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Jovina Rehn Ga: mulher, kaingang, lutadora do Paraná

Liderança indígena projeta um futuro de reconquistas de território no estado

Brasil de Fato | Curitiba (PR),
Aos 49, ela garante que tem muitas missões a cumprir / Daniel Giovanaz

É difícil acreditar que, até os quinze, Jovina Rehn Ga só falou o idioma kaingang. Prestes a completar 50 anos, ela é uma mulher articulada, cheia de planos e histórias para contar – em bom português.

Natural do Sudoeste, a indígena chegou a Curitiba há duas décadas. Viveu debaixo de viadutos, em acampamentos precários, em barracos de lona. Desenvolveu sua liderança em meio à luta por moradia. Logo ela, que traz nas veias o sangue daqueles que habitavam essas terras muito antes do “descobrimento”.


Machismo não é coisa só de homem branco


Em 2009, Jovina participou da fundação da primeira aldeia indígena urbana do Paraná. A comunidade Kakané-Porã, na região Sul de Curitiba, abrigou 35 famílias que vendiam artesanato na capital. Para se tornar vice-cacique da aldeia, precisou vencer o preconceito. “Machismo não é coisa só de homem branco”, lamenta. Apesar das dificuldades, tornou-se vice-presidente do Conselho Nacional de Mulheres Indígenas e passou a integrar o Conselho Nacional de Segurança Alimentar.

Voluntária por um ano e meio na Casa de Passagem Indígena – inaugurada em 2015 para receber famílias que vêm a Curitiba e não têm onde morar –, Jovina mudou-se no fim do ano passado para o Norte do Paraná. Hoje, se dedica à preservação de sementes crioulas e a um trabalho de resgate da cultura dos Guarani e dos Kaingang.

“Quando terminar a missão lá, venho ajudar na disputa das terras aqui no litoral”, afirma, em referência aos conflitos na região de Guaraqueçaba. Mãe de três filhos, ela sabe que a luta não para: após 500 anos de saqueio e exploração, há muito o que reconquistar.

 

Edição: Ednubia Ghisi