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Artigo | Em cima do medo, coragem

Há 19 anos o Guerreiro da Paz foi assassinado e ainda hoje tudo o que ele dizia é atual

Brasil de Fato | Recife PE

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Guilherme Araújo, ou Guila, é jovem indígena Xukuru do Ororubá. Integra a Poya Limolaygo, articulação de juventude do seu povo, e a COJIPE / Arquivo pessoal

“Vocês tenham consciência de que eu sou ameaçado. Estão querendo fazer comigo o mesmo que fizeram com Antônio Conselheiro, o mesmo que fizeram com Che Guevara e com outras lideranças. Mas se esse for meu destino, se fui indicado pela natureza, não vou recuar!”

Pouco tempo após fazer esse pronunciamento, o Guerreiro da Paz Xikão Xukuru foi assassinado, pois “acreditavam interromper com a morte seus sonhos”. E para mostrar que essa luta não para, o povo Xukuru realiza anualmente, de 17 a 20 de maio, sua assembleia, reafirmando o compromisso na defesa da Serra do Ororubá.

Entendemos, como traz a carta da assembleia, que vivenciamos um grande ataque aos direitos sociais, políticos, culturais e econômicos dos povos indígenas, populações tradicionais e vários setores da sociedade brasileira. Essa ofensiva tem como objetivo aumentar a concentração de riqueza, provocando um maior empobrecimento das classes sociais oprimidas. São ameaças às demarcações de terra, é a retirada de direitos trabalhistas, atacando a Previdência Social e retirando benefícios das pessoas que mais necessitam. São ameaças promovidas no Congresso Nacional a mando dos latifundiários e dos grandes empresários, cada vez mais ricos, em conluio com a grande mídia empresarial. Por isso o tema da assembleia deste ano foi “Limolaygo Toype (Terra dos Ancestrais, em nossa língua materna): Nenhum Direito a Menos, a nossa luta não para!”.

Cerca de 1500 pessoas participaram durante os três dias de encontro e cerca de seis mil participaram da caminhada e do ato público no dia 20. Um ato para reafirmar o compromisso com a luta e para reunir as forças dos movimentos contra mais esses golpes.

Há 19 anos o Guerreiro da Paz foi assassinado e ainda hoje tudo o que ele dizia é atual, pois ainda é recorrente a violência contra os indígenas, vide os casos recentes do povo Guarani Kaiowá e do povo Gamela. Os ataques refletem a realidade de como são tratados os povos indígenas pelo Estado Brasileiro, que inclusive é réu na Corte Interamericana de Direitos Humanos em ação movida pelo nosso povo. É por isso que Mandaru está plantado, assim como queria, às sombras da Mãe Natureza, para que nasçam novos guerreiros. Hoje ele caminha livre na Serra do Ororubá em sua filosofia, sua religião, seu modo de vida, sua luta e tudo aquilo que pregou. Xikão vive!

“Em cima do medo, coragem!”

“E diga ao povo que avance!”

*Guilherme Araújo, ou Guila, é jovem indígena Xukuru do Ororubá. Integra a Poya Limolaygo, articulação de juventude do seu povo, e a Comissão de Juventude Indígena de Pernambuco (COJIPE).

 

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Edição: Brasil de Fato Pernambuco