum o ditado de que no segundo turno se inicia uma eleição totalmente nova. Mas, para afinar a estratégia daqui em diante, é central uma boa avaliação sobre o que foi feito nesses meses de campanha eleitoral. Como você enxerga os erros e acertos da campanha eleitoral até aqui?
Os dois lados polarizados desenharam várias táticas. Do lado da extrema direita bolsonarista, ficou evidente, primeiro, que eles tinham recursos em abundância. Se você for pegar o relatório oficial do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), até nisso está polarizado. O Lula usou 66 milhões de reais do fundo partidário e o Bolsonaro 67. Aí não houve nenhum desequilíbrio. Porém, a turma do Bolsonaro já vinha se preparando, há muito tempo, para essa campanha, desde janeiro de 23, e eles montaram um caixa paralelo, na minha opinião, com os recursos que conseguiram mobilizar do Banco Master e daquela corrupção do INSS.
Lembremos do fato que apareceu já nas últimas semanas, mas não teve relevância na mídia, que o escritório do Careca do INSS, o principal articulador daquela corrupção, está localizado numa sala de um escritório do Flávio Bolsonaro em Brasília. Então, é óbvio que a direita se preparou com recursos para a campanha já desde antes, utilizando esses mecanismos que felizmente vieram a público antes da eleição.
Por outro lado, também, a tática da direita foi muito esperta, porque eles procuraram consolidar o seu rebanho com um controle absoluto das redes. Então, eles não usaram mais as redes para nos provocar, nos agredir, para usar palavras de baixo calão, como fizeram em 2018 e 2022. Agora, eles ficaram quietos, se esconderam, mas as redes sociais deles foram muito ativas para manter o rebanho coordenado. E foi isso que aconteceu. O rebanho nem sempre se manifestava nas pesquisas de opinião sobre voto, mas quando chegou a hora H, três dias antes para decidir, eles orientaram toda a sua militância e os eleitores fiéis para designar os votos de acordo com os candidatos que eles decidiram na última hora, além, claro, da presidência.
Bom, do lado da campanha do Lula, também houve muitos erros e acertos. Em um sentido até de autocrítica, primeiro, a campanha não teve uma coordenação de massas. Na verdade, ficou concentrada entre o papel do Lula, o papel do presidente do partido e não sei mais quem, faltou uma coordenação. Pelo menos, eu havia participado em outras coordenações em 94 e 98, além de agora na campanha Lula Livre. Sempre éramos um coletivo de 15, 20 companheiros de várias áreas da sociedade brasileira para que cada um desse a sua opinião e a sua avaliação. E após a avaliação coletiva, então, o presidente e os coordenadores da publicidade tomavam as iniciativas cabíveis.
E essa falta de coordenação mais coletiva leva a erros que possam ser cometidos de uma forma mais frequente, como, por exemplo, a campanha do Lula ficou muito tempo perdida com loas sobre o passado. As pessoas não querem saber do passado. Senão nós ficávamos aqui discutindo como foi o governo do Getúlio Vargas, como foi a ditadura e como foi o governo do João Goulart, que foi o único governo popular que nós tivemos até hoje, infelizmente.
Demorou, então, para a campanha do Lula ir para a ofensiva, sinalizar para o futuro e tomar medidas concretas. Como foi a proibição das bets, que se sabia ser um tema que afetava milhões de trabalhadores pobres, que estava afetando a poupança das famílias e até a saúde mental de muitos apostadores que se transformaram em viciados e que perderam tudo que tinham. Então, a proibição das bets foi positiva, contribuiu para a campanha.
Também acho que nós temos que evoluir para outros métodos de fazer campanha. Esse método de carro de som e mesmo caminhadas nas avenidas, claro, motiva a militância, faz aquele bandeiraço de vermelho, nós todos participamos. Porém, é um método que só dialoga com quem já é militante do Lula ou do PT. E não consegue ampliar.
Claro, gera imagens que depois os publicitários usam na campanha da televisão. Mas isso não é um método que consiga ampliar o eleitorado. Eu acho que nós vamos ter que ser muito criativos para pensar novas formas de fazer campanha que não dependem só do candidato e que não dependam desses comícios com trio elétrico e 300 discursos.
O primeiro turno das eleições tradicionalmente apresenta votos mais pulverizados, com uma centralização no segundo turno, a partir do deslocamento dos votos para os dois concorrentes que seguem no pleito. Este ano o cenário difere na medida em que já aconteceu um movimento de ampla concentração dos votos entre Lula e Flávio, com os demais candidatos tendo votações bastante inexpressivas. Com esse cenário posto, de que maneira o campo democrático pode consolidar essa unificação em torno da candidatura do presidente Lula?
Como avaliação estatística, a possibilidade do Lula recuperar os 3 milhões de votos e ganhar do Bolsonaro no segundo turno é muito viável. Porque os votos da direita pulverizada, no fundo, deram 8%, e em geral são votos mais teimosos que estão mais apegados àqueles candidatos lá, Caiado e Renan Santos, que inclusive faz críticas a Bolsonaro. Também há alguns votos dispersos de candidatos mais à esquerda, a UP, o PSTU e o PSOL, mas são pouco relevantes do ponto de vista estatístico.
O que chama a atenção desses balanços que circulam por aí é que o Lula perdeu 3 milhões de votos em relação à votação de 22. E olhando para o mapa do Brasil, ele perdeu votos em todos os municípios. De maneira que nós nem podemos culpar os mineiros só porque elegeram o Cleitinho, ou os gaúchos. Não, em geral, os 3 milhões perdidos se distribuíram em todo o país. O que revela que a classe trabalhadora de todo o país não estava entendendo o discurso do Lula, porque foi genérico, foi universal, não foi só em um local e nem foi só com um setor.
Não foram as mulheres, ou os negros, ou não sei quem, foi geral. Então, olhando para a frente, eu acho que devemos arregaçar as mangas, óbvio, não descansar, e nesses 20 dias colocar todas as energias possíveis para nós alterarmos o quadro, que é bem factível. Eu acho que nós, estatisticamente, temos possibilidade de ampliar a votação do Lula no Nordeste, porque agora nós já elegemos todos os governadores. Os governadores que perderam vão sair fora, ‘vão para a praia’, como se diz. Agora os nossos, com toda a moral da vitória, podem ampliar o percentual que o Lula fez, ainda que tenha sido muito representativo.
E em segundo lugar, eu acho que nós temos que olhar do ponto de vista estatístico também para as periferias da cidade. Por quê? Nós já tínhamos esse diagnóstico antes e vínhamos dialogando nas plenárias da militância: os setores mais indecisos e que talvez engrosse também a fila dos que não foram votar são as mulheres da periferia da cidade. Mulheres em geral trabalhadoras, mães de família, mães solo e que lutam todo dia pela sobrevivência.
Porém, elas têm personalidade, têm ideia própria e não vão mais atrás do marido, de um pastor, de um padre ou do ‘zap’. Então, a militância dos movimentos populares tem que chegar e dialogar com esse setor social, as mulheres trabalhadoras da periferia das grandes cidades. É aí que está o nó, é dialogar com elas. Então, nós temos que ir nas casas, bater lá sábado e domingo para conversar com elas, entregar material, enfim, fazer um diálogo.
Se o PT tem 600.000 filiados, para citar só o PT, se cada filiado conseguir cinco votos, nós cumprimos a nossa obrigação, mas mesmo assim, se cada deputado eleito conseguir votos, cada senador, e assim por diante, lá com seus prefeitos, eu acho que não é difícil nós alcançarmos as metas.
E a outra perspectiva que eu acho importante é que tanto a mensagem do Lula quanto a nossa mensagem como militantes na campanha desses 20 dias tem que ajustar o programa, ou seja, nós temos que sinalizar para o futuro. Não adianta só ficar botando as merdas do Bolsonaro no ventilador. Isso não altera. A turma não quer saber de briga, confusão e quem vota nele não vai mudar.
Então nós temos que cativar aquele que não votou, que se absteve ou por alguma razão votou nulo ou em branco. E para isso nós temos que cativá-los sinalizando para o futuro, mostrando que o Lula é o único que pode aglutinar forças populares, forças da sociedade em geral, para que o próximo mandato seja de fato um mandato que acelere as soluções para os problemas do povo, que são imediatos.
Mas também que indique o caminho de um novo projeto para o país, que necessariamente tem que estar baseado na ideia de reindustrializar o país, ou seja, financiar indústrias em todos os municípios para gerar emprego e renda para todos e um emprego mais qualificado. Só a indústria pode dar emprego qualificado de alto salário. O setor de serviços e comércio nunca vai pagar mais que o salário mínimo e super-explora. Nenhum jovem sonha em ser balconista o resto da vida, até porque eles têm mais oportunidade agora de entrar na universidade.
A estatística dos que trabalham com o Uber, no último levantamento do IBGE, revelou que a grande maioria dos trabalhadores de Uber tem mais de 40 anos e 40% deles têm ensino superior, o que é uma pena, porque essa gente qualificada devia estar em outros trabalhos na sociedade, me refiro à indústria, produzindo bens, ao invés de simplesmente nesse setor de serviços em que não se produz nada. Você só ativa a prestação de algum serviço para a população.
Nós temos que então sinalizar esse projeto necessário que inclui a soberania nacional. Ou seja, é aqui que cabe o discurso anti-imperialista. Não é só porque o Trump é doido e é amigo do Bolsonaro. O problema do imperialismo é que ele quer tomar as nossas riquezas para poder se salvar da crise capitalista. Então nós temos que defender uma empresa estatal para os minérios raros, que é a palavra da moda agora, terra rara (na verdade terra não tem nada a ver com isso). São minérios raros que compõem a fabricação das baterias. O Brasil tem que botar uma fábrica de baterias elétricas para os carros, caminhões, etc., que são fabricados aqui no Brasil, que são elétricos. Então, nós temos que sinalizar isso.
Assim como na agricultura, nós temos que sinalizar que o objetivo principal de um projeto de país para a agricultura é que ela consiga produzir alimentos saudáveis, sem agrotóxicos, para todo o povo. E, incluído nesse projeto de futuro, também defendermos claramente a natureza. Isso significa lutar pelo desmatamento zero, não derrubar mais nenhuma árvore, significa defender as nascentes de água. Mas, sobretudo, defender um plano de reflorestamento de todo o país, porque se a gente não reflorestar 50 milhões de hectares nos próximos anos, não haverá retorno das mudanças climáticas que nós estamos sofrendo, com essas repetições dos fenômenos das enchentes, das secas, das ventanias, até dos tornados, que já apareceram aqui no Brasil.
E no curto prazo, nós temos que sinalizar para o povo: o Lula se comprometeu — e ele tem que dizer isso — com a tarifa zero para o transporte público, com um novo programa de moradia, com o ensino fundamental em tempo integral para que as mães e os pais fiquem tranquilos sobre onde estão os filhos durante o dia, com um grande programa de estágio que nós poderíamos chamar de “serviço social” para incorporar toda essa juventude que vai se formando na universidade e não tem onde trabalhar ou vai trabalhar em áreas diferentes das que estudou.
Eu acho que nós deveríamos recuperar aquela ideia, com outro nome claro, do Projeto Rondon, que incorporava milhares de jovens recém-formados ou no meio do curso para irem realizar trabalhos sociais em regiões de maior necessidade ou onde o poder público não tem como chegar com médicos, engenheiros, arquitetos, assistentes sociais, pedagogos, etc. Então, esse é mais ou menos o desenho que eu vejo das mudanças que nós temos que fazer para ganhar as eleições no dia 25.
Outro elemento completamente atípico nesta eleição é a interferência estrangeira no processo. Pressões políticas e econômicas já vem acontecendo há meses. Soma-se a isso a destinação de 1 milhão de dólares de um fundo do Departamento de Estado dos EUA para um programa voltado a ataques e tentativa de minar a credibilidade do Supremo Tribunal Federal e a suspensão por parte dos Estados Unidos dos serviços consulares no Brasil, medida que começou na sexta-feira, sob a justificativa de “preocupações com a segurança”, que não foi explicada publicamente. O que devemos esperar de interferência para esse segundo turno e que caminhos você enxerga para enfrentar essa situação?
Os fatos que você relatou são verdadeiros, mas não é aí que está o centro da influência estrangeira. Um milhão de dólares dá 6 milhões de reais, isso é merreca. Acabei de citar os 66 milhões do fundo partidário ou os 134 milhões do Banco Master que passaram para a família Bolsonaro com a desculpa do filme que nunca apareceu. Então, esse 1 milhão é pouco relevante.
Assim como aquela jogada de fechar a embaixada é só uma estupidez do Trump. Vai naquela linha de que “a Groenlândia é minha”, mas não tem eficácia real na luta política. Eu acho que a influência maior, e essa sim é grave porque é invisível, que eles tiveram contra nós é porque a extrema direita americana, junto com a extrema direita espanhola e junto com a extrema direita de Israel, montaram uma articulação para atuar em todo o mundo ocidental. Sobretudo nas eleições, e sobretudo na defesa das ideias sionistas que eles precisam para as guerras e nos ataques que eles fizeram ao Irã, a Cuba, à Venezuela.
E como é que eles montaram essa articulação de extrema direita? Com os computadores e com as redes sociais. Então, eles têm potentes computadores aqui na América Latina, em países que a gente não sabe, provavelmente no Panamá ou nas Ilhas Bahamas. Mas sabemos também que eles usaram bases de computadores potentes na Irlanda, que está fora das regras da União Europeia. A gente sabe que agora, com esse clima de hegemonia de direita no Chile, há poderosos computadores, e evidentemente que também já usaram em outras eleições poderosos computadores de retaguarda em Israel e em Taiwan.
Então, todo esse aparato tecnológico é caríssimo e precisa de muita expertise para operar o envio massivo de milhares de mensagens ao mesmo tempo, e só eles podem disponibilizar para essa extrema direita brasileira. Assim como eles fizeram no Chile, na Argentina com o Milei, no Peru, no Equador, em Honduras e mais recentemente na Colômbia.
Então, essa rede de influência ideológica sim é um perigo, e essa rede que, como eu disse antes, conseguiu manter a unidade do rebanho e não dispersar. Minas Gerais escapou ainda com a Marília, graças a Deus, que conseguiu se eleger. Mas em outro estado, como meu estado do Rio Grande do Sul, eles mudaram o voto ou concentraram, o que não aparecia nas opiniões. Os dois de esquerda estavam na frente até uma semana antes da eleição. E em três dias, quando abriram as urnas, nos demos conta do que eles tinham feito de propaganda.
O coordenador desse esquema que veio a público é um tal de [Fernando] Cerimedo, que é um argentino, um homem de confiança dessa extrema direita. E ele estava sediado na Bolívia depois da vitória da direita lá, porque de lá ele tem mais capacidade de circular em todo o continente. Felizmente o prenderam, não por política, mas por ataques feminicidas dele, e se revelou que ele, inclusive, não está declarado em que país, mas tem verdadeiras fazendas onde estão superlotadas desses computadores a que me referi, que atuam nas redes em prol dos objetivos que eles têm.
Em um determinado momento é a eleição, mas em outro momento é defender o Milei, em outro momento é defender o Trump, em outro momento é atacar Cuba e por aí vai. Então as mensagens e os objetivos da rede estão dentro dos objetivos estratégicos da extrema direita para controlar a América Latina, e que vai aparecendo, então, nesses embates da luta de classes que nós estamos enfrentando com as eleições também.
Para fechar a entrevista com uma notícia mais positiva, o MST conseguiu eleger 8 candidaturas no país, sendo quatro deputados federais e quatro estaduais. Queria que você comentasse qual a importância de ter os Sem Terra ocupando esse espaço institucional? De que forma esses mandatos podem representar avanços não só na luta pela terra mas para toda a classe trabalhadora?
O nosso balanço é muito positivo, porque todos os candidatos que nós apoiamos foram muito bem votados e a maioria deles se elegeu nos seus estados. Eu não gosto muito de apenas citar os que são assentados e militantes do MST, que são uma parcela pequena, esses oito que se elegeram. Mas em cada estado, como vocês aí em Minas, o MST sempre apoiou candidatos de esquerda.
Então aí vocês apoiaram a Bella Gonçalves, apoiaram o Rogério Correia, e eles se elegeram. Mas os dois companheiros não são militantes do MST, são militantes partidários. No entanto, os votos do MST foram para eles. Assim como nós lamentamos a perda do Dr. Bruno Pedralva, mas ele fez uma ótima votação, adquiriu credibilidade. Então nós estamos satisfeitos com os resultados.
Sobretudo porque, além do número de votos, é muito importante nós tomarmos em conta como eles fizeram a campanha. E eu fui a praticamente todos os estados durante o primeiro turno, e me dei conta de como as nossas candidaturas dialogavam com a população, discutiam projeto e discutiam um programa. E que os votos que eles receberam não era pela sua retórica, era porque representavam um projeto de país, às vezes com o boné do MST, às vezes com o boné do PT, e assim por diante.
E então, em cada estado, nós elegemos deputados federais e deputados estaduais. Em todos os estados nós elegemos pessoas nas quais os Sem Terra votaram e que têm compromisso com a reforma agrária. E por isso que do ponto de vista do balanço eleitoral para nós é positivo. Nós estamos muito contentes com o resultado, além, claro, do fato desses oito companheiros que são militantes do MST, a maioria deles nasceu, se criou em assentamentos, e são jovens, mulheres. E tem então toda uma pegada da companheirada que agora, por vocação, resolveu disputar esse espaço institucional.
O MST, durante toda a sua trajetória, cada vez que tem eleições, nós procuramos politizar a nossa base e fazer com que eles votem em candidatos de esquerda, que defendem a reforma agrária, que defendem a classe trabalhadora, isso é o principal. Não importa onde ele nasceu, qual organização ele estava militando por último.
Note, lá no Rio Grande do Sul, nós chegamos a eleger o Frei Sérgio, que era um frade franciscano, tinha a sua militância na pastoral social e foi um grande deputado estadual. Então, assim, essas situações se repetem em todos os estados onde, infelizmente, nós não conseguimos eleger os dois senadores, mas certamente nós elegemos deputado federal em todos os estados. Certamente nós elegemos deputados estaduais em todos os estados. Então, o balanço como MST é positivo.
Queria reforçar o espírito da nossa conversa: só não ganha quem não luta. Mas quem luta, de alguma maneira sempre ganha. Então, agora, para a militância, nós precisamos arregaçar as mangas. Temos 20 dias para fazer o nosso trabalho político, de politização, de defender essas ideias de um projeto para o país, de um programa que ajude a resolver os problemas do povo de forma imediata.
E aí nós não precisamos esperar material de ninguém, não precisamos esperar circular de ninguém. Nós, como militantes, com o nosso discernimento, temos que atuar onde moramos, visitar de casa em casa, conversar com os vizinhos e, claro, conversar também com as pessoas que têm relevância na comunidade.
Me refiro aos pastores, aos pais de santo, mães de santo, a um padre, a um influenciador qualquer, a um líder da juventude, dar entrevista em rádios, como nós estamos fazendo aqui. Então, todas as formas são formas necessárias para nós alcançarmos esse objetivo, conseguir mais 3 milhões de votos e ganhar no segundo turno, nem que seja de pênalti aos 47 minutos do segundo tempo.

