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Reforma é bandeira da direita

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"A esquerda tem a tarefa indelegável de organizar sua resistência e aprimorar sua capacidade de organização" / Coletivo de comunicação do Levante Popular da Juventude
Ou a pauta socialista se impõe ou a disputa está perdida de antemão

O brasileiro é cordial, resolve as coisas pelo coração. Parte da esquerda brasileira parece ser ultracordial e entrega convicções para não criar problemas. Vem daí o ruído que se constata seguidamente entre a percepção de outros países e a dos próprios brasileiros em relação ao golpe que nos define. Para parte dos brasileiros, com a imprensa à frente, cumprimos as regras do jogo e temos a situação que merecemos. Para os estrangeiros, juristas de prestígio à frente, entregamos o ouro aos bandidos e a tudo assistimos, ainda que inconformados, com o tédio da inevitabilidade.

O estágio atual, com um governo investido ilegitimamente e que se mostrou não só reincidente como capaz de extrapolar em matéria de crime, exige uma mudança radical de atitude. Chega um momento em que seguir as regras é apenas sinal de fraqueza e falta de coragem. Desde que o principal projeto do atual governo passou a ser sua própria sobrevivência, a sociedade passou a viver num duplo registro. 

No mundo real, as contradições continuam ferindo na carne as conquistas sociais, com seguidas ameaças de retirada de direitos. No mundo oficial, a única preocupação é a paralisia da ação da Justiça e o acerto dos valores dos subornos. Um lado sofre, o outro sangra.

O maior problema de parte da oposição é não perceber essa cisão e tomar um lado pelo outro. Perde-se energia demais respondendo à pauta conservadora num campo em que seu domínio é absoluto - as instâncias formais de poder - e não se avança para ações de combate no cotidiano da vida real. Em vez de contar votos para barrar reformas ou contrarreformas no Congresso, está na hora de preparar a revolução nas ruas, sindicatos e movimentos sociais. A esquerda não pode fugir às atitudes necessárias nem às palavras verdadeiras.

O estágio reformista, a estratégia da redução de danos, a tática constrangida do avanço possível, tudo isso já ficou para trás. Não é um acaso que os mais renitentes representantes da direita arroguem tanto orgulho ao falar em reformas.

Este é hoje o território conservador. A paleta de cores das propostas que se desenham no horizonte não sai do cinza da preservação dos privilégios e do retrocesso frente aos avanços conquistados nos últimos anos, todos eles objetos de ataque. Está na hora de colorir o cenário de vermelho. Ou a pauta socialista se impõe ou a disputa está perdida de antemão.

A revolução não vai ser televisionada pela Globonews. Por isso é fundamental se despregar das expectativas colocadas por imprensa familiar e revigorar as instâncias populares de mobilização e enfrentamento, inclusive com uma nova forma de fazer circular a informação e o debate. 

A esquerda tem a tarefa indelegável de organizar sua resistência e aprimorar sua capacidade de organização, por meio de alianças estratégicas em frentes e novas experiências organizativas. Sem deixar de enfrentar o palco das reformas nos momentos necessários, é preciso avançar para propostas que estruturem e alimentem a reação popular.

Num tempo como o atual, de profundo e merecido desprestígio da representação partidária convencional, não se pode abrir mão do patrimônio de mobilização construído ao longo do tempo e renovado pelas novas demandas individuais e sociais. O grande desafio colocado é como cimentar os projetos setoriais, as propostas libertárias e de minorias, que hoje ajudam a indicar o caminho da transformação social, em torno de grandes bandeiras democráticas e consistentes.

Há uma saída pela esquerda que precisa ser assumida pela esquerda, sem qualquer gesto de concessão às forças conservadoras. Nem democracia de coalizão, nem cartas ao povo brasileiro. O país já tem lições de traição demais para manter a ingenuidade e histórico de lutas o suficiente para não temer o confronto.