Privatizações

OPINIÃO: Privatizar nunca será a solução do sistema carcerário

Se o Estado segrega e condena, é dele a responsabilidade pela gestão, por garantir os direitos e deveres do preso

Rio de Janeiro

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Governo não pode entregar a quarta maior população carcerária do mundo à iniciativa privada / Divulgação

O programa de governo de Michel Temer prevê a privatização de ‘tudo o que for possível’. Considerando seus aliados e o fato de que há mais de 600 mil presos em todo o país e um cenário de caos nas penitenciárias, não vai demorar muito para privatizar o sistema carcerário.

Ainda mais que esse é um processo que já está em curso. O Complexo Prisional Público-Privado de Minas Gerais firmou contrato de 27 anos com um consórcio que cobra ao mês, por preso, mais do que o Estado gastava. 

O alto custo social e financeiro do encarceramento continua suportado pelo governo, que repassa as verbas ao setor privado. Quanto mais severas as leis, maior o número de presos e mais lucrativo será o negócio. Sendo esses presos condenados ou provisórios, culpados ou inocentes, o tempo deles atrás das grades renderá um bom dinheiro.

Portanto, não tardarão lobbies junto aos órgãos de segurança, no Congresso ou nos tribunais, pleiteando mais flagrantes, aumento de penas e condenações. Na lógica do lucro, cela vazia é prejuízo, como um hotel sem hóspede. “Cria-se a vaga, cria-se o preso”, argumenta o jurista italiano Alessandro Baratta. Um incentivo à prisão.

 

Como qualquer empresa, penitenciárias cedidas ao setor privado mundo afora também cortam pessoal, salários e diminuem a quantidade/qualidade dos serviços. Quem garante que o administrador privado, diante de irregularidades, denunciará seus subordinados? A possibilidade de a corrupção se alastrar é concreta. 

 

Se o Estado segrega e condena, é dele a responsabilidade pela gestão, por garantir os direitos e deveres do preso. 

Entregar a 4ª maior população carcerária do mundo à iniciativa privada é delegar as culpas dos problemas causados pelos três poderes do Estado. 

O que vemos na atualidade é prisões provisórias em excesso, pena demais e demora nos benefícios.

Há um enorme volume de leis com alto poder punitivo. Faltam medidas de apoio às pessoas que saem da prisão. Nada que a privatização possa resolver. Um tiro dado na água.

 

Maíra Fernandes é advogada e membro da Comissão de Segurança Pública da OAB.