125 anos de Bertha Lutz, cientista pioneira na luta pela educação feminina no Brasil

Imagem de perfil do Podcast
Mosaico Cultural

Ouça o áudio:

A paulista se tornou especialista em anfíbios, como sapos e pererecas / Arquivo Nacional/Fundo Correio da Manhã
Bertha nasce no berço da ciência e, ao mesmo tempo, em um berço de educação

A trajetória de vida de Bertha Maria Júlia Lutz (1894 - 1976) acompanha a história das conquistas femininas. Bióloga e uma das primeiras organizadoras do movimento feminista no Brasil, sua vida se divide entre dois grandes interesses: o feminismo e a ciência. Em agosto de 2019, são celebrados 125 anos de seu nascimento.

Em conversa com o Brasil de Fato, ao lembrar de seu legado para as atuais gerações, Magali Romero Sá, vice-diretora de Pesquisa e Educação da Casa de Oswaldo Cruz (COC/Fiocruz), local onde Lutz trabalhou no passado, destaca a influência da cientista na conquista dos direitos femininos.

“Hoje em dia acho que está muito melhor. Nós conquistamos direitos, temos grandes mulheres cientistas e estamos conseguindo o respeito merecido pelas mulheres, o que foi uma luta grande do movimento feminista e das pioneiras que trabalharam na ciência por muitos anos”, afirma.

Se hoje o caminho da ciência para as mulheres está pavimentado, houve uma época na qual a realidade era bem diferente. A primeira metade do século 20, quando Bertha Lutz desenvolveu mais ativamente seus estudos e militância, é exemplo disso. Naquela época, as mulheres ainda não tinham direito ao voto, ao divórcio e nem à educação nos colégios.

Ainda jovem, Bertha deixa a São Paulo das grandes plantações de café e parte para a capital francesa, Paris. Lá, desenvolve seus estudos na Universidade Sorbonne e se forma em Ciências Naturais.

Autora de uma biografia sobre Bertha Lutz, a doutora em educação pela Pontifícia Universidade Católica (PUC) Yolanda Lôbo explica que os anos na Europa permitiram à brasileira ter contato com a organização de mulheres que crescia no continente, na chamada Primeira Onda Feminista.

“Quando ela volta ao Brasil, diplomada pela Sorbonne, vai abrir caminhos", conta. "O primeiro é exatamente no âmbito das ciências. Ela concorre a um cargo no Museu Nacional e não aceitam sua inscrição por ser mulher. Bertha então faz um apelo à Justiça e leva, para fundamentar seu pedido, um parecer feito por Rui Barbosa. Ela é aceita para fazer o concurso e aprovada em primeiro lugar.”

Além das conquistas individuais, que marcam sua biografia como uma cientista de renome, Bertha Lutz trabalha para que as brasileiras tenham conquistas coletivas. Segundo ela, era preciso que as mulheres se organizassem.

Por conta disso, uma vez de volta à terra natal, a cientista trabalhará para a construção da Liga para a Emancipação Intelectual da Mulher e, depois, para a Federação Brasileira pelo Progresso Feminino. As organizações deram base para a construção do movimento sufragista que lutava pelo direito ao voto feminino no país, um direito que seria finalmente conquistado em 1932, no governo de Getúlio Vargas (1930 - 1945).

A cientista também atuará em conquistas às vezes esquecidas pelos livros de histórias, mas marcantes para a conquista do direito das mulheres à educação de qualidade. Uma delas foi a possibilidade do ingresso de mulheres no Colégio Pedro II, onde até então apenas homens podiam estudar.

O incentivo à educação

A grande luta de Bertha Lutz pelo direito à educação e a paixão pela ciência têm raízes mais profundas em sua própria história. Ambas as pesquisadoras ouvidas pela reportagem afirmam que entender a história de Lutz exige voltar à trajetória de sua família.

Em relação à ciência, o grande incentivador de Bertha foi o pai, Adolfo Lutz, cientista importante e de renome internacional, como lembra Magali Romero Sá. "Quando ele foi perdendo a visão aos poucos, e não podia mais trabalhar com os insetos pequenos que gostava com o uso do microscópio, começou a se interessar por animais maiores e a trabalhar com Anfíbios, como sapos e pererecas. O pai falece, mas Berta continua trabalhando com esse grupo e se torna uma grande especialista na área”, explica.

Coube à mãe, a enfermeira inglesa Amy Fowler, trazer o interesse pelas questões sociais. “Bertha nasce no berço da ciência mas, ao mesmo tempo, em um berço de educação e de mulheres que se dedicam à educação, e não só feminina. A mãe, por exemplo, atua em áreas sociais”, descreve Yolanda Lôbo.

Desafios às próximas gerações

Mesmo com as barreiras que consegue derrubar, Lutz reconheceu também os limites do próprio trabalho e os desafios que deixava para as próximas gerações de mulheres. Apesar de desenvolver pesquisas e estar atenta à realidade das operárias, por exemplo, seu feminismo conseguiu apoio majoritário de mulheres das classes sociais mais elevadas, em geral esposas de homens com altos cargos na sociedade.

“Na quebra de barreiras, aquelas mulheres que tinham e poderiam ter acesso à educação, à participação, associação e a condições melhores de vida, conseguiram. Mas outras não. E Bertha, atenta a isso, queria estudar se ela não teria que analisar a questão da mulher agora pelo viés da etnia”, explica Lôbo.

A cientista faleceu aos 82 anos, em 16 de setembro de 1976, no asilo da Estrada Velha da Tijuca, na cidade do Rio de Janeiro.

Edição: Michele Carvalho