Consciência Negra

20 de novembro - Mãe preta entra para estatística

Dona Maria das Dores não entende por que, no ano de 2014, 70,6% das 59.627 vítimas de homicídios no Brasil eram negras

Curitiba (PR)

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Programação da Semana da Consciência Negra / Divulgação

Maria das Dores Chagas dos Silvas, mãe de pelezinho, que foi morto hoje pela manhã na rua principal da favela, não sabe explicar o porquê da violência no mundo. Ela não sabe explicar por que a taxa de homicídios por arma de fogo no Brasil é de 20,7 por cada 100 mil habitantes. Ela nunca debateu sobre o Brasil ocupar a 10ª posição entre os 100 países mais violentos do planeta.

Maria das Dores Chagas dos Silvas não entende por que no ano de 2014, no Brasil, 59.627 morreram vítimas de homicídios, e  por que 70,6% das vítimas eram negras.

A mãe de pelezinho não tem a menor ideia dos motivos que geraram, entre os anos de 1980 até 2014, 967.851 vítimas de disparo de arma de fogo no Brasil. Ela nem sabe, mas desse total 830.420 (85,8%) foram homicídios, e entre 1980 e 2003, o crescimento dos homicídios por armas de fogo foi de 8,1% ao ano.

Ela não entende o porquê das mulheres morrem vítimas dos homens que lhe juraram amor eterno. Para Maria, quando ainda era criança, o amor tinha outro significado. Ela não compreende os motivos que levam um homem a agredir a amada, ela nunca entendeu o que queria dizer a mulher no rádio quando disse “vivemos numa sociedade patriarcal”.

Dona Maria das Dores Chagas dos Silvas, mulher, mãe, analfabeta, operária, pobre e negra, nessa manhã, aprendeu que os números das estatísticas doem na alma quando o numero que se somará a outros 59.627, nasceu de seu ventre, bebeu de sua vida e cresceu sob seu teto.

Dona Maria das Dores Chagas dos Silvas, mãe de pelezinho que morreu hoje pela manhã na rua principal da favela, mesmo sem querer passa a fazer parte das estatísticas.