Agroecologia

Mulheres têm sido referência na produção agroecológica no Semiárido

Rompendo os padrões e a violência, as mulheres tem conquistado visibilidade na produção de alimentos

Brasil de Fato | Petrolina (PE)

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"A relação entre as mulheres, o Semiárido e a Agroecologia tem rendido bons frutos" / Vanessa Gonzaga

Quando se fala em trabalho no campo, certamente se pensa no trabalho pesado dos trabalhadores para a aragem da terra, plantio, irrigação, colheita e todas as outras etapas até que o alimento chegue à mesa. O que muitas vezes não se imagina é o protagonismo das mulheres que trabalham no campo. Muitas mulheres trabalham na terra, plantando e criando animais, e no Semiárido há muitas experiências de mulheres que produzem agroecologicamente e são referência em suas comunidades. Uma delas é Pedrina Barbosa, que vive desde 2006 na comunidade de Sussuarana, no município de Juazeirinho, a 84 km de Campina Grande (PB). Quando chegou nas terras para produzir, a primeira dificuldade foi a falta de estrutura. Só havia um lago, que enchia no período de chuva e desaparecia durante a seca, o que era insuficiente.

Pedrina fez até os próprios tijolos da casa onde vive com o companheiro João Barbosa e o filho Salvador Barbosa. Através de políticas sociais para a convivência com o Semiárido, como o Programa Um Milhão de Cisternas e o Programa Uma Terra e Duas Águas, a família hoje tem uma grande quantidade de água armazenada para a produção e consumo através de cisternas e barreiros, um tipo de contenção para água da chuva. Mesmo com a abundância de água para produzir nos 2,5 hectares, João Barbosa trabalha como assalariado em fazendas da região. É ela quem cuida de toda a produção de feijão, milho, palma, abóbora, hortaliças e da criação de galinhas e ovelhas junto com o filho Salvador.

A sabedoria de Pedrina a faz multiplicar a produção. A partir do Fundo Rotativo Solidário, uma espécie de poupança comunitária para adquirir máquinas, sementes e animais para os produtores, a agricultora recebeu 200 raquetes de palma, uma planta que serve de alimento para animais, que em pouco tempo ela multiplicou para cerca de duas mil palmas. Mesmo com os seis anos de seca no semiárido, a produção é grande. Este ano a produção de feijão foi tão grande que a sala de armazenamento ficou pequena e a casa da agricultora virou armazém. Além do feijão, a produção de milho impressiona. Para garantir mais lucro, Pedrina também beneficia o milho crioulo e livre de agrotóxicos fazendo farinha de cuscuz, que é vendida na feira agroecológica da cidade.



A relação entre as mulheres, o semiárido e a agroecologia tem rendido bons frutos. No Polo da Borborema, também no interior da Paraíba, a iniciativa das mulheres tem sido essencial para convencer suas famílias da importância da produção livre de transgênicos e agrotóxicos, não apenas para o consumo próprio, mas para a comercialização, garantindo a saúde e segurança de quem planta e também de quem consome. Além disso, as mulheres organizam há seis anos, no dia 8 de março, a Marcha pela Vida das Mulheres e pela Agroecologia, que reúne cerca de cinco mil mulheres para se manifestar pelo fim da violência contra a mulher no campo e na cidade e pela igualdade de gênero na produção agroecológica, já que as mulheres partem do princípio de que a Agroecologia é um modo não apenas de produzir sem veneno ou sementes modificadas, mas de produzir sem reproduzir as desigualdades sociais que o agronegócio impõe no seu modo de funcionamento.

Não é apenas no semiárido brasileiro que as mulheres têm dado seu exemplo de resistência ao machismo e ao agronegócio. A cidade de Chiquimula fica na Guatemala, numa região chamada de Corredor Seco, que se assemelha ao semiárido e está presente também em Honduras, El Salvador e Nicarágua. É lá que vive Rosaura Días Felipe, que é agricultora e membra da Asociación de Mujeres Progresistas (AMOPROCAJ). Lá, com o Fondo de Contigência, um mecanismo parecido com o Fundo Rotativo Solidário em conjunto com a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO), as 164 mulheres associadas produzem hortaliças, revitalizam áreas com a produção a partir da agrofloresta e criam peixes. Rosaura foi uma das fundadoras da associação, que iniciou em 1999 com apenas 15 mulheres. “Decidi sair de casa aos 21 anos. Tinha três filhos e estava grávida de oito meses, mas não aguentava mais violência. Ao sair, vi que o mais difícil era conseguir dinheiro para viver. Passamos muita dificuldade, cheguei a pesar 40 quilos apenas, mas persisti e hoje meus filhos são independentes também”. Com o exemplo de Rousaura e outras mulheres que romperam o ciclo de violência e hoje chefiam suas famílias, a AMOPROCAJ tem sido uma ferramenta de organização das mulheres para superar a opressão e terem como se sustentar financeiramente.

Também no Agreste pernambucano, a participação feminina na produção tem rendido boas experiências, como a de Joelma Pereira. Quando começaram a plantar, Joelma e seu companheiro Roberto Pereira, que são de Pedra Branca, em Cumaru, continuaram o que já faziam nas terras cedidas pelo pai dela, que era a plantação do milho e feijão, sem muitas perspectivas de crescimento e de diversificar a produção. Com a construção de duas cisternas, a vida mudou radicalmente. Aos poucos ela foi comprando mais hectares e produzindo uma maior diversidade de alimentos para o consumo humano e também para a venda in natura, além da beneficiada. Hoje a produção é tão grande que é preciso fazer mutirões de colheita ou contratar outras pessoas para ajudar nos cuidados.

Numa área de cerca de sete hectares, ela planta palma, pinha, acerola, graviola, milho, sorgo e cria galinhas, gado, ovelhas, porcos e tem um apiário, mas, quer produzir ainda mais. Quando perguntada sobre a contribuição do marido, ela brinca “ a contribuição dele é na casa, cozinhando, ajudando no beneficiamento e na feira. Da casa para fora cuido eu, ele não entende muito de agricultura não, aí a gente dividiu o trabalho assim”.

A produção é escoada para municípios da região através da Associação de Agricultores e Agricultoras Agroecológicos do Município de Cumaru, a Associagro. Joelma também beneficia parte da produção fabricando licores, ricota, geléias, própolis, e fubá. A agricultora sonha com produzir ainda mais, garantindo a alimentação da família, o que é sua prioridade, e também continuar beneficiando e vendendo seus produtos mantendo o princípio agroecológico. Ela tem influenciado até o próprio pai, que com o êxito da filha vem iniciando a produção sem agrotóxicos e com sementes crioulas e aprendendo novas formas de viver na terra.“Ele achou no começo que não ia dar certo, mas agora está vendo que é possível e que não precisa destruir a terra para que ela dê alimento”, diz.

É rompendo com as imposições do papel da mulher no campo, dando autonomia financeira e garantindo a sua organização que as mulheres agricultoras têm enfrentado o agronegócio, dando exemplo de resistência não apenas na produção de alimentos saudáveis, mas também resistindo contra a violência e o machismo no meio rural, como ressalta Rosaura, que viajou mais de cinco mil quilômetros para notar as semelhanças entre a resistência feminina no Brasil e na Guatemala. “Isso significa que nós podemos e que precisamos ser respeitadas e que também temos o nosso lugar e que ele vem sendo conquistado com a luta”, afirma

Edição: Catarina de Angola