DEMOCOM

“O debate do direito à comunicação é interditado na sociedade”, diz radialista

Em entrevista, Taís Ladeira reforça necessidade da democratização da comunicação e a importância do rádio

Brasil de Fato | Caruaru (PE)

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Além de gerenciar por 3 anos a Rádio Nacional da Amazônia, Taís Ladeira participou da criação da Empresa Brasil de Comunicação (EBC) em 2006 / PH Reinaux/Brasil de Fato Pernambuco

Nesta semana celebra-se a Semana Nacional da Democratização da Comunicação. E no momento político que o Brasil passa, o debate sobre a necessidade de uma comunicação mais democrática e que de fato represente a diversidade e as identidades da população se faz cada vez mais necessária.

No final de setembro, Taís Ladeira, da Associação Mundial de Rádios Comunitárias (AMARC) participou do Encontro de Comunicação Popular do Nordeste e Curso Popular de Rádio, em Caruaru (PE), com realização do Brasil de Fato, do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST) e do Centro Popular de Mídias.

No encontro, Taís contribuiu com o debate sobre o papel social do rádio e reforçou a necessidade de se discutir a regulação dos meios de comunicação. Taís Ladeira gerenciou por três anos a Rádio Nacional da Amazônia. Em 2006 chefiou participou da criação da Empresa Brasil de Comunicação (EBC), onde trabalhou por anos até ser exonerada após o golpe. Na entrevista a seguir ela aprofunda mais essas questões e destaca a importância do rádio como veículo de comunicação para a população brasileira.

Brasil de Fato - Por que se teme tanto a regulação da comunicação no Brasil?

Taís Ladeira – Antes eu quero falar dos poderes estratificados no Brasil. No Congresso se conseguem identificar três grandes bancadas, a bancada do boi, ligada aos grandes latifúndios, ao agronegócio; a bancada da bala, que é a bancada que está muito ligada também a bancada do boi e da militarização, da força da arma, tem inclusive agora quem defende um novo plebiscito para a questão do desarmamento dizendo que a sociedade quer se armar, quer se defender.

E tem uma terceira bancada que é a da Bíblia, que exerce todo esse fundamentalismo nos seus Projetos de Leis e que retira direitos que historicamente foram conquistados por mulheres e por outros grupos sociais. Mas, por incrível que pareça, a bancada dos proprietários de rádios e TV e dos jornais transpassam as três bancadas. Existe gente da bancada do boi que é dono de rádio e TV no meio rural, existe gente da bancada da bala e o da Bíblia nem se fala, é só ligar a TV aberta e ver a quantidade de gente dominando.

Isso é proibido na legislação brasileira, mas tá tudo certo porque não tem fiscalização. Os pares não querem tocar nesse assunto, mas existe dentro do Congresso uma comissão ligada a comunicação, de Comunicação, Ciência e Tecnologia e é por ali que passa a aprovação ou desaprovação de qualquer concessão de rádio e TV. Mas são pares julgando pares e legislando para pares, é isso que acontece. Um Congresso que domina, junto com os empresários, a comunicação brasileira, não vai querer dividir esse latifúndio, não quer discutir, toda vez que a gente fala da regulação da mídia eles vem com carimbo e dizem: 'é censura.



O Brasil precisa de liberdade de imprensa', distorce completamente o que a gente está falando de direito à comunicação, de uma diversidade maior, haja vista, por exemplo, o que foi a conferência nacional de comunicação. O Brasil realizou nos últimos treze anos uma série de conferências. Algumas já vinham, obviamente, de outros governos. A área de educação e saúde sempre realizaram conferências nacionais e dali saem políticas públicas importantíssimas. Mas por que que a comunicação só teve uma conferência? E por que nessa um só um determinado setor do empresariado da comunicação decidiu participar?

O que eles temem no debate? Por que não vem dialogar? Por que se arvoram a achar que apenas sete famílias e uma meia dúzia de pastores dão conta de toda diversidade da população brasileira? Onde que estão os 25% de programação regional que também está previsto em lei e que não acontece? Que poderia descentralizar a comunicação, gerar emprego, capacitar pessoas, colocar mais sotaques e cores na comunicação brasileira.

O debate do direito à comunicação é um debate interditado na sociedade brasileira. Ele não vai se fazer, pelo simples fato de quem está na comunicação não permite que o debate aconteça. E isso é muito interessante porque todo mundo sabe que o que não passa na TV, não está acontecendo. As redes sociais vieram quebrar um pouco isso, mas elas continuam as vezes sendo um indivíduo falando por ele mesmo, quem ele representa?

O valor de uma comunicação coletiva, comunitária, popular é muito incrível porque naquele fazer da comunicação ele não tem um patrão. As pessoas que se agregam aquele projeto. É preciso que a gente entenda também esse salto nas relações sociais que é possível você ter numa experiência de comunicação comunitária. E eu acho que a gente precisa fazer essa volta ao passado. Você está voltando a fazer comida em casa, comendo melhor, plantando a sua própria horta? Então, por que não fazer a sua própria comunicação?

Qual o papel que cumpre uma rádio comunitária?

Ela têm vários aspectos, o da contação da história desse povo, por exemplo, de ser um lugar de rememorar, um lugar em que você chega lá e canta uma cantiga de roda que era muito conhecida quando era pequena, ou então um poema que conta a história do meu povo, ou vou fazer um cordel contando a história de uma personagem importante da comunidade, de uma fundadora daquele movimento.

Tem essa ligação da comunicação com a memória, com a cultura, com esses saberes populares. Tem, obviamente, uma capacidade de auto-organização, de fazer o debate sobre os problemas e você se reconhecer e se fortalecer. Para além desse fenômeno, que é ligado a comunicação, de falar e escutar e ser escutado, o que é transformador. Eu acho que a organização do veículo é um desafio. Quem vai abrir a rádio? Quem vai fechar a rádio? A rádio vai ser fixa ou vai ser itinerante? A gente ganhou o dinheiro de um apoio cultural, o que vamos fazer com esse recurso? Que parcerias eu faço na minha comunidade? Quais as alianças e quem são os meus parceiros? Quais são as minhas ameaças? Como vou autossustentar esse projeto financeiramente ou politicamente? Que tipo de programação vou fazer?

Então essa complexidade, que é a mesma complexidade do movimento, seja associação de moradores, de mulheres, de jovens ou o sindicato, todos eles têm o desafio de como as relações humanas vão se dar ali, de como serão as relações de poder. Não há um modelo, ele está para ser inventado segundo as necessidades daquela comunidade. A rádio comunitária é uma propriedade, inclusive a gente tem que começar a pensar na possibilidade dos grupos sociais serem proprietários de alguma coisa. Ela é propriedade, mas é coletiva, tem dono, mas é o coletivo.

O que significa o rádio como um veículo de comunicação para a população brasileira?

O rádio para os centros urbanos continua muito presente nos momentos do trânsito, nas situações onde você quer uma informação rápida, ágil. O rádio tem o seu lugar, ele só vai mudando de cara, mas ele tem o seu lugar nos centros urbanos, e ele tem o seu lugar principalmente no meio rural, muito. De prestação de serviços, de utilidade pública e esses conteúdos mais do direito à cidadania. Mas o rádio sempre foi muito mal tratado ao longo da história no Brasil.

Quando ele estava no seu auge, ele foi rapidamente cooptado pelos políticos, por exemplo, são várias as experiências que nós temos, os casos das pessoas que se elegeram e depois que estavam 10 ou 15 anos a frente de um programa de rádio. Tem casos, inclusive, que se elegeram porque moravam num município e falavam para outro estado. E era tão popular naquele estado que consegue se eleger.

O rádio tem esse "poder" de pegar a pessoa e colocar na casa do sujeito, dentro da comunidade. Para além disso, agora vem essa leva do humor que sai destruindo tudo, porque tudo vira estereótipo, e tudo deve fazer rir. Nos grandes centros, por exemplo, como a vida cotidiana é muito pesada, muito opressora vêm os programas de humor que só reforçam esses preconceitos por meio do riso, que é altamente perigoso, porque você está rindo ali e não está percebendo que aquilo está fixando no pensamento das pessoas.



É preciso fazer vários resgates. Eu fico com a imagem que o rádio é um sobrevivente, porque foram muitos ataques e os ataques são permanentes. É o ataque do formato da locução apressada e superficial, é o ataque do locutor sedutor das rádios do interior, é o ataque dessa participação programada e limitada do cara que está ligando para consumir o boné, o ingresso, o chaveiro, a participação na festa… são muitos os ataques.

Quando você fala do rádio de uma forma mais ampla, você fala nossa, que potencial e eu estou usando só 10% dele. Eu só tenho uma pessoa falando e outra escutando, e todo o resto? E o que pode acontecer em uma ponta e em outra ponta? É preciso explorar os outros 90%. Tem muito a ser feito ainda.

O rádio não dá dinheiro, porque o rádio é uma mídia popular e é uma mídia mais barata. Mas os publicitários não colocam dinheiro no rádio porque nós começamos a viver uma ditadura da imagem e é uma ditadura perversa, porque você para de prestar atenção no que a pessoa está dizendo e quer ficar olhando para o brinco, para o gesto. A ditadura da imagem te anestesia e te leva para um outro universo. O rádio é um veículo altamente sedutor, e eu queria deixar esse depoimento porque todas as profissões são difíceis e tem sua complexidade, mas o rádio tem um componente a mais que é o amor que a gente desenvolve por esse veículo.

Edição: Monyse Ravena