Vida na ocupação

Em Belo Horizonte, Ocupação Vicentão proporciona trabalho e moradia para famílias

No prédio, que fica no Centro da capital mineira, moradores dividem não só um teto, mas também valores e compromissos

Brasil de Fato | Belo Horizonte (MG)

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"Eu conheci meus direitos e vim em luta pela minha moradia e dignidade", diz moradora Catiana Silva / Amélia Gomes

Cerca de 120 famílias ocupam o prédio na Rua Espírito Santo, 461, centro de Belo Horizonte. O local, que há cinco anos estava abandonado, hoje abriga pessoas que estavam em situação de rua, que não tinham condições de pagar aluguel e também muitos moradores que foram despejados de outras ocupações urbanas.

No local funcionava o Banco Hércules, de propriedade do empresário Tasso Assunção, que foi o primeiro brasileiro a ser condenado por crime de colarinho branco. Hoje, o imóvel está sob a propriedade da massa falida da empresa do banqueiro. Somente de IPTU deste imóvel a empresa deve mais de R$ 1 milhão ao governo.

“Aqui na ocupação são dois públicos prioritários: os sem-teto e os ambulantes que foram expulsos do centro da cidade. Temos três objetivos: assegurar a moradia digna, o trabalho digno e a comunhão na divisão das tarefas comunitárias”, explica o advogado popular e militante das Brigadas Populares, Luiz Fernando Vasconcelos.

Todo o trabalho feito na ocupação é dividido por comissões que se revezam. Assim é possível cuidar da cozinha coletiva, da limpeza, segurança e melhorias no prédio entre outras atividades, como o cuidado com as crianças. No local ainda são ofertadas aulas de reforço escolar, pré-vestibular e ioga. Recentemente os moradores começaram um curso de defensores populares, para que todos conheçam os seus direitos.

A auxiliar de cozinha Catiana Silva morava de aluguel na Vila Joana Darc, no Barreiro. Com o salário que ganhava tinha que escolher entre alimentar os três filhos ou pagar o aluguel. Há cinco meses ela decidiu ir para a Ocupação Vicentão. Uma semana depois de saberem de sua mudança, os antigos patrões de Catiana demitiram a auxiliar. Hoje ela mora a um quarteirão do seu novo trabalho e afirma que a vida melhorou. “Eu conheci meus direitos e vim em luta pela minha moradia e minha dignidade. Porque a partir do momento que você tem condições de dar aos seus filhos um pão e uma fruta, você tem dignidade! Os meus filhos não tinham acesso a estes direitos que hoje eles têm. Ter acesso à saúde e à educação de qualidade, à moradia e ao lazer, isso sim é ter dignidade.”

A ambulante Rafaella Costa também é uma das moradoras da ocupação. Quando chegou à Vicentão, Rafaella estava desempregada e enfrentava uma depressão pós-parto. Hoje ela afirma que encontrou não só um lar, mas uma família. “Eu perdi meu emprego fixo, estava prestes a ser despejada porque não conseguia pagar o aluguel aí eu vim para a ocupação. Hoje eu estou melhor. Aqui eu me encontro, encontro união e apoio. Somos uma família”, afirma.

Despejo

Na quarta-feira (16) os moradores receberam um mandado de reintegração de posse. Não foi apresentada nenhuma alternativa de realocação para as famílias que estão no local. O mandado foi recusado pelos moradores e retornou para a justiça. O processo corre na 2° vara empresarial de Belo Horizonte. “Nós acreditamos em um processo de negociação justo. Queremos uma mesa de negociação com estado, para a gente conseguir uma saída pacífica e resolutiva para esse conflito, que é um conflito social”, declara o advogado popular Luiz Fernando Vasconcelos.

Assim como diversas outras ocupações, a Vicentão não entrou na lista de áreas especiais de interesse social, divulgada pelo prefeito de Belo Horizonte, Alexandre Kalil. Na sexta-feira (18), a Ocupação Vicentão se reúne com o governo do estado para negociar uma solução para as famílias.

Edição: Joana Tavares