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A trilha sonora de um amor de quase 50 anos

Maria Inês e Djalma são fiéis ao Coro da UFPR desde 1983, quando começaram a participar dos ensaios

Brasil de Fato | Curitiba (PR)

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Casal soma 47 anos de casado e 34 como integrantes do Coro da UFPR / Carolina Goetten

47 anos de casados, 34 deles como integrantes do Coro da Universidade Federal do Paraná (UFPR) – esses são os números que somam a cumplicidade do casal Maria Inês Hamann Peixoto, 70 anos, e Djalma Ghisi Peixoto, 77. A música é uma afinidade em comum: enquanto ela cantava na rádio desde os cinco anos de idade, ele desenvolveu a vocação por meio da cultura italiana. “Eu gostava de composições populares e caipiras. Quando ouvi música clássica pela primeira vez, achei aquilo tudo uma gritaria. Depois, entrei para o coro e paguei a língua com tanta ópera que cantei”, recorda Djalma.

Maria Inês tem artrite reumatoide e chega ao prédio histórico da UFPR, todas as segundas e quartas-feiras, apoiada em uma muleta e no braço do companheiro. Os únicos períodos em que não pôde frequentar os ensaios foi durante o Doutorado, cumprido em Campinas, e quando, após uma cirurgia, ficou acamada durante seis meses. “Mas retornei aos ensaios assim que pude”, emenda Maria Inês, que é professora aposentada do Setor de Educação da UFPR.

Eles cobram a atenção dos reitores da instituição para as apresentações do Coro, fundado em 1958 e aberto à participação de toda a comunidade. No passado, um deles chegou a reclamar do dinheiro investido numa época em que, logo após espetáculos importantes ou viagens do grupo, os ensaios se esvaziavam. “Esse reitor chegou a dizer que não valia a pena manter um coro com meia dúzia de 'cantores de porta de igreja'”, recorda Djalma, que parece conservar uma memória inconfundível. É ele quem controla a lista de frequência aos ensaios; atrás do piano, confere pelo olhar um a um dos quase cem cantores e preenche uma planilha. E faz tudo isso sem deixar de acrescentar sua voz ao conjunto de timbres e tons que se misturam pela sala, com a experiência de quem lê partitura mesmo numa composição complexa como o Requiem, de Mozart, que o grupo ensaiava naquela noite.

Coleção de memórias

O Coro interpreta peças e composições em diversos idiomas e Djalma já chegou a apresentar-se como solista numa versão japonesa de Primeiro Amor. Um espectador com traços asiáticos, presente no espetáculo, chegou a se emocionar com a performance, que comemorava os cem anos da imigração japonesa no Brasil. “Quando olhei na direção da plateia, percebi que ele tinha lágrimas nos olhos. Só depois fui descobrir que ele era o cônsul do Japão”, lembra Djalma, que também já emocionou muitos colegas durante os ensaios com seus solos de barítono.

A esposa comenta que o Coro da UFPR põe em prática experiências diferentes das tradicionais. Os cantores transitam entre a plateia, em vez de se apresentarem parados e em forma sobre o palco, como é comum na maioria dos corais em todo o mundo. “Também a técnica de ressonância com o corpo inteiro resulta numa experiência única de canto”, enfatiza a professora. Essa técnica, segundo Maria Inês, consiste em imaginar a voz saindo de diversas partes do corpo em vez de projetá-la apenas a partir da cabeça. “É uma experiência completamente subjetiva: ao cantar, mentaliza-se que a voz sai do pé, ou do braço, ou da mão, ou a 60 centímetros acima da cabeça, por exemplo. Essa técnica faz o canto soar de forma única”, define.

A paixão pelo Coro levou Maria Inês a iniciar a escrita de um livro sobre a história do grupo. Ela relata, porém, que existe um vácuo de informações, entre 1968 e 1982. “A sorte é que, desde 83, quando entramos para o Coro, temos os registros guardados pelo Djalma. Ele gosta de colecionar e juntou programas, cartazes, fotos e filmes”, diz a professora. Em breve, o livro enriquecerá o acervo literário paranaense com mais um registro histórico cheio de coração e de musicalidade. 

Edição: BdF PR