MATHEUSA

Assassinato brutal de Matheusa Passareli: censuram-nos o direito à vida

Matheusa sofreu preconceito enquanto viva, foi brutalmente assassinada e continua sendo violentada, após sua morte

Brasil de Fato | Rio de Janeiro (RJ)

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Matheusa Passareli foi assassinada de forma bárbara na zona norte da capital carioca / Divulgação

Foi com um aperto no coração, somado a uma profunda indignação, que tomei conhecimento da morte da artista, estudante, negra e não binária Matheusa Passareli. Por motivos óbvios, minha tristeza se deu pela partida de mais uma de nossas jovens, potentes, cheias de vida e afeto. Minha indignação, porém, veio em decorrência das atrocidades contínuas que as pessoas trans e não binárias sofrem em nosso país. Matheusa sofreu preconceito enquanto viva, foi brutalmente assassinada e continua sendo violentada, após sua morte, nas redes sociais e pela grande mídia.

Os comentários marcados por ódio e violência, que não reproduzo aqui por acreditar que não devemos alimentar a tribuna da intolerância, tomam conta das redes sociais. Já os grandes jornais e portais de notícias, em sua maioria, violentam novamente a jovem de 21 anos, ao negar-lhe seu nome social. Felizmente, há ainda muitas pessoas que não se deixaram embrutecer pelos tempos de cólera em que vivemos. Pessoas que, de alguma maneira, dedicam alguns segundos de seu tempo para prestar solidariedade à memória de Matheusa. Isso não é pouco, uma vez que ajude a dar visibilidade à causa LGBTQI em nossa sociedade.

No Brasil, a expectativa de vida de uma pessoa transexual é de 35 anos. Isso corresponde à metade da média nacional. Trata-se de um índice assustador, perverso, desumano e estarrecedor. Em 2017, foram 179 transexuais assassinados no país, segundo dados divulgados pela Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra). Somos o país que mais mata pessoas trans no mundo. São crimes de ódio, uma violência que visa ao aniquilamento de um ser humano pelo simples fato de ele ser como é. Esse é o “pecado” dos transexuais: são, na maioria dos casos, cruelmente assassinados por serem eles mesmos. Censuram-lhes o direito à vida.

Como mulher, lésbica, negra e vinda da periferia, conheço de perto a realidade de quem precisa lutar mais do que os outros para, por exemplo, expressar afeto publicamente. Ou, ainda, a dificuldade de acesso aos direitos mais básicos, às justas igualdades de oportunidades, a posições de poder e à visibilidade social. E cada vez que uma jovem como a Matheusa é levada de nosso meio pela força do ódio, é preciso reunir ainda mais forças e lutar por espaços de visibilidade para todas as nossas questões.

Ao mesmo tempo, não queremos nenhuma concessão condescendente, nenhuma visibilidade estereotipada, como a mídia conservadora nos enquadra. A visibilidade que queremos se dará pelo nosso empoderamento social e político, pela nossa participação política ativa e permanente. Acredito, no mais íntimo de mim, que este meu sonho está a cada dia mais próximo de ser realizado. Matheusa, presente!

** Verônica Lima começou sua trajetória política no movimento estudantil e foi a primeira vereadora negra eleita da história de Niterói. Já atuou também como Secretária de Assistência Social e Direitos Humanos na cidade. Atualmente, trabalha em seu segundo mandato de vereadora com o compromisso de defender os direitos humanos e das mulheres, além de fortalecer as políticas públicas de assistência social.

Edição: Brasil de Fato RJ