Ciências

Coluna | O homem veio do macaco?

"Somos animais, primatas e não necessariamente superiores"

Brasil de Fato | Belo Horizonte (MG)

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"Ao olhar para a imagem, temos a sensação de que a evolução aprimora as espécies, tendo um ápice: nós. Mas não é nada disso" / Reprodução

Basta o papo sobre evolução começar que logo a frase acima aparece. Tão grande quanto a sua frequência é o seu erro. Para entender o porquê, vamos por partes.

Primeiro, “o homem”? E a mulher, veio de onde? A língua portuguesa possui uma norma machista que diz que o genérico deve sempre ser masculino. É o chamado sexismo gramatical. Por trás dessa inocente regra linguística esconde-se a ideia da superioridade masculina. O mais indicado é a substituição desses termos, sempre que possível, por outros realmente genéricos. Ao invés de “homem” usa-se “ser humano”.

Simples!

E então, o ser humano surgiu do macaco? É isso que diz a teoria da evolução?

Os estudos mais recentes afirmam que a espécie humana surgiu na África Oriental, há cerca de 200 mil anos. Fazemos parte do grupo dos primatas, devido às nossas características físicas. Logo, somos macacos.

Contudo, ao dizer que o ser humano veio do macaco, a ideia que se passa é a de que aquele macaquinho que vemos no zoológico ou no parque é nosso ancestral. Não é nada disso. O que a evolução afirma é que um ancestral comum, a partir de várias transformações, deu origem às diversas espécies de primatas. Ou seja, os macacos atuais no máximo são nossos primos, e não nossos antepassados.

A famosa imagem que ilustra esta coluna reforça essa ideia equivocada. Ao olhar para ela, temos a sensação de que a evolução aprimora as espécies, tendo um ápice: nós. Seria uma escadinha que os seres sobem até atingir a perfeição. Mais uma vez, não é nada disso. Todas as espécies atuais são igualmente evoluídas, pois estão adaptadas para viver onde vivem.

As espécies vivas mais próximas evolutivamente da nossa são os chimpanzés, gorilas e orangotangos. O DNA deles é cerca de 98% igual ao seu e ao meu. Porém, diversas espécies ainda mais próximas de nós já existiram e foram extintas. Por exemplo, o Australopitecos, o Homo erectus e o Neandertal. Algumas inclusive chegaram a conviver conosco, até há cerca de 30 mil anos. 

A compreensão sobre a evolução biológica e sobre nosso local nessa história possibilita um salto de qualidade no nosso entendimento sobre o mundo. Entender que somos animais, primatas e não necessariamente superiores. Que somos parte da natureza e sofremos com ela de um mesmo destino. São ideias fortes que possibilitam à humanidade uma relação mais saudável com os demais habitantes deste planeta. Concorda?

Um abraço e até a próxima!

*Renan Santos é professor de biologia da rede estadual de Minas Gerais.

Edição: Joana Tavares