Cultura

Trinta anos sem Clementina de Jesus

A cantora representou um elo entre a moderna cultura negra brasileira e a África Mãe

Brasil de Fato | São Paulo (SP)

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A cantora gravou 13 discos, com destaque para o disco O Canto dos Escravos / Reprodução | TV Cultura

Há 30 anos, o Brasil perdia o canto negro, a voz possante e única de Clementina de Jesus. Conhecida também como Rainha Ginga, Quelé e Tina, a sambista fluminense foi uma das grandes expressões da herança africana no país. Neta de escravos, Clementina representou um elo entre a moderna cultura negra brasileira e a África Mãe.

Nascida na cidade de Valença, no Rio de Janeiro, Clementina era filha de uma parteira e um violeiro da região. Aos sete anos se mudou com a família para a cidade do Rio de Janeiro, bairro de Oswaldo Cruz, onde mais tarde surgiria a tradicional Escola de Samba Portela.

Até os quinze anos, Clementina participou do grupo de Folia de Reis de seu João Cartolinha, renomado mestre da região. Foi João quem levou a moça para o Bloco As Moreninhas das Campinas, embrião da Portela.

A voz de Clementina começou a chamar a atenção, sendo convidada por Heitor dos Prazeres para ensaiar suas pastoras, algo que continuou fazendo por muito tempo. Nesta época, Clementina trabalhava como lavadeira e empregada doméstica.

Diferentemente das famosas “divas do rádio” das primeiras décadas do século XX, a cantora negra tinha um timbre de voz grave, mas com grande extensão e um repertório de músicas afro-brasileiras tradicionais.

Seu canto rouco e quase falado, fora dos padrões estéticos, conquistou a crítica, compositores, artistas e, principalmente, o povo. Um dos retratos do sincretismo brasileiro, Clementina de Jesus estabeleceu uma ponte entre os terreiros de candomblé e a linguagem contemporânea. Mas somente em 1964, aos 62 anos, a cantora teve a sua grande oportunidade profissional.

O compositor e produtor Hermínio Belo de Carvalho, que já tinha visto Clementina de Jesus se apresentar em bares do Rio de Janeiro, convidou-a para fazer alguns shows. O sucesso foi imediato, a ponto de Belo de Carvalho criar o musical "Rosas de Ouro",  show que a consagraria. Naquele mesmo ano de 1966, Clementina gravou seu primeiro disco solo, intitulado Clementina de Jesus, com repertório de jongo, curima, sambas e partido-alto.

Ao todo a cantora gravou 13 LPs, com destaque para o disco O Canto dos Escravos. Entre os seus principais sucessos estão as músicas “Fui Pedir Às Almas Santas”, “Não Vadeia” e “Marinheiro Só”.

Clementina morreu em 1987, no Rio de Janeiro, vítima de um derrame.

Mosaico Cultural

Locução: Norma Odara

Produção: Nadine Nascimento

Sonoplastia: Jorge Mayer