Linha e agulha tecem a busca pelo autoconhecimento

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Artesãs do Coletivo Linhas do Horizonte fazem mosaico de bordados / Divulgação/Linhas do Horizonte
Grupos de mulheres encontram na arte de bordar um caminho para a autonomia

Habilidosas e sutis, mãos usam agulhas e linhas para dar vida a diferentes imagens e sentido às palavras, que enfeitam e colorem, por meio das colchas, toalhas, roupas e quadros, o nosso cotidiano. À essa arte milenar se dá o nome de bordado.

Ao longo dos anos, a técnica foi ganhando o mundo, com artesãos e admiradores espalhados pela China, Índia, África e América do Sul. Com os tempos modernos e o avanço da tecnologia, as mãos foram dando lugar às máquinas e o bordado ficou restrito às memórias e fazeres das mulheres mais velhas da família.

No entanto, a coordenadora do Meninas do Cafezal, um grupo de bordadeiras de Minas Gerais, Cassia Duarte, diz que é possível identificar um movimento de resgate dessa tradição milenar nos dias de hoje. “E agora com as redes sociais e com esse retorno da valorização do manual, do ecológico, dessa nova mentalidade que está vindo agora, o bordado ressurge com uma força absoluta, sem dúvida.”

Além do Meninas do Cafezal, Cássia fala de outras iniciativas que reúnem pessoas interessadas na técnica. “Tem muitos movimentos urbanos, aqui em Belo Horizonte tem um muito bacana, que chama Bordando no Banquinho, que aos sábados pela manhã, uma vez por mês, as mulheres se juntam no meio da rua para bordar. E tem acontecido isso nos outros centros urbanos, eu conheço de Porto Alegre e em outras cidades do país.”

Mas, para além das cores e formas que enchem os olhos de artesãos e admiradores da arte, o bordado também cumpre outros papéis. Cássia conta que no início, as mulheres procuraram o Menina do Cafezal para conseguir uma fonte de renda, e que partir daí novas possibilidades são descobertas.

"Primeiro, por que existe uma parada no tempo, o que é uma preciosidade para uma mulher de baixa renda, que cuida da casa, faz faxina fora, leva filho para escola, e de repente, ela se vê num momento único, pleno, onde ela só consegue produzir aquilo, se ela estiver quieta e parada. E aí, inicia um processo de interiorização, de reflexão, onde se o foco não estiver presente, ela não vai conseguir desenvolver o trabalho.”

O trabalho com as mãos assume a função de quase terapia, onde artesã e artesão mergulham em um autoconhecimento. “Então, é uma relação de observação de si própria e do seu entorno. Então, se o ponto está muito solto, por exemplo, ela está distraída, se o ponto está muito apertado, ela está nervosa, se a linha está embaraçando, ela está confusa, se ela não consegue por a linha na agulha, ela está apressada."

O Coletivo Linhas do Horizonte encontrou um outro papel para o bordado: fazer frente às injustiças da sociedade. Paula Oliveira é advogada e uma das bordadeiras do grupo. Ela explica que o trabalho do coletivo tem sempre uma motivação política. "O Linhas do Horizonte sempre borda para pessoas ou entidades, que se entendem sobre ataque conservador."

Em um gesto de solidariedade, o grupo presenteia, com peças bordadas, quem está sendo alvo de críticas, seja da mídia ou de outros setores da sociedade. A primeira a receber a homenagem foi a ex-primeira-dama Marisa Letícia, que ganhou uma toalha de mesa.

Toalha de mesa feita pelo Coletivo Linhas do Horizonte para a ex-primeira-dama Marisa Letícia / Ricardo Stuckert

O cantor Chico Buarque, a ex-ministra Eleonora Menicucci e a ex-presidenta Dilma Rousseff também já receberam presentes do Coletivo Linhas do Horizonte. Paula explica que, além das homenagens, o grupo também realiza ações nas ruas. "Vai ter um evento do MST ou a gente foi visitar um acampamento do MST. A gente leva uma faixa, leva o material e começa a bordar lá na hora, sempre com conteúdo político e integrando as pessoas."

Seja nas trocas entre membros de uma família ou no companheirismo dos coletivos e grupos de bordadeiras, a arte de bordar vai se desenhando, nos dias de hoje, como uma poderosa ferramenta de autonomia, autoconhecimento e de resgate do fazer feminino. 



 

Edição: Guilherme Henrique