Coluna

Quando o carnaval passar

Imagem de perfil do Colunista

Ouça a matéria:

"Ligação entre festa e utopia está sempre presente" / Mídia Ninja
O carnaval deixou o alerta da escravidão não extinta e das lutas que nos esperam

O povo brasileiro deu um show nesse carnaval. Fez o que tinha de fazer: foi para a rua, mostrou que a alegria é a prova dos nove, ocupou o espaço público com criatividade, protestou contra as injustiças, namorou e celebrou a diversidade.

A pauta das escolas de samba – mas também dos blocos organizados e espontâneos – mostrou que a ligação entre festa e utopia está sempre presente. O carnaval não é um momento de rompimento com o real, mas de expressão da realidade pelos caminhos do desejo.

Se o dono da festa acertou, o poder público mais uma vez deixou a desejar. Faltou um plano responsável de segurança e infraestrutura de transporte, que deveria ser eficiente e gratuito nessa época do ano. O descaso com a limpeza urbana e escassez de banheiros químicos foram reclamações presentes e justas.

Tudo que a festa representa em termos sociais e até mesmo econômicos, com aquecimento dos setores produtivo e de serviços, não recebeu a contrapartida necessária. Não foi incomum a vacância dos representantes do poder executivo no carnaval, seja por alergia de povo, seja por motivações ideológicas e conservadoras.

As mulheres protagonizaram o maior avanço político, com a universalização da divisa do “não é não”, uma afirmação feita de duas negativas, que dialetiza o movimento feminista em torno da força. O combate ao assédio e a defesa da manifestação livre e autônoma do desejo foi a nota dez no quesito cidadania.

A pauta mais estritamente política, como os enredos das escolas cariocas Beija-Flor e Paraíso do Tuiutí, permitem uma leitura simbólica da insatisfação que varre o país. A agremiação de Nilópolis, que venceu por um décimo, reproduziu a leitura didática convencional da corrupção como raiz de todos os males.

Já a vice-campeã levou para a avenida uma abordagem mais rica em termos históricos e poéticos, com um dos mais belos sambas-enredo dos últimos anos, composição de Claudio Russo, Moacyr Luz, Dona Zezé, Jurandir e Aníbal. Diferentemente da Beija-Flor, o carnavalesco Jack Vasconcelos deixou de lado o didatismo da dramaturgia explícita para reforçar elementos simbólicos muito expressivos.

O verso que fala da “bondade cruel” é um dos achados mais fortes da poética do samba, atento à contradição que funda as relações sociais no Brasil e o empenho da elite do atraso em defender a retirada de direitos como signo de modernidade. A inspiração nas ideias de Jessé Souza foi notável.

Ao tensionar a crise brasileira em torno de questões estruturais, como a permanência da escravidão por meio de formas contemporâneas de racismo e espoliação do trabalho, a Tuiutí honrou a tradição do carnaval. Pôs a inteligência no abre-alas e não atravessou o ritmo da emoção. E ajudou a revisar a pauta eleitoral a partir de agora.

Outro aspecto marcante do desfile, a crítica à manipulação da mídia que ancorou o golpe, produziu um dos mais exemplares momentos de metalinguagem história da televisão brasileira. Uma cena digna de figurar nos manuais de teoria da comunicação de massa como exemplo do retorno do reprimido. Psicanálise na telinha.

Enquanto a escola explicitava o papel assumido pelos meios de comunicação, principalmente da Rede Globo, na defesa das manifestações pelo impeachment, panelas e patos incluídos, os apresentadores silenciavam o que ia diante de seus olhos. O discurso sempre prolixo dos comentaristas, mestres em tecer analogias imaginosas, foi calado pela evidência do real.

Assim como a emissora, na antecâmara do golpe, mentiu afirmando o que não existia – a narrativa do combate à corrupção como redenção nacional –, mentiu ao não afirmar o que existia, ou seja, o empenho mobilizador e proselitista de sua ação convocatória. Seus profissionais que pecaram pelo excesso na quadra anterior, agora penitenciaram pela falta.  

O carnaval, como um rio, passou em nossas vidas. Deixou o alerta da escravidão não extinta e das lutas que nos esperam na dispersão. Quem estava se guardando para quando o carnaval passar, pode se preparar para sair de novo as ruas. O próximo desafio é barrar a reforma da previdência. Mas é só o começo.

Edição: Joana Tavares