Cinema

Artigo | “Arábia” e o protagonismo do povo trabalhador

"A vida do personagem diz muito sobre nós, trabalhadores e trabalhadoras que quase nunca podem contar suas histórias"

Brasil de Fato | Belo Horizonte (MG)

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O filme está em cartaz em Belo Horizonte no Cine Belas Artes / Divulgação

Parece um filme simples, sobre a vida cotidiana, mas talvez esteja aí a grande força desse premiado longa mineiro. Ao trazer para a tela e para o papel principal um homem comum, o filme parece gritar – apesar do silêncio que se demora em tantas passagens – o quão pouco estamos acostumados a ver tão de perto uma pessoa como Cristiano, o personagem interpretado por Aristides de Souza.

Ficamos sabendo sobre como ele pensa, o que viveu, suas angústias e questões através de seu diário, encontrado por outro rapaz, trabalhador como ele. Cristiano nasceu em Contagem, no bairro Nacional, ‘rodou’ em um esquema com um amigo e passou pouco mais de um ano preso. Depois pegou o trecho, de trabalho em trabalho, até chegar numa fábrica de alumínio em Ouro Preto.

Os diálogos de Cristiano com seus amigos e parceiros de lida, o exemplo do senhor que enfrentou os fazendeiros, a sutileza das cenas de amor – como é raro um filme que não banaliza o corpo da mulher! -, as estradas, a paisagem tão familiar para nós mineiros e, ao mesmo tempo, tão diferente, todos esses elementos são tão reais e retratados com tanto respeito que provocam um sentimento estranho.

É como se, por meio do cinema, nos fosse apresentado o mundo onde vivemos. Não uma ficção de efeitos especiais, não uma história moralizante, não um enredo de final feliz, não uma ode ao comodismo ou ao romantismo barato, não um espetáculo comovente ou que entorpece. Apenas a vida. Que é tão interessante e injusta como a de Cristiano. Que pode ter tantas reviravoltas, indecisões e ternura como as que ele vive na estrada. 

O exercício que ele faz de voltar para si e perceber que até tem sim o contar diz muito sobre nossa história como maioria do Brasil, os trabalhadores e trabalhadoras que quase nunca podem simplesmente contar suas histórias.

 

Edição: Larissa Costa