Saúde

Secretaria de Saúde e sindicato analisam problemas nas UPAs de Curitiba

Defasagem no quadro de pessoal e falta de itens básicos têm agravado problemas na relação entre profissionais e usuários

Brasil de Fato | Curitiba (PR)

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Secretário municipal alega que a saúde pública de Curitiba tem dívida milionária com empresas que fornecem materiais para as UPAs / Andressa Katriny/CMC

Falta de materiais de uso diário, equipes sobrecarregadas, ambiente hostil. A reportagem do Brasil de Fato Paraná conversou com usuários e profissionais de saúde das Unidades Pronto Atendimento (UPAs) de Curitiba e listou uma série de problemas no atendimento aos pacientes. A maior parte dessas situações foi descrita também em entrevista com a coordenadora geral do Sindicato dos Servidores Públicos Municipais (Sismuc), Irene Rodrigues.

Para apresentar as perspectivas da Prefeitura para solução desses problemas, dividimos as respostas do Secretário Municipal de Saúde, João Carlos Gonçalves Baracho, em três temas, a partir dos problemas identificados por usuários, profissionais e pela coordenadora do Sismuc. Confira:

FALTA DE ITENS BÁSICOS

Irene Rodrigues: "Estamos trabalhando com materiais mínimos. O profissional chega no plantão e não sabe o que vai ter para ele trabalhar, e nem quais as condições. É muito frequente faltar luva, agulha. E é uma coisa simples, barata. Às vezes, o que tem disponível são luvas de tamanho menor ou maior, que podem rasgar no meio do procedimento ou ficarem folgadas demais, prejudicando a destreza do trabalho – no caso de uma injeção endovenosa, por exemplo. É inaceitável que nós estejamos trabalhando também com agulhas que não são adequadas para os procedimentos. Muitas vezes, elas são grandes demais e causam um sofrimento desnecessário ao usuário".

João Carlos Baracho: "São pequenos desencaixes, e tudo pode ser adaptado. Pode acontecer defasagem de um dia ou dois, mas sempre de um número de luva, não de todos. Em relação ao tamanho de luva, existe um padrão que é mais comum, e são esses que a gente não deixa faltar mesmo. Quando iniciamos a gestão, em janeiro, encontramos uma dívida de R$ 233 milhões com vários fornecedores que estão no processo de licitação. É um valor muito alto. Estamos tentando uma equação de equilíbrio junto à Secretaria de Finanças, e a aprovação passa pela Câmara Municipal. A nossa perspectiva é que a resolução desse problema aconteça a partir de maio".

DEFASAGEM NO QUADRO DE PESSOAL

Irene Rodrigues: "Quem frequenta a UPA sabe que as filas são muito longas e que o sistema funcionaria melhor com mais profissionais. Mas a gente entende que o modelo de atenção da UPA precisa ser todo repensado, replanejado. Hoje, o usuário chega na unidade e, muitas vezes, não tem ninguém na recepção, porque o profissional está atendendo: dá impressão de que a unidade está abandonada. Sem falar que o problema do excesso de demanda se relaciona com o da falta de materiais também".

João Carlos Baracho: "Temos um quadro com uma média de sete a oito médicos por turno, de manhã até a meia-noite. Na madrugada, o número de médicos cai para quatro, cinco. Isso dá um total de 38 mil horas médicas em todas as UPAs. Em relação aos enfermeiros, a média é de 17 por UPA. Esse número tem dado conta de atender, no dia a dia, aquilo que é o importante. Percebemos que 70% da população que está nas UPAs não é de urgência e emergência, e por isso, a fila de espera supera uma hora, chegando a duas, três horas de fila".

RELAÇÃO PROFISSIONAL x USUÁRIO

Irene Rodrigues: "Nossos profissionais sofrem ameaças constantes, e eu não posso deixar de entender o lado dos usuários. A intensidade da dor, da revolta, é medida individualmente. Eu não posso exigir que o usuário entenda que o filho dele ficou com um hematoma não por culpa do profissional de saúde, mas por causa do prefeito. Ele não vai ter essa compreensão. A gente tem orientado os servidores a fazer registro diário das condições de trabalho, porque muitas vezes ele responde administrativamente por algo que ele não tem culpa nenhuma. A situação está muito difícil".

João Carlos Baracho: "As filas muitas vezes são longas, e ninguém gosta de esperar. Mas, para viabilizar os encaminhamentos, precisamos de mais leitos de retaguarda, e estamos terminando o processo de contratualização com hospitais de Curitiba e da região metropolitana. A ideia é que a UPA não seja um mini-hospital, um pronto-socorro, ou um local onde as pessoas fiquem internadas. É uma unidade de estabilização de quadros agudos, e o encaminhamento deve ocorrer já no primeiro dia, para evitar maiores problemas".

Edição: Ednubia Ghisi