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O que tu indica? | Criolo, um cantor popular

Atento às questões de seu tempo, Criolo é parte e expressão de um jeito de fazer música que fala das coisas da vida

Brasil de Fato | Recife (PE)

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Criolo é do rap, do samba, da quebrada que não tem fronteira / Caroline Bittencourt/Divulgação

“Como você dorme com isso? Como você dorme tranquilo?”, pergunta um rapper brasileiro, poeta da comunidade do Grajaú, distrito localizado na Zona Sul de São Paulo. Atento às questões de seu tempo, Criolo é parte e expressão de um jeito de fazer música que fala das coisas da vida, por mais duras que estas sejam. Sua música é um verdadeiro desabafo. A periferia, o sol de meio dia, o frenético ritmo dos grandes centros urbanos, o medíocre poder do dinheiro, o saber empírico dos maloqueiros, a pobreza que assola uma gente inteira. Farinha e cachaça. Pão e circo. Jardim e flor. Solidão e companhia. O transcendental. Liberdade e celebração, em terra e nas águas do mar – “pra se benzer, pra se banhar”. Tudo isto possui espaço destacado na produção do compositor-poeta. Criolo canta, antes de tudo, a realidade de um povo. É certeiro, inquieto, místico, crítico de um mundo exaustivo.

Filho da classe trabalhadora – pai metalúrgico e mãe educadora, ambos cearenses –, Criolo é do rap, do samba, da quebrada que não tem fronteira. Durante a vida, já vendeu cocadas feitas por suas próprias mãos, foi professor de escola da rede pública, trabalhou com crianças em situação de rua. No caso de Criolo, a música e a sua condição de classe se encontram em sintonia fina e ininterrupta, expressas na rica e elaborada combinação entre rap, afrobeat, samba e baião.

Embora este artista difunda a cultura do rap nacional desde os anos 1980, tornou-se mais conhecido somente nos 2000, num “percurso que não foi nada de repente, mas cheio de correrias”, como ele mesmo admite. Após Ainda Há Tempo (2006), Nó na Orelha (2011) e Convoque Seu Buda (2014), Criolo lançou em abril deste ano Espiral de Ilusão, seu quarto álbum de estúdio, gratuitamente disponível na internet. Trata-se de seu primeiro disco puro samba, mas que conserva, sem recortes, uma coerente linha de continuidade em relação aos trabalhos anteriores: composições fortes, que estimulam qualquer ouvinte minimamente atento a refletir sobre o miúdo ali cantado e palavreado. O dia do lançamento do Espiral de Ilusão foi simbólico: 28 de abril, dia da maior Greve Geral até hoje registrada na história de lutas do povo brasileiro. Criolo condensa a crítica em seu pensamento, em sua música, num linguajar entendível àquelas e àqueles que vivem no olho do furacão.

Edição: Monyse Ravena