ENTREVISTA

"O São João pra mim representa tradição", diz a cantora Irah Caldeira

Vinda de Minas Gerais, foi no Nordeste que Irah Caldeira se tornou uma referência do forró pé de serra

Brasil de Fato | Recife (PE)

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A agenda de shows de Irah neste São João passa por Recife, Olinda e também por Caruaru. / Divulgação/ ASCOM Irah Caldeira

Com mais de 10 discos gravados e um trabalho consolidado no Nordeste, especialmente nas festas juninas, a cantora Irah Caldeira é mineira, mas há muito tempo já no Nordeste, e uma das poucas mulheres vocalistas que estão à frente das bandas de forró. Com uma agenda recheada de apresentações neste período junino, Irah nos concedeu entrevista em que fala sobre sua relação com o período de São João, seu encanto por essa época e pelas tradições, como também das dificuldades de ser artista independente, além da escolha do forró como seu ritmo.

Brasil de Fato - Como foi o seu envolvimento com o forró pé de serra, que é um ritmo tão popular aqui em Pernambuco? 

Irah Caldeira -
É algo diferente, eu sou mineira, nascida em Timóteo (MG), estou aqui há 19 anos. Na verdade o que me trouxe para cá foi o forró, porque, inexplicavelmente, eu ainda não sei bem essa resposta, eu cantava forró em Minas Gerais. Quando ninguém cantava forró, eu cantava numa banda de baile chamada Habeas Corpus. No início foi difícil, convencer o dono da banda, que eu era a “croner”, era assim que chamava, que eu queria fazer um bloco de forró e ele achava sem sentido. E como a banda era muito elitizada, ele achava que o povo não ia gostar. Até que um dia ele aceitou que eu cantasse o forró. Os bailes têm intervalos, daí ele disse ‘Irah, depois do intervalo você canta o bloco de forró e começa. Se você ver que o povo não gostou, já puxa aí os anos 60’, que eu começava com ‘Oh cupido, vê se deixa em paz’. Só que não precisou eu chegar no cupido, porque o bloco de forró foi fantástico, foi maravilhoso! Na época eu já escutava muito Marinês, já escutava muito Elba Ramalho, eu acho que essas duas tiveram uma interferência muito grande nessa questão da minha musicalidade, e o bloco começava com Banquete dos Signos. Não tinha sanfona, era teclado, mas foi um sucesso. Todo mundo levantou das mesas, dançou muito e foi tão bacana que esse bloco foi repetido no fim do baile, eu voltei pra cantar ele de novo. E aí nunca mais deixei de cantar. Então quando eu resolvi fazer meu primeiro CD, eu precisava vir pra cá, pra compreender isso melhor. Mas então, essa relação minha com o forró, ela vem de muito tempo e de uma forma muito natural.

BdF - O que representa hoje a festa de São João, culturalmente falando, para você?

Irah -
Eu acho que essa coisa do São João, pra mim ela representa tradição. A gente tem novidades os dias inteiros e tem uma infinidade de informação, que é natural, que é saudável, que é necessária. Tudo se renova o tempo todo, tá tudo mudando, faz parte do processo de evolução da própria vida. Mas aí, eu particularmente, eu me agarro muito a essa história do São João, essa tradição, essa coisa que ainda tem no meu imaginário desde menina. Da fogueira, das bandeirolas, dos casais dançando bem juntinhos, a coisa das crendices populares. O São João pra mim representa isso, tradição. É o momento em que a gente se apega a alguma coisa para o tempo não fugir do controle da gente.

BdF - Você acha que essa tradição é incentivada? 

Irah -
Eu acho que ela é desrespeitada, sabe? Eu acho que essa questão dessa tradição é inerente ao povo nordestino e não digo só do interior não, a gente percebe isso muito na capital também. O que eu percebo hoje é que existe um mercado que fala muito mais alto do que essas questões da vontade da gente, da minha vontade de manter uma tradição, do meu imaginário popular. Então hoje existe um mercado que determina quem vai quem canta, quem faz o quê. A gente perde esse poder de termos de fato o que a gente gostaria de ter. É algo que eu lamento. 

BdF - Quais os maiores desafios para os artistas independentes nessa conjuntura?

Irah -
Eu sempre digo que o artista mais dependente que tem é o independente, porque a gente depende principalmente de uma força de vontade, de uma disposição diária. Você tem que acreditar muito no que você faz, tem que correr muito atrás de tudo. E a gente não tem muito esse apoio, inclusive do poder público. Muita coisa que a gente vê falar, de manter a tradição, é muita conversa, porque a gente sabe que na prática isso não tem funcionado. Então isso às vezes é tratado com muito desrespeito ao artista independente, porque se ele não tiver como aliado a conjuntura politica e econômica da região, do Brasil, ou da cidade é muito complicado. Mas nós somos os que mais caminhamos sozinhos, isso é fato.

BdF - Onde podemos encontrar sua discografia?

Irah –
Estão disponíveis na internet, no Palco MP3, do CD mais antigo ao mais recente está tudo lá. Os discos disponíveis para venda também estão no site. Hoje a gente tem um espaço reduzido em relação a esse espaço comercial. O próprio CD hoje é algo não muito comercial, então cada vez mais a gente faz as coisas para a internet. Inclusive estamos lançando um clipe neste mês de junho, que podem encontrar no meu canal no Youtube, o clipe oficial de “Flor do Dia”, que é a canção que a gente está trabalhando, que fala sobre as diversas formas da gente amar. Mas em relação ao CD, gente tem um espaço interessante aqui na capital que é a Passa Disco, que fica na Rua da Hora, Espinheiro. Eu superindico para quem gosta dessa coisa palpável mesmo, o disco e o DVD. Sobre a agenda, tem shows dia 20/06, no bairro do Curado, em Recife; dia 21/06, no Shopping Tacaruna, às 19h, e às 21h30 no São João de Olinda. Dia 22/06 em Itamaracá, e dia 23/06 em Caruaru. A agenda completa está no site.

Edição: Catarina de Angola