Especial Lava Jato

Um peso, duas medidas: as denúncias de caixa 2 contra Lula e FHC

Rígido contra o petista, MP minimiza citações ao tucano em delação da Odebrecht

Brasil de Fato | Curitiba (PR)

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Emílio Odebrecht (dir.) depõe ao Ministério Público sobre suas relações com ex-presidentes da República / Divulgação

Em depoimento ao Ministério Público (MP), o empresário Emílio Odebrecht informou que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB) recebeu vantagens indevidas durante as campanhas de 1994 e 1998, quando foi eleito. O depoimento disponível em vídeo demonstra que os funcionários do MP minimizaram essa informação e consideraram que o anexo de delação não tinha relevância para a operação Lava Jato.

Na mesma ocasião, o patriarca do grupo Odebrecht afirmou que mantinha uma relação de confiança com FHC a tal ponto que a empresa passou a sugerir a redação de projetos de lei e a proposição de marcos regulatórios durante os mandatos do tucano como presidente (1994-2002) e senador (1983-1992).

Confira na transcrição do depoimento:

EMÍLIO ODEBRECHT – Ajuda de campanha, eu sempre dei a todos eles. E a ele [FHC] também dei. E, com certeza, teve ajuda de caixa oficial e não oficial [caixa 2]. (…) Ele indicava quem era [que iria negociar dos pagamentos] – na época, era o Pedro Novis [ex-presidente da empreiteira] – e eu falava com o Pedro Novis. (…) Eu não tenho dúvida de que houve alguma coisa de caixa 2 e de caixa oficial. (…) Eu dava e dizia que era para atender mesmo. (…)

MINISTÉRIO PÚBLICO* – Só para esclarecer uma coisa aqui, doutor Emílio. (…) A gente considera doação eleitoral aquela que é registrada no Tribunal Regional Eleitoral (TRE), no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), e é devidamente contabilizada. Essa é uma doação de campanha. O dinheiro pago por fora, em espécie, com o eufemismo “caixa 2”, se a pessoa é um servidor público, isso é corrupção. (…) Agora, nesse caso, se o senhor não tratou com ele [FHC], diretamente, o pagamento de valores ilícitos, que seria esse caixa 2, me parece que esse anexo não tem relevância para o nosso caso aqui. (…) A nossa relevância aqui é ilicitude, é fato ilícito – quando tem uma pessoa que sabe, ou pediu, ou solicitou ou recebeu dinheiro ilícito, pago por fora. (…)

M.P. – O senhor identifica as pessoas que pediram diretamente por ele?

E.O. – Ele me pediu! Todos, ele. Ele pediu: “Emílio, você pode me ajudar no programa da campanha?”. (…)

M.P. – Isso em 94?

E.O. – 93. Porque em 94 foi quando ele tomou posse.

M.P. – Presidencial?

E.O. – Presidencial. E também quando ele foi senador. Sem dúvida, eu ajudei a ele quando foi senador. Mas a mesma coisa. Vocês conhecem a figura [risos]? Ele jamais iria falar comigo alguma coisa de valores…

M.P. – Mas ele indicou alguém?

E.O. – Ah, indicou. (…)

M.P. – Na reeleição [1998] também?

E.O. – Também. A mesma coisa. (…)

Tratamento desigual

 

Em vídeo publicado nas redes sociais, o ex-presidente tucano disse que as citações a ele são “inespecíficas” e “vagas”, e defendeu o avanço das investigações da Lava Jato.

As denúncias de caixa 2 que recaem sobre Lula, no âmbito da operação Lava Jato, pouco diferem do que foi apontado por Odebrecht sobre a relação com FHC. “O pedido de ajuda era feito por ele [Lula], (…) mas combinávamos de designar um representante de cada lado para negociar os valores”, escreveu o patriarca da empresa em anexo aceito pelo MP contra o petista.

Quando o depoimento de Emílio tratou das doações de campanha ao PT, porém, os funcionários do MP assumem uma postura mais rigorosa: “Essa história de doação de campanha é uma desculpa para pedir propina. (…) Qualquer servidor público que receba um real fora da lei é crime de corrupção!”, disse o procurador Sergio Bruno Cabral Fernandes, estimulando o patriarca da empreiteira a assumir que houve ilicitude nas operações financeiras junto a Antônio Palocci, ex-ministro do PT.

Emílio Odebrecht declarou que mantém relações com Fernando Henrique Cardoso desde a década de 1970 e admitiu que o esquema de caixa 2 está “institucionalizado” no Brasil há mais de 30 anos.

*Funcionários do Ministério Público não identificados no vídeo

Edição: Ednubia Ghisi