Negra Soy

Editorial | Mudar a vida das mulheres negras para mudar o Brasil

No Brasil, Dilma Roussef transformou o dia 25 de julho no Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra

Brasil de Fato | Recife (PE)

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Mulheres negras durante ato de 8 de março em São Paulo / Elaine Campos

No dia 25 de julho é celebrado o Dia da Mulher Negra Afrolatina e Caribenha. A data fundada em 1992 após o primeiro Encontro de Mulheres Negras Latinas e Caribenhas, em Santo Domingos, na República Dominicana, ficou reconhecida nacionalmente quando, em 2014, a presidenta Dilma Rousseff transformou o dia 25 no Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra – em homenagem à líder quilombola que viveu no século 18.

Em meio a tantos silêncios que permeiam as histórias das mulheres negras, é importante trazer à superfície a história da “Rainha Tereza”, como ficou conhecida no Vale do Guaporé, no Mato Grosso. Ela liderou o Quilombo de Quariterê, local que abrigava cerca de 100 pessoas. O quilombo resistiu da década de 1730 ao final do século. Sob sua liderança foi criada uma espécie de Parlamento e um sistema de defesa. Ali, era cultivado o algodão, que servia posteriormente para a produção de tecidos. Havia também plantações de milho, feijão, mandioca, banana, entre outros.

Contar um pouco dessa história é resgatar uma memória importante de luta e resistência do povo brasileiro e, principalmente, das mulheres negras que carregaram e seguem carregando em seus corpos as marcas da exploração e da opressão desse sistema capitalista-racista-patriarcal. A escravidão nos deixou um vergonhoso legado que ainda se expressa nas relações sociais, na educação, no trabalho e na saúde. Para manutenção desse sistema, a violência se apresenta como base material dessas relações.

As estatísticas seguem apontando a violência e a negação de direitos como problemas centrais na vida das mulheres negras brasileiras. Tivemos, por exemplo, de 2005 a 2015, um aumento de 54% no número de assassinatos de mulheres negras, enquanto que o de mulheres brancas reduziu-se em 10%. Assim como mulheres brancas recebem 60% a mais do que negras, segundo a pesquisa Mulheres e Trabalho, do IPEA, publicada em 2016. Os dados são alarmantes e nos evidenciam o racismo, a exploração e a opressão vividas pelas mulheres negras diariamente no Brasil.

Em tempos de golpe no Brasil e pela América Latina, crise econômica, política e social, são inúmeros os retrocessos e extremamente perceptível o crescimento do conservadorismo. Em um ano, o governo golpista de Michel Temer cortou 61% das verbas destinadas ao atendimento de mulheres vítimas de violência. Além de dar fim à Secretaria da Promoção da Igualdade Racial e da Secretaria de Política para as Mulheres. Estamos vivenciando o desmantelamento dos direitos socais conquistados historicamente pela classe trabalhadora.

É por isso que partindo da memória resgatada no dia 25 de julho, precisamos relembrar o histórico de lutas e resistência das mulheres negras, assim como apontar os caminhos coletivos de acúmulo de força popular para a transformação da realidade imposta pela investida neoliberal em toda América Latina e Caribe. É preciso colocar um projeto alternativo de poder para o povo que consiga dar resposta às questões objetivas da vida das mulheres negras e da classe trabalhadora, um Projeto Popular de nação.

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Edição: Monyse Ravena