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Editorial | Às ruas por Diretas Já

Por que a grande mídia e o judiciário condenam agora a casta política que eles mesmos haviam colocado no governo?

Brasil de Fato | Recife (PE)

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A queda do governo ilegítimo só será uma vitória se representar a possibilidade de o povo brasileiro tomar em suas mãos o destino do País / Paulo Pinto/AGTP

Um sujeito que cochilasse na última quarta-feira (17) por volta das 18h certamente acordaria confuso com as reviravoltas da crise política brasileira. A denúncia do Jornal O Globo, envolvendo gravações e filmagens que comprometem Aécio Neves (PSDB) e o próprio presidente ilegítimo Michel Temer (PMDB), com pagamento de propinas, correu as redes sociais e foi replicada no Jornal Nacional. Quase imediatamente a base aliada do governo pediu a renúncia do presidente, em coro com os grandes meios de comunicação.

Por que a grande mídia e o Judiciário condenam agora a casta política que eles mesmos colocaram no governo? Por que as forças golpistas mudaram de rumo?

O golpe dado há um ano teve dois objetivos contraditórios entre si: retomar o conjunto das medidas neoliberais de desmonte dos direitos e do Estado e, não menos importante, varrer do horizonte a possibilidade de novos governos progressistas no país. Em outras palavras: destruir as condições de vida do povo e impedir que um projeto de esquerda cresça no imaginário popular.

Redução dos gastos em políticas sociais, congelamento do orçamento por 20 anos, terceirizações, entrega do pré-sal e fim da aposentadoria num país que soma 14 milhões de desempregados. Quanto mais se avolumam as medidas antipopulares, mais os setores que apoiaram, nas ruas, a queda da presidenta Dilma mudam de posição, mais a popularidade do governo despenca. Com a ameaça do fim da aposentadoria, um setor ausente da disputa política passava a entrar em cena: a jovem classe trabalhadora foi às ruas e, mais do que isso, paralisou o país e o lucro dos patrões na Greve Geral do dia 28 de abril.

De outro lado, o dia 10 de maio, data do depoimento de Lula e que os golpistas apostavam suas fichas para a condenação pública do ex-presidente, teve efeito oposto: trouxe à tona as contradições do Judiciário e ampliou a popularidade de Lula, até agora totalmente livre de qualquer prova que o incrimine e continua o candidato favorito nas pesquisas.

O golpe precisava mudar de rota, entregar os anéis para salvar os dedos, romper de vez o pacto democrático. Com a queda de Michel Temer teriam de assumir o governo o presidente da Câmara ou o do Senado, mas ambos estão comprometidos na operação Lava Jato. Resta, na linha sucessória, a presidenta do Supremo Tribunal Federal (STF), Cármen Lúcia, que assumiria com a tarefa de convocar eleições indiretas em três meses. Isso mesmo: o Judiciário assumiria o governo para que o Congresso corrupto escolha, no lugar do povo, o novo presidente da República. Eis o objetivo da Globo nas denúncias da última quarta-feira.

A queda do governo ilegítimo só será uma vitória se representar a possibilidade de o povo brasileiro tomar em suas mãos o destino do país, escolhendo quem deve guiá-lo. Daí a importância dos atos convocados em todo o Brasil pela Frente Brasil Popular e a Frente Povo Sem Medo. O golpe cairá pelas mãos do povo. Queremos que parem as reformas neoliberais e queremos escolher os rumos do país. Queremos eleições diretas e queremos agora! Mais do que nunca, a democracia será conquistada nas ruas.

Edição: Redação