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De Itaperuçu a Curitiba são duas horas – de viagem e de festa

Linha metropolitana é conhecida na região por passageiros que celebram datas comemorativas durante o trajeto

Brasil de Fato | Curitiba (PR)

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Os fundos do ônibus Curitiba / Itaperuçu são o salão de festas dos passageiros, que comemoram aniversários, despedidas e até chá de bebê / Arquivo

É comum nos ambientes de trabalho que colegas organizem festas para se despedir de quem vai embora, ou para compartilhar datas especiais. Com Adelaide Gomes de Castro não foi diferente: no último dia do antigo emprego, que coincidiu com a data de seu aniversário, ganhou bolo enfeitado com sua foto e coberto de glacê. No caso de Adelaide, porém, as condições da festa foram bastante exóticas em relação aos modelos corporativos e tradicionais. Ela é cobradora e o evento de despedida, organizado pelos passageiros, aconteceu entre os trancos e barrancos da linha metropolitana Curitiba / Itaperuçu, conhecida por reunir um povo pra lá de festeiro.


Quem mais estiver no ônibus e tiver vontade de participar também é muito bem vindo – Angélica dos Santos


“Começamos fazendo cafezinhos, depois passamos a comemorar aniversários, chás de bebê, finais de ano. Agora, ao menos um café da manhã no ônibus já é rotina entre nós”, conta Angélica dos Santos, que trabalha em um restaurante. O trajeto de 31 km entre Curitiba e Itaperuçu chega a levar quase duas horas e as festinhas foram uma maneira encontrada pelos passageiros para se distrair durante a viagem. “Comemoramos muitos eventos, organizamos um amigo secreto quando está perto do natal, já trocamos chocolates na páscoa… tudo é motivo para celebrar”, enumera.

Em festa, apesar da dura rotina

No Curitiba / Itaperuçu, a festa começa cedo: o ônibus sai da região metropolitana sempre às 6h30 da manhã e atravessa as estradas entre os risos, a amizade e o bom humor dos passageiros. As relações de companheirismo são uma forma de compensar a dureza do cotidiano, em que a vida começa de madrugada e se gasta entre as quase quatro horas de locomoção, da ida à volta.

“Nossas relações se fortaleceram tanto nessa rotina que também fazemos festas e visitas às casas uns dos outros”, relata Angélica. “Quem mais estiver no ônibus e tiver vontade de participar também é muito bem vindo”. Enquanto a maioria dos ônibus só oferece um empurra-empurra, olhares carrancudos e a passagem mais cara do país, um pouco de afeto pode ser o melhor custo-benefício.

Edição: Ednubia Ghisi