VISÕES POPULARES

As lições da vitória e a agenda de transformações no quarto governo Lula, com José Dirceu

“Houve uma revolução democrática no país”, afirma ex-presidente do PT e ex-ministro sobre a reeleição de Lula

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“A vitória aqui no Brasil mostra que é possível derrotar a direita, que a direita não é invencível”, aponta Dirceu. | Crédito: Brasil de Fato MG

O resultado das eleições do último domingo mostra um feito histórico no Brasil, não só pela virada inédita, mas também pelas mobilizações populares sem precedentes. É o que aponta José Dirceu, ex-presidente do Partido dos Trabalhadores (PT) e ex-ministro-chefe da Casa Civil do primeiro governo Lula.

“A vitória do bolsonarismo no primeiro turno despertou a imensa maioria de jovens, aposentados e mães das periferias, seja de Belo Horizonte, São Paulo, Fortaleza ou Recife, que são beneficiados, não só por programas sociais, mas também pelos avanços econômicos que o Brasil teve. E com a nossa derrota no primeiro turno a juventude, principalmente, se lançou às ruas, se lançou em busca de voto”, explica o político

Em entrevista ao Brasil de Fato MG ele ressalta ainda que, depois das comemorações, é preciso analisar os erros, aprendizados e desafios. Ao Visões Populares, o advogado, político e militante do PT, abordou ainda a importância de Minas Gerais, único estado a virar no Brasil, no resultado geral da eleição. 

Confira a entrevista completa 

Brasil de Fato MG-  Como você avalia essa campanha, sobretudo pela imensa diferença que presenciamos entre o primeiro e o segundo turno? Nesse sentido, qual  tinha sido o erro de interpretação no primeiro turno e que elementos você percebe na consolidação dessa virada histórica?

José Dirceu – Antes do dia 5, eu tinha dado várias entrevistas avaliando que havia dois movimentos: um movimento estrutural, que já vinha desde 2013 e 2018 e que foi fortalecendo a extrema direita no Brasil. O bolsonarismo surgiu, venceu as eleições de 2018, venceu as de 2024 (municipais) e se consolidou em 2026 na Câmara dos Deputados, no Senado Federal e nos governos estaduais, principalmente em São Paulo e Minas Gerais. Ainda que no caso de Minas, o Cleitinho não é bem um bolsonarista. 

Qual é a razão desse fortalecimento da extrema direita no mundo e no Brasil? Em primeiro lugar, a desestruturação do estado de bem-estar social, a desindustrialização de muitos países e a precarização do trabalho. A precarização do trabalho é causada pela evolução do capitalismo financeiro, que fez, aqui no Brasil, o trabalho de aplicativo, o trabalho precário, ou seja, a quebra da legislação trabalhista e a precarização. Eles queriam, na verdade, extinguir a Justiça do Trabalho. A reforma sindical, tirou o imposto sindical e enfraqueceu os sindicatos. 

Por outro lado, nós formamos milhões de jovens que agora não encontram emprego de qualidade porque o país não se industrializou. Eles deixaram uma herança de trabalho precário, flexibilizado e de baixa renda. E ao mesmo tempo, não permitiram que o país fizesse política industrial, o que sempre foram contra. Eles privatizaram a Eletrobras, desmontaram a Petrobras, descapitalizaram os bancos públicos, principalmente o BNDES, a Caixa Econômica Federal e o Banco do Brasil.

Fizeram toda uma política que inviabilizou a possibilidade do Brasil continuar um crescimento robusto com inovação e com crédito barato. Essa foi uma das causas, na prática, da criação de sua própria base de apoio, que eles exploraram depois. 

Há também o choque de valores e cultural que aconteceu no mundo. Nos últimos 30 à 40 anos, houve uma revolução cultural com a igualdade de gênero, na pauta do meio ambiente, da diversidade LGBTQIA+, da democracia e do combate à pobreza. E amplos setores sociais, até por valores religiosos, rejeitaram essas mudanças. Quando o Trump fala que o George Soros, um dos maiores capitalistas financeiros do mundo, é inimigo da América branca, hétero e cristã, ele está falando tudo. E aqui no Brasil isso foi o crescimento do bolsonarismo.

Além de tudo, nós fomos reprimidos de 2013 a 2019, nunca podemos esquecer isso. Uma presidente eleita legitimamente pela soberania popular foi cassada em um golpe parlamentar e jurídico. E o presidente Lula foi levado a um processo sumário por injustiça, a uma prisão durante quinhentos e tantos dias. E o PT quase teve o seu registro cassado, nossos militantes não podiam sair às ruas para fazer campanha. 

Isso abriu uma avenida para a direita ocupar territórios. Não só mandatos de vereador, prefeito, deputado, senador, mas também disputaram conosco os Conselhos Tutelares, palmo a palmo, e usaram a máquina política e administrativa para fins eleitorais, além do poder econômico.

Fora que nós não fomos capazes de nos apoderar das redes, o que é uma questão de prioridade, não tem mistério nenhum. O Janones mostrou que não tem mistério. Então, chegamos a uma situação em que essa força estrutural deu a Flávio Bolsonaro 5 milhões e meio a mais de votos que o pai, Jair Bolsonaro, e deu 2 milhões e 200 mil de vantagem contra o Lula. 

Só que com a vitória dele no primeiro turno, despertou-se a imensa maioria de jovens, de aposentados, de mães das periferias de Belo Horizonte, São Paulo, Fortaleza ou Recife, que são beneficiados não só dos programas sociais, mas também dos avanços econômicos que o Brasil teve. 

Porque se você observar a campanha do Flávio Bolsonaro, é: mudança, antipetismo, custo de vida, segurança, endividamento, ou seja, é bem objetivo e concreto. Ele explorava isso e tentou se vender como um bolsonarismo moderado. O problema é que a vitória subiu à cabeça deles. E ele passou a dizer que ia controlar a Câmara e o Senado, que ia expurgar o Itamaraty, que o irmão ia voltar e que o pai ia passar a faixa para ele. 

Ele não quis assumir o programa de austeridade, apesar de que iria aplicá-lo. Começou a falar que não ia privatizar, que não iria congelar o salário mínimo. Ele tentou ganhar um voto de esquerda e progressista, mas o voto democrático começou a se afastar dele. Não tanto pela submissão ao Trump e aos Estados Unidos, mas pelo medo da ditadura, já que eles tentaram dar um golpe de Estado. 

A memória do que foi o Bolsonaro pai e o risco democrático começaram a mexer com uma parte da classe média, que já tinha dado a vitória para o Lula em 2022, que é a famosa frente ampla com Geraldo Alckmin. 

E com a derrota no primeiro turno, a juventude, principalmente, se lançou às ruas e em busca de votos. O número de aposentados que foram votar e de jovens que os levaram para votar é impressionante. As mais diferentes comunidades se mobilizaram. Houve uma revolução democrática no país. Nós tivemos manifestações de um domingo em 15 capitais, gigantescas, como nunca houve. Em Belo Horizonte foi gigante. 

Eu sou mineiro de Passa Quatro, no Sul de Minas. Quando eu cheguei na apuração,  passei lá na sede do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, a Gleide, que foi eleita deputada federal, nossa amiga, me falou: “Nós ganhamos a eleição em Passa Quatro, no Sul de Minas”. Eu falei: “Então nós ganhamos a eleição”. Porque não é um eleitorado progressista, é um eleitorado mais conservador. 

Mas, de qualquer maneira, houve, na verdade, uma ruptura democrática. Como o Lula já disse, o povo tomou em suas mãos a eleição, a juventude e também as redes. Houve, na verdade, o medo da volta do bolsonarismo e da quebra do contrato social da Constituição de 1988. Eles já tinham rompido com o Estado nacional pelas privatizações, desmonte da política de industrialização, e já tinham rompido o pacto democrático com o golpe contra a Dilma e com a tentativa de golpe do Bolsonaro. 

E eles continuam insistindo, agora o mercado está procurando se estabilizar. Há muita especulação, muita gente apostou que o Flávio ia ganhar e perdeu muito dinheiro, e muita gente percebeu, no final, que o Lula ia ganhar e ganhou muito dinheiro. 

Mas tem também, nesse movimento do mercado, uma chantagem sobre Lula para ele fazer um ajuste fiscal que o Flávio faria, ou, pelo menos, que o Zema e o Renan Santos, assumiram que fariam. Porque o Caiado e o Flávio ficaram em cima do muro, nunca falaram qual ajuste fariam. O Flávio deu aquela declaração de que ia fazer um tesouraço de R$250 bilhões, mas aquilo não chegava a R$40 bilhões. Na verdade, ele tinha compromissos muito claros com a Faria Lima e com o capital financeiro e agrário do país. 

Então, eu acredito que o que nós assistimos no Brasil foi uma repulsão democrática, que levou o Lula ao quarto mandato. E o Lula reconheceu isso, que precisa governar de outra forma e que a força dele vem da mobilização popular. Aliás, o fim da escala 6×1, a isenção do imposto de renda até R$ 5 mil e a taxação de lucros e dividendos só foram aprovados pela pressão popular. As pesquisas mostraram que 84% dos jovens queriam o fim dessa escala 6×1 e que 80% dos brasileiros consideram que quem deve pagar imposto é a renda, a propriedade e o patrimônio – ou seja, os 2% de brasileiros que têm a mesma renda que 150 milhões – e não o salário e a produção. 

A percepção de renda no Brasil é afetada pelos juros altos, o custo da energia, e pelo imposto de consumo, porque hoje um país que está crescendo precisa ter crédito barato e inovação. Eu dou um exemplo: nós temos 4 milhões de pequenos proprietários agrícolas; a metade tem pacote tecnológico e crédito, ou, pelo menos, 25% deles têm isso de forma consistente. Os outros 25% têm e não têm, vão levando. Mas têm um nível de produtividade. 

Se os outros 2 milhões passam a produzir você pensa bem: se cada uma alimenta 50 pessoas, você está colocando quase 100 milhões de pessoas alimentadas por elas, talvez até mais. Então, isso significa que você estabilizaria os preços dos gêneros de primeira necessidade da cesta básica, que é uma das coisas que o Flávio mais explorou, o preço dos alimentos. 

Ele explorou o preço dos alimentos, a insegurança, a proteção à mulher, à mãe solteira, às famílias e a questão do endividamento. Por que o endividamento que tem no Brasil é diferente? Endividamento há em qualquer país do mundo. O problema é que nos outros países do mundo não se paga 20% do que se paga de juros no Brasil. 

Aqui, empresta-se dinheiro no crédito consignado, que é um dinheiro seguro de receber porque desconta direto da folha do aposentado ou do servidor público, e cobram 50% de juros quando a inflação é 4,5%. Se cobrassem 15%, já estava muito bem pago.  Então nós temos uma situação em que o Lula foi muito prejudicado pela política monetária do Banco Central e pela pressão e chantagem do capital financeiro, que chantageou no final de 2024 e está chantageando ele agora de novo. 

Então, a nossa missão com o resultado eleitoral é sustentar a mobilização, a participação e a presença nas ruas para que o Lula possa assumir, fazer um governo de frente ampla – porque ele foi eleito com o apoio de setores da sociedade, inclusive da direita democrática – mas ao mesmo tempo avançar numa agenda que ele já anunciou: educação integral e o Pé-de-Meia Universitário. 

Porque realmente, qual é a realidade do levante em curso agora na Europa? Os estudantes não têm acesso a restaurante, não têm dinheiro para material, não têm local de habitação, não têm dinheiro para transporte, e as escolas estão piorando a qualidade. 

Então, há uma batalha a ser feita para industrializar o país, aumentar a renda e criar empregos melhores. Até porque nós formamos milhões de jovens que hoje não têm emprego de qualidade e criam essa pressão; também devemos avançar na agenda de inovação tecnológica, transformar as terras raras, garantir a soberania digital. 

Por exemplo, o Brasil tem um complexo de saúde, um complexo de óleo e gás, de indústria química, e tem uma base industrial muito forte na indústria leve e na indústria de máquinas e equipamentos. E o Brasil é um país que tem soberania alimentar e energética. Poucos países do mundo têm isso, e tem 213 milhões de habitantes, que é um grande ativo, pois o Brasil tem um mercado interno que viabiliza qualquer produção. 

Agora, tem que modernizar a infraestrutura, o que precisa de 3 a 4 por cento do PIB de investimento. O Brasil precisa baixar o custo da energia, fazer uma reforma tributária para que o imposto seja menor sobre a produção e o consumo e maior sobre a propriedade, a riqueza e a renda, o que hoje não acontece. Lucro e dividendo não pagam imposto no Brasil, são R$1 trilhão em lucros e dividendos. 

Precisa baixar os juros, porque pagar 10% é um absurdo; em um país civilizado do mundo não se paga mais que 1% na dívida pública. Os Estados Unidos pagam 0,8% e a Finlândia 0,34%. O Japão, que tem uma dívida pública de 250% do PIB paga menos que no Brasil, onde nós temos uma dívida pública de 60%, e 20% disso são os chamados empréstimos compromissados, que poderiam ser feitos pelo Banco Central sem entrar na dívida pública. 

Portanto, o desafio do Lula, como ele não vai ter maioria na Câmara e no Senado, exige muita presença, pressão, demanda e reivindicação popular.

Minas Gerais foi o único estado do Brasil a mudar de resultado entre o primeiro e o segundo turno. Aqui o presidente Lula aumentou sua votação em mais de um milhão de votos, terminando o pleito com 50,43% dos votos mineiros. Na sua opinião, a que se deve essa virada que confirmou a tradição de que quem ganha em Minas ganha no Brasil? E qual foi a importância da mobilização em Minas para o resultado do restante do Brasil? 

Primeiro, os candidatos a deputado passaram a fazer campanha só para o Lula no segundo turno. Porque no primeiro turno eles faziam campanha para o Lula, para o nosso amigo Patrus, mas tinham que cuidar da sua própria eleição. Segundo, é evidente que aí em Minas Gerais também a juventude, as mulheres na periferia e os aposentados se mobilizaram. 

E Minas tinha uma característica também: o Cleitinho foi eleito, mas ele não era um candidato bolsonarista empenhado na eleição do Flávio. Ele declarou apoio ao Flávio, talvez até mais por omissão nossa, por incapacidade nossa, por circunstâncias que não permitiram um diálogo maior com ele. Ele não é uma pessoa de esquerda nem progressista, mas também não é um bolsonarista puro. 

Tanto é que ele já conversou com o presidente, que já se colocou à disposição dele, já deu até o telefone direto, porque Minas Gerais precisa estar articulada com o Brasil. Não só por causa da questão da dívida de Minas, mas também porque o estado tem uma base industrial muito importante e uma economia agropecuária proporcionalmente relevante. 

Minas tem problemas que, para serem resolvidos, exigem a participação do governo federal. Eu acredito que em Minas também a questão nacional acabou predominando, pesou a questão do medo da volta do bolsonarismo, do risco democrático e também do risco da perda das políticas públicas. 

Se nós olharmos no nosso próprio entorno familiar ou de amizades, veremos que no primeiro turno as pessoas votaram a favor do Lula, mas não fizeram campanha. Quando elas se deram conta de que o Flávio ia ganhar a eleição, passaram a fazer campanha. Milhões de pessoas fizeram campanha no segundo turno. Quando se deram conta de que o risco era um fato concreto. Se você colocar 1 milhão de votos que nós ganhamos a mais em Minas, e os que ganhamos em São Paulo, já derrotava o Flávio. Se colocar só o Nordeste, já derrotava o Flávio. 

No Norte nós acabamos empatando, no Pará e no Amazonas, nós perdemos por 10.000 votos, e há cidades de Minas em que aumentamos 12% nossa votação. Foi aquilo que eu te falei, a imagem que eu tive quando cheguei foi da Gleide, nossa deputada federal eleita, me falando de Passa Quatro, no Sul de Minas, e o ex-ministro da Pesca, que é de Santa Catarina me dizendo que em Florianópolis íamos empatar e que em várias cidades de Santa Catarina nós tínhamos subido 3%, 7%, 10%. 

Então eu falei: “Bem, está acontecendo em Santa Catarina e no Sul de Minas, nós vamos ganhar a eleição”. Como eu sou do Sul de Minas, sou muito amigo do Ulysses e do Odair, nosso deputado estadual e nosso ex-deputado que agora é ministro do TCU, eu conheço bem a realidade aí e sabia o impacto que isso ia ter. 

Eu acho que também pesou essa Minas Gerais que é o pêndulo da eleição e que é muito democrática. Esse fator democrático pesou muito, e Minas tem um fator do nacionalismo também. Se tem um estado brasileiro que representa o nacionalismo, aliás, na independência do Brasil, o primeiro grande levante contra Portugal é o de Tiradentes. Além de toda a história de Minas, a própria figura de Juscelino Kubitschek, sempre esteve ligada a um pensamento sobre o Brasil. 

Vamos lembrar que Juscelino Kubitschek não só faz o Plano de Metas e a construção de Brasília, como ele lança a Operação Pan-Americana, que era uma tentativa, um prenúncio, do Mercosul e da Unasul. A figura de Juscelino ficou um pouco apagada depois da morte dele, dos anos de ditadura e da redemocratização. 

Você sabe que Juscelino entrou para a política em Passa Quatro, ele era capitão médico da Força Pública, estava na Santa Casa de Passa Quatro, na Revolução de 1932 conhece Valadares e entra para a política. Então, para mim foi muito marcante, eu sou um estudioso da Era JK, porque é o Brasil que nós precisamos. 

Um Brasil em que o Estado tem um papel indutor do desenvolvimento, que tem um projeto de desenvolvimento nacional, que tem metas, que eu espero que o Lula faça. A reindustrialização do Brasil, que ele, na campanha e depois agora, se comprometeu a fazer, é o grande problema dos Estados Unidos. 

Porque os Estados Unidos não querem um Brasil como o Japão, como a Coreia, uma potência. Sabem que o Brasil vai integrar a América do Sul, vai criar aqui uma espécie de União Europeia, e os estadunidenses já diziam na década de 1980: “Não permitiremos outro Japão na América do Sul”.

Até o momento dessa conversa, diversos países do mundo reconheceram as eleições brasileiras e parabenizaram o presidente Lula pela vitória, uma lista que ainda não inclui o governo da Argentina e dos Estados Unidos, cujo presidente inclusive fez afirmações colocando em dúvida a lisura do nosso processo eleitoral. Por outro lado, em países como o México e a Espanha a vitória de Lula e as mobilizações populares no Brasil foram vistas como sinal de esperança internacionalmente. Na sua visão, o que significou essa eleição internacionalmente e que  desafios estão colocados, nesse sentido, para o futuro? 

O Lula é um líder mundial. A vitória dele tem um simbolismo fantástico para a democracia, para o multilateralismo, para a paz e para a luta contra a pobreza, a desigualdade e a fome no mundo. O Lula foi a Barcelona com Pedro Sánchez, presidente do Conselho de Ministros da Espanha, que agora tem uma eleição contra a extrema direita e à direita. Reuniu os governos e partidos progressistas do mundo todo, lideranças empresariais, intelectuais e artistas, para se contrapor à extrema direita, ao trumpismo e à aliança conservadora da qual Flávio e Eduardo Bolsonaro são membros. Isso é muito importante. 

Segundo, a vitória aqui no Brasil mostra que é possível derrotar a direita, que a direita não é invencível. Porque foi se criando uma ideia de que eles ganhariam, como tiveram vitória na Argentina, na Bolívia, no Chile, depois na Colômbia, no Peru, antes no Equador, também em Honduras e Costa Rica. Já tinha ocorrido em El Salvador com o Bukele, que é um ditador na verdade, como o do Equador também está se transformando em um ditador, que colocou na ilegalidade o partido do Rafael Correa (que teve 40% dos votos) e ganhou a eleição porque decretou estado de sítio em sete províncias. 

A vitória do Lula é histórica e vai enfrentar essa oposição do Trump. Porque o Milei não reconheceu, mas nós sabemos que 70% dos argentinos desaprovam essa atitude do Milei. A imensa maioria do povo argentino está conosco e o Mercosul e a integração dos sul-americanos são o nosso destino, o nosso futuro. 

Portanto, claro, os Estados Unidos são perigosos, porque a ida do Flávio Bolsonaro significa que vão conspirar contra nós. Vão dizer que a eleição foi fraudada, foi corrupta, não foi honesta, como o Trump está dizendo que tentaram fraudar a eleição lá nos Estados Unidos. E de fraude eles entendem, porque eles tentaram fraudar a nossa eleição com a Polícia Rodoviária Federal em 2022, tentando impedir os eleitores, como tentaram agora, desmobilizando o transporte coletivo nas principais capitais e em cidades como Feira de Santana, Lauro de Freitas e outras cidades importantes do Nordeste e da Bahia. Aqui em São Paulo houve isso também. 

Nós temos que levar a sério, não subestimá-los, porque nós os subestimamos e eles quase dão um golpe militar. No dia 8, vimos aquele levante dirigido, financiado e que destruiu a Câmara dos Deputados, o Senado Federal, a sede do Supremo Tribunal Federal e o Palácio do Planalto, os símbolos da República. E eles ainda acham que era só vandalismo, uma arruaça, o “golpe da Disneylândia”, como o Flávio Bolsonaro disse no debate com o nosso presidente Lula. Então, acho que é muito grave. 

Nós devemos tomar ao pé da letra, porque os Estados Unidos usam sanções econômicas, usam sabotagem, usam assassinatos de líderes políticos e procuram desestabilizar governos e ganhar eleições com pressão diplomática, comercial, política, guerra híbrida e até com o uso da CIA. O Trump já tem procurado pretextos para criar um contencioso que nunca existiu entre o Brasil e os Estados Unidos. Aliás, quando ele fez o primeiro tarifaço, a primeira entidade que se colocou contra foi a Câmara de Comércio Brasil-Estados Unidos. Lá nos Estados Unidos, todo o complexo econômico da carne e do café ficou contra. Então, nós temos que denunciar e nos preparar sempre para o pior com eles, não subestimá-los.

Apesar de uma vitória mais folgada do que o esperado, Flávio Bolsonaro ainda teve mais de 48% dos votos, o que demonstra que a extrema direita é uma força importante dentre os brasileiros. A gente assistiu também a diversos episódios de violência cometidos por eles depois do resultado eleitoral. E Flávio fugiu do Brasil rumo aos Estados Unidos onde seu irmão Eduardo segue incitando violência e interferência estrangeira contra o nosso país. Como lidar com essa imensa parcela da população capturada pelos discursos de extrema direita?

Com humildade, reconhecendo as dificuldades que milhões de brasileiros têm, reconhecendo nossos erros e a necessidade de políticas públicas. Por exemplo, nós sabemos que hoje a juventude trabalha de 8 a 12 horas, de segunda a sábado, para ganhar R$ 1.800, com um transporte coletivo péssimo e com problemas graves para a sustentação das suas famílias. 

O Brasil precisa crescer, precisa se industrializar, e ao mesmo tempo há a necessidade de consolidar e expandir os serviços públicos. O Lula quer universalizar o Pé-de-Meia, inclusive para o ensino universitário. Ele quer avançar no ensino integral, porque hoje a aspiração de toda mãe é ter o filho na escola integral de verdade, com lazer, cultura e esporte. Nós precisamos fazer uma reforma profunda no ensino e nos currículos, já que estamos vivendo na era da TI e da robótica. Não devemos ter preconceito contra o empreendedorismo e o ensino de educação financeira, que são necessários. 

Principalmente lembrar que uma economia de serviços é uma economia de empreendedores, de autônomos e de MEIs. Fomos nós que criamos o MEI, nós que criamos o Simples Nacional. Então, nós temos que avançar em certas agendas e ter atenção à necessidade de industrialização do país, porque o que faz a renda média de um país crescer é a inovação. 

Mas para isso, precisa baixar os juros e fazer uma reforma tributária. Eu acho que nós devemos dialogar com esses setores. Ser eleitor do Bolsonaro não quer dizer que a pessoa é bolsonarista nem de direita. Não podemos misturar a questão evangélica com a questão política. Os evangélicos têm uma posição política que independe da religião. Nós podemos discordar deles; por exemplo, os evangélicos que defendem a compra livre de armas, mas a maioria das mães evangélicas já não acredita nisso, já são contra. 

Quando houve a discussão do ECA Digital, os deputados evangélicos estavam todos contra, mas foram para os seus estados e voltaram com a metade a favor. Porque as mães falaram para eles: “Não, você está enganado. Aqui teve um pedófilo que fez isso, aqui a menina se suicidou, aqui está tendo violência por causa dessa internet profunda que está cheia de criminosos e pedófilos”. Então, a gente tem que dialogar com eles, compreender a situação. 

Além disso, nós precisamos reconstruir os nossos movimentos e partidos nos territórios, porque passamos quase dez anos enfrentando processos, depois veio a pandemia, libertar o Lula, eleger o Lula. Agora é renovar. Tem que haver uma transição geracional que já está acontecendo, basta ver os deputados jovens que foram eleitos em Minas e São Paulo e em todo o Brasil; nós já tínhamos vereadores e vereadoras, e precisamos fazer a transição geracional, como muitos movimentos têm feito. 

Se você olhar um movimento como o MST, vai ver uma geração nova enorme. Eu quase me considero membro do MST, tenho uma parceria desde 1983. Temos uma trajetória comum desde a fundação do MST. O MST é um exemplo da transição de geração e do empoderamento nas mídias. Nós temos que fazer o dever de casa, voltar para os territórios.

O mandato parlamentar é para ser exercido, mas também para construir nossos movimentos e partido e para estar na luta social. Essa era a nossa orientação, o tripé do compromisso: quando nos candidatamos a um cargo público, manteríamos os pés no território e os pés na construção do movimento e do partido. 

É preciso ainda, no caso do PT, fazer um congresso, mudar o estatuto e atualizar o programa, porque o mundo e o Brasil mudaram. Tirar lições da derrota no primeiro turno, tirar lições da derrota nas municipais de 2024, porque levamos uma surra em 2024. Abrir os olhos para a formação política, porque as redes sociais são muito importantes. A educação a distância é um instrumento poderoso para a formação política. Ela pode ser uma deformação se usada para fins comerciais e lucro, mas é um instrumento fantástico que temos que utilizar. 

Você vê, eu estou conversando com você aqui hoje. Amanhã eu posso reunir mil dirigentes de qualquer entidade ou movimento por uma hora, ouvindo opiniões, ou organizar um curso de formação política sobre a história econômica do Brasil para 500 mil jovens. Se você falar com 50 mil jovens a cada mês, em dez meses alcança essa marca. Nós precisamos voltar a fazer o trabalho que nos construiu e que nos deu as condições de ter a força que temos. 

Porque o Brasil progressista e democrático é muito grande; nós ganhamos, por exemplo, 10 milhões de votos entre o primeiro e o segundo turno. Olha a reserva estratégica que nós tínhamos. Quando se perde a eleição, a primeira coisa que se faz é mudar o estado-maior. Segundo, convocar as reservas. Se você olhar para a Segunda Guerra Mundial, como os países saíram da derrota para a vitória contra o nazifascismo? Mudando a estratégia, as direções e convocando as reservas, aquela força profunda que era a juventude. E ela deu conta do recado e levou o Lula a uma nova vitória. E o Lula tem um compromisso muito grande com essa forma de governar com mobilização e com o programa de governo, no qual nós temos que avançar.

Em entrevista recente ao Brasil de Fato, você relatou que em uma conversa o presidente Lula afirmou que, caso eleito, não governaria da mesma maneira. Ele próprio afirmou isso durante sua participação na live do Janones no sábado, dia 24, e no discurso após a vitória na avenida paulista. Queria fechar essa entrevista te perguntando o que precisa ser diferente neste novo mandato? E como o governo deve lidar com o Congresso Nacional de maioria de direita e extrema direita?

A resposta para o Congresso Nacional é mobilização popular. Nós ganhamos o fim da escala 6×1 e a isenção sobre o imposto de renda porque as ruas falaram e as pesquisas falaram. Ele tem que governar de acordo com o resultado eleitoral e fazer um governo mais amplo, porque não foi só o PT e a esquerda que o elegeram; esse foi o recado das urnas. Mas tem que ter um programa também mais consequente com relação às mudanças. 

É uma tarefa difícil, mas mais difícil era eleger um presidente operário, depois uma mulher presidente, e mais difícil ainda era dar o quarto mandato para o presidente Lula, e nós conseguimos. Vamos lembrar sempre disso. É preciso fazer rapidamente a volta aos territórios, o trabalho de formação, o empoderamento nas redes, a transição geracional e radicalizar a democracia dentro do nosso partido e dos nossos movimentos. Evitar o populismo e a burocracia, e evitar a dependência dos fundos partidário e eleitoral. 

Nós temos que abrir os olhos para os problemas que estamos acumulando. Partidos políticos de origem sindical e com base nas classes populares tendem, se não houver uma contra força, a se burocratizar, a se institucionalizar e a se tornar máquinas eleitorais. Num país em que a direita disputa conosco com violência, terror psicológico e forte poder econômico, nós não podemos cometer o erro de não abrir os olhos para a necessidade de reformas e mudanças no nosso próprio modo de fazer política e de nos organizar. 

Por isso nós estamos na expectativa de um congresso do PT para reformar o estatuto e atualizar o programa de governo. E mais, queremos unificar todas as forças políticas. Na verdade, nós precisamos ter uma frente ampla, igual à do Uruguai, uma federação com todos os partidos. Porque o fortalecimento do PL foi tal que exige de nós humildade para reconhecer os erros e capacidade para buscar a unidade entre as forças políticas para enfrentá-los.

Não vamos achar que, porque o Lula foi reeleito, nós somos a força hegemônica. Não é assim, nós temos que ter muito cuidado com isso. Então, essas são as considerações que a experiência de quase sessenta anos e a observação destes últimos anos me trazem.

Editado por: Elis Almeida

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