Trajetória

Perfil | Regina Cruz, sindicalista e mulher vigilante

Presidenta da CUT-PR conta sua história como sindicalista e na organização das mulheres trabalhadoras

Brasil de Fato | Curitiba (PR)

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Ainda faltam mulheres na política: temos 12% de representação na câmara e 14% no senado / Roberto Parizotti

A trajetória militante de Regina Cruz, presidenta da Central Única dos Trabalhadores do Paraná (CUT), teve início numa pequena propriedade rural em Rio Negrinho (SC). A curitibana mudou-se para o município catarinense junto à família da mãe aos três anos de idade, após um acidente que levou a vida de seus pais. Ali, desenvolveu um hobby que seria decisivo em seu futuro: a prática de tiro seta.

“Quando criança, aprendi a atirar com meu avô, no meio do mato, e venci três vezes o campeonato em Rio Negrinho”, conta a presidente. Anos depois, o talento na pontaria – o tiro seta exige uma mira muito mais precisa do que o disparo de um revólver – garantiu-lhe um emprego como vigilante numa agência bancária do município.

Foi também em Rio Negrinho que a sindicalista comprou briga com os latifundiários da região, por discordar da exploração irresponsável do solo e da natureza na plantação de pinus.

Optou por retornar a Curitiba, onde o salário para o cargo de vigilante era duas vezes maior em relação às cidades do interior. Na capital do Paraná, trabalhou em um comitê eleitoral, quando se aproximou das lutas políticas. Naquele mesmo ano, em 2004, passou de sindicalizada a sindicalista: assumiu um cargo dirigente em meio a uma categoria composta por 97% de trabalhadores homens no Sindicato dos Vigilantes de Curitiba e Região.

“Foi aí que passei a abraçar a luta feminista e fortalecer a organização das colegas vigilantes”, conta a presidenta, que tem por prioridade organizar as mulheres trabalhadoras pela conquista de direitos.

As desigualdades salariais e nas condições de trabalho entre eles e elas foram os motivos que conduziram Regina Cruz à atuação sindical. “Em muitos sindicatos, embora a base seja majoritariamente feminina, a direção ainda é composta por mais homens do que mulheres”, relata.

Neste momento político, a principal luta é para barrar a reforma trabalhista, que abre espaço para a ampla terceirização. “As trabalhadoras ainda são as mais afetadas pela subcontratação, devido às desigualdades no mercado de trabalho – sobretudo as mulheres negras”, situa.

Na CUT-PR, o avanço da luta feminista foi a ampliação da paridade de representação feminina na direção de 30%, na penúltima gestão, para 50%, na última. Regina Cruz, que preside a Central há duas gestões, diz que o trabalho de hoje é completamente diferente:

“Senti muitas mudanças de um mandato para outro – nas conversas, nas responsabilidades com a pauta, no empoderamento. Há muito companheirismo entre nós”, ressalta a dirigente. “Mas ainda faltam mulheres na política: temos 12% de representação na câmara e 14% no senado. Queremos ampliar para 50%, e é na base, junto às mulheres trabalhadoras, que essa mudança começa”. O desafio continua.

Edição: Ednubia Ghisi