Diversidade

Da casca a castanha: coco babaçu é fonte de renda para milhares de assentados no TO

Fruto é utilizado na fabricação de azeite, suplemento alimentar, carvão, cachaça e outras iguarias

Brasil de Fato | São Paulo (SP)

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A extração da amêndoa geralmente é feita pelas mulheres, que utilizam uma espécie de martelo para romper a casca do fruto. / Foto: Movimento Interestadual de Quebradeiras de Coco Babaçu

É a queda dos cachos de coco babaçu no chão da mata que dita o início do ciclo de preparo dessa iguaria. No assentamento Paulo Freire, que fica na cidade de Sampaio, no Tocantins, o pequeno fruto marrom é aproveitado inteiro, sem nenhum desperdício, como conta a assentada Ednalva da Conceição:

“Não escapa nada porque ele é 100% aproveitado. Porque do coco babaçu a gente consegue fabricar até mesmo a cachaça, que nós chamamos de Cachaça da Terra.”

Depois da coleta, as mulheres do assentamento se reúnem para quebrar o coco e extrair a castanha utilizada no preparo de azeite e do óleo in natura. A tarefa, porém, não é das mais fáceis, já que o fruto é bastante resistente. Mas elas encontraram um jeitinho trocando experiências com outras quebradeiras de coco babaçu. 

“Não é fácil, mas para nós já é um tanto quando prático porque a gente quebra ele sentadinha no chão. A gente mandou fazer um machado que põe numa cunha, daí a gente bota o coco no giral, senta numa cadeira e começa a quebrar. Dói menos as costas. Isso a gente aprendeu trocando experiências com cooperativas das outras cidades", conta.

Depois de extraído, a castanha é torrada, moída no moinho e cozida para a extração do óleo utilizado na cozinha como substituto do óleo de soja. Já para se obter o óleo in natura, o procedimento é diferente. 

“Quebramos, cortamos a castanha no meio e colocamos no sol por dois dias. Depois a gente leva para prensar a frio. Por isso que ele é in natura, porque não é cozido”, ensina Ednalva.

Os derivados dessa fruta são os principais produtos comercializados pelo assentamento desde 2012. São 500 famílias que sobrevivem principalmente do babaçu.

Ruberli Ramos dos Santos, do Assentamento Nova Estrela, município de São Sebastião, no Tocantins, nos apresenta outra maneira de consumir o babaçu:

“Fabricamos uma farinha chamada mesocarpo que está sendo utilizada como suplemento alimentar. Aí você coloca as diversidades que quiser, desde o uso no suco, na salada, cobrindo a refeição.”

As utilidades do babaçu não param por aí. Além da castanha e da massa, a casca também é usada como substituto do carvão e até para cobertura de casas de pau a pique. 

“A palha para cobrir as casas, a outra parte das palhas que se chama talo para fazer as casas de pau a pique. A casa, que depois que são retiradas as amêndoas, para fazer o carvão e comercializar futuramente isso tudo.”

No Assentamento Nova Estrela, são 69 famílias que vivem da extração do coco. A atividade é semelhante à de muitos outros homens e mulheres das regiões do Maranhão, Piauí, Pará e Tocantis, onde as Palmeiras do Babaçu são abundantes. Mas, segundo Ruberli, o alimento está ameaçado por conta da ação dos fazendeiros do agronegócio. 

“O que a gente percebe e tem medo é que no máximo há 10 há 15 anos não vai ter mais produção do coco porque as palmeiras estão sendo destruídas pelos fazendeiros. E isso é um receio grande que a gente tem e faz um apelo: que as leis possam ser aplicadas para proteger nossos babaçuais.”

As Palmeiras do Babaçu podem chegar até 20 metros de altura e folhas de 8 metros de comprimento. A extração é feita somente quando o fruto cai no chão, indicando a maturidade do coco.

Edição: Guilherme Henrique