Podcast

Abelhas estimulam a biodiversidade em reserva no Tapajós

Produtores também melhoram rendimentos e reforçam a saúde da comunidade com mel

Ouça o áudio:

Joelma Lopes: "Como por aqui não há quem trabalhe com a soja, nossas abelhas estão bem"
Joelma Lopes: "Como por aqui não há quem trabalhe com a soja, nossas abelhas estão bem" - Bob Barbosa
Produtores também melhoram rendimentos e reforçam a saúde da comunidade com mel

A criação racional de abelhas sem ferrão, prática conhecida como meliponicultura, vem se ampliando na Resex Tapajós Arapiuns, e assim gerando renda, colaborando na agricultura familiar e na manutenção da floresta. A Resex é uma das maiores e mais populosas Unidades de Conservação (UC) de uso sustentável do Brasil, onde vivem aproximadamente 23 mil pessoas, distribuídas em 72 comunidades ribeirinhas e aldeias indígenas.

Ronaldo Farias, conhecido também como Irara, é um dos muitos meliponicultores da Resex que, para aumentar a oferta de alimentos às abelhas, estão reflorestando as áreas próximas aos meliponários. “Eu continuo plantando árvores perto delas, que dão as flores, que é pra elas se manterem no sustento delas. É o foco que eu tenho, de ajudar elas e elas me ajudarem.” 

Ronaldo sabe o quanto a polinização feita pelas abelhas favorece a produtividade. “Eu já senti muito essa ajuda nas plantas que eu tenho, também frutíferas, porque agora é uma fruta de qualidade que estou tendo. Quando eu não tinha as abelhas próximas ao meu pomar, eu não tinha uma fruta de qualidade, e dava bem pouco. Agora dá uma fruta de qualidade mesmo. Porque eu vejo que é a polinização da abelha.”

Ronaldo Farias: polinização de abelhas favorece a produtividade. |  Foto: Bob Barbosa

“Porque é a abelha que faz a visita nas flores, aonde as flores dão os frutos, então, a abelha, a meliponicultura, para nós, é muito importante,” explica  Joelma Lopes, meliponicultora da comunidade de Carão.

Nativo da Vila do Anã, que fica na beira do Rio Arapiuns, Alexandre Godinho é um dos principais incentivadores da meliponicultura na Reserva Extrativista. Estima-se que, apenas na sua comunidade, mais ou menos 30 pessoas manejam em torno de 800 colmeias de abelhas. 

Com cerca de 5 mil colmeias, os dados recentes indicam que as criações de abelhas sem ferrão e também as atividades de reflorestamento decorrentes da meliponicultura estão se expandindo na Resex. Segundo Alexandre, nas 13 comunidades da Resex, 70 produtores cadastrados já estão produzindo mel. “Paralelo à atividade com a meliponicultura a gente tem o programa de reposição florestal, que o cara maneja a abelha mas também ao mesmo tempo, recebe mudas para plantar na sua área onde fez o roçado para plantar a maniva. Depois ele tira a maniva e planta a árvore propícia para esse fim, que é o néctar e o pólen”.

Alexandre também faz parte da equipe do Projeto Saúde & Alegria, uma organização que, em parceria com associações comunitárias da Resex, coordena o Centro Experimental Floresta Ativa (CEFA), onde moradores e moradoras são capacitadas em tecnologias socioambientais, baseadas nos princípios da permacultura e da agroecologia.

É o caso também da Joelma, que hoje conta com 32 caixas de abelhas em seu meliponário. “Há três anos eu participei de um curso de meliponicultores, aqui no CEFA e eu vi que era um trabalho fácil de fazer, de manejar e gera uma renda boa. Muitas vezes ninguém tem uma renda fixa, mas eu complemento minha renda com mel.”

Com 34 caixas em seu meliponário na comunidade de Uquena, e há dez anos criando abelhas sem ferrão, Ronaldo, bem como a maioria dos meliponicultores da Resex, vende o mel para os próprios moradores. “Cada coleta que eu faço eu tiro cinco litros. Vendo vários litros em embalagens, de um litro, de meio litro, de 100 mililitros, varia né.” 

Ronaldo é também adepto de uma prática enraizada nas comunidades da Resex. “Eu faço os remédios caseiros com ele, é muito bom. Meus filhos não sofrem dessas grandes tosses, que acontecem com muita gente. Isso me traz um benefício muito grande e que melhorou a minha economia, pois não gasto lá fora, com remédios nas farmácias e drogarias.”

Luiza Ferreira | Foto: Bob Barbosa

Mãe solo de duas crianças, Luiza Ferreia, da comunidade do Carão, também usa o mel como remédio. “Quando a criança ou qualquer pessoa está com tosse, o remédio é o mel misturado com isso ou com aquilo. É um alimento que nós podemos consumir no café da manhã, no almoço, na janta, fazer um bolo de mel, que é uma delícia.”

Na Reserva Extrativista Tapajós Arapiuns não há criações de apis, as abelhas conhecidas como europeias, italianas ou africanizadas, que são abelhas com ferrão e que exigem do apicultor o uso de máscaras e roupas especiais de proteção. Por sua vez, na meliponicultura, o ferrão atrofiado é uma vantagem. “É uma abelha muito boa de trabalhar. Muitas das vezes eu preciso só de uma máscara bem simples, só pra ela não atacar no olho e no ouvido”, diz Ronaldo. 

São centenas de espécies de abelhas sem ferrão existentes na Amazônia, sendo que a maioria vive em colmeias espalhadas na natureza, colaborando através da polinização, na manutenção da própria floresta.

Para Joelma Lopes, há uma explicação para a criação de abelhas dar certo. “Na nossa Resex nós não temos plantadores de soja, que é aonde a gente vê que sai muito o veneno pras nossas abelhas. Como por aqui não há quem trabalhe com a soja, nossas abelhas estão bem.” Ronaldo Farias concorda: “Aqui na Resex, as abelhas estão bem, e a gente não tem a ameaça do agrotóxico. Então, a tendência é crescer, melhorar, pra toda a grande Resex.”

Como a Reserva Extrativista Tapajós Arapiuns é uma área protegida, não está ocorrendo nela o fenômeno da mortandade de abelhas. Do outro lado do rio, entretanto, fica o Planalto Santareno, onde as plantações de soja prejudicam e até acabam com as criações de abelhas nos meliponários e apiários.

Foto: Bob Barbosa

Edição: Daniela Stefano