Coluna

Cada vez pior

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19 de Agosto de 2016 às 15:42
“Governo” de Temer não é feito de homens honrados

A presidenta Dilma Rousseff decidiu comparecer ao Senado para fazer a própria defesa, de viva voz e olho no olho, num cenário inóspito que se prepara de forma assumida para o ataque. Mesmo sem autorizar o julgamento ilegítimo em sua origem, ela autentica a democracia com seu gesto. O traidor Michel Temer decidiu não comparecer à solenidade de encerramento das Olimpíadas, com medo de que as vaias registradas na abertura, mesmo com toda estratégia de acobertamento, se repitam. Há um paralelismo entre as duas atitudes que responde pelo conceito de honra.

O confronto com o outro, a coragem em defender princípios, a aceitação das regras democráticas e o valor dado à alteridade são marcas de honorabilidade, ainda que não garantam em si a verdade. Numa sociedade fundada no respeito, não é preciso estar sempre certo, mas é fundamental ser digno o tempo todo. Temer, nesse sentido, não é um homem honrado. Nem seus ministros.

O ministro da Justiça do governo golpista, Alexandre de Moraes, criticou as políticas de segurança baseadas em inteligência, diagnóstico e estudos, propondo que as rubricas do orçamento do setor fossem alteradas para priorizar a compra de equipamentos bélicos. A escolha da palavra é dele: bélico. Alçado ao cargo por sua atitude de beligerância com estudantes e movimentos populares, Moraes defende uma política de confronto e de contraposição de forças.

Em sua gramática social, o mundo é composto de bandidos e mocinhos. Estudantes, por exemplo, quando ocupam escolas em luta por melhores condições de ensino, são bandidos. Carregadores de patos da Fiesp e outros bonecos infláveis são mocinhos. Para ele, vence a batalha da segurança quem tiver mais e melhores armas. A ideia de compreensão das causas da violência, de ações voltadas para a diminuição de riscos e mesmo de investimento social a longo prazo – sobretudo a impertinente educação –  não fazem parte do repertório do brucutu. Ao que tudo indica, Alexandre não é um homem inteligente.

Chanceler da usurpação, José Serra vem operando em poucos meses para destruir um conceito que foi construído em décadas pelo Itamaraty. A diplomacia brasileira, reconhecida em todo o mundo por seu equilíbrio e confiabilidade em momentos de crise – em razão de princípios de não intervenção e preparação intelectual e política de seus quadros –, se tornou um instrumento ideológico atravessado de equívocos. Curiosamente, quem sempre advogou autonomia para o Banco Central, exige agora alinhamento ideológico de sua diplomacia. É um atestado do que de fato interessa na ordem das coisas.

Serra se insurgiu contra acordos multilaterais consolidados que arejaram o mundo da política e do comércio internacional e passou a propor um comportamento amesquinhado que fragiliza o país em favor dos EUA. Ofendeu nações africanas e da vizinhança sul-americana e, para confirmar seu vira-latismo, advogou interesses de empresas estrangeiras sobre riquezas nacionais. Por fim, foi acusado pelo chanceler (de verdade) uruguaio Rodolfo Novoa de chantagem comercial para impedir a Venezuela de assumir a presidência temporária do Mercosul. Comportamento que desrespeita toda a região e que foi recebido com incômodo pelo presidente Tabaré Vázquez. Num campo estabelecido por acordos geopolíticos de alto nível, o tucano não propôs diálogo, ofereceu plata. Serra, fica cada vez mais claro, é um homem venal.

Um “governo” sem honra, sem inteligência e sem grandeza. E é só o cardápio da semana.