MST

Ciranda infantil garante o cuidado com as crianças durante Marcha Lula Livre

A principal proposta da ciranda é proporcionar novas experiências sociais aos sem terrinhas

Brasil de Fato | Moreno (PE)

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"Nos últimos quatro dias de Marcha, a ciranda tem sido itinerante" / PH Reinaux

Para que os pais e mães da “Marcha Lula livre, Lula inocente” caminhem todo o percurso despreocupados/as em relação às crias, a ciranda, como é chamado o grupo responsável pelos cuidados com as crianças, é planejada a partir de vários princípios presentes na Frente de Infância do MST. Nos últimos quatro dias de Marcha, a ciranda tem sido itinerante e chega com antecedência nos municípios que estão na rota do movimento, fincando estrutura em alguma sala das escolas sedes onde a marcha vem sendo abrigada.

Segundo o professor de história e integrante do MST, Paulo Henrique, que coordena o grupo de educadores e educadoras, a principal proposta da ciranda é proporcionar novas experiências sociais aos sem terrinhas. “O planejamento se dá a partir do que entendemos como processo educativo para a infância, a importância do lúdico, a importância da contação de história como elemento que contribui para que elas [as crianças] possam aguçar a imaginação”.

Durante a contação de histórias, as pequenas se sentam ao redor das educadoras e ficam imersos no mundo da imaginação, é difícil escutar um ruído que seja para atrapalhar a atividade. Outras brincadeiras preferidas dos sem terrinhas são os jogos populares, como pular corda e pega-pega. Quando há espaço propício, jogar bola é sempre uma boa pedida. 

A proporção de crianças para a quantidade de educadores tem regras a serem seguidas. Para cada pequeno de zero a 2 anos, um adulto deve ficar responsável e, dependendo da condição da criança, essa regra se estende até os 3 anos. Dos 4 aos 12 anos, cada adulto é responsável por dez crianças. Há também o cuidado na escolha desses educadores e educadoras que são avaliados antes de participar da ciranda, já que a função inclui garantir a alimentação, higiene pessoal, conforto e atividades educativas.

De acordo com Paulo, várias aptidões são necessárias. "A partir do coletivo estadual de educação [do movimento], nós buscamos construir as referências de educadores e educadoras infantis, porque não é qualquer pessoa que nós vamos botar a frente do cuidado. Tem todo um processo preparatório, a pessoa já tem que ter uma afinidade no cuidar da criança, habilidade comunicativa. Isso vai sendo potencializado no processo da própria ciranda", explicou.

Josileide Lins, 37, mais conhecida como “Vinha”, é educadora na ciranda desde 2010 e já sentiu na pele, como mãe de três filhos, a necessidade de grupos que cuidem dos rebentos enquanto as mães lutam pela garantia de seus direitos.“Me sinto muito contemplada de dar oportunidade para que as mães também possam se libertar tendo mais conhecimento. Eu também sentia essa necessidade de buscar mais conhecimento. Hoje ainda há muitas mulheres oprimidas e que não sabem dos seus direitos e muitas vezes se prendem por isso, por ter o obstáculo do filho. Porque muitas vezes seus esposos dizem que não tem condições delas participarem da atividade porque elas não têm com quem deixar seus filhos”.

Na última quarta-feira (18), durante a Marcha, dez crianças estavam na ciranda e a previsão era que chegassem mais com as regionais do MST que se uniram aos que já marchavam em Vitória de Santo Antão. O cuidado com os sem-terrinhas não é algo específico da mobilização desta semana, mas sim um trabalho que acontece sempre que necessário nas manifestações do movimento.

Vinda do Acampamento Antônio Nascimento, em Santo Aleixo, Laryane Fernanda dos Santos, 11 anos, diz que curte estar na ciranda.“Eu gosto de brincar porque me sinto à vontade, gosto de vir aos atos para lutar por coisas que teremos no futuro. Uma casa para morar, um lugar para a gente plantar e colher”. A pequena deve seguir para Brasília com mais dois irmãos para participar da Marcha Nacional “Lula livre, Lula inocente” que começa dia 8 de agosto.

Lucineide Fernanda da Silva, 30, é mãe de Laryane e tem mais quatro filhos. Ela sente que sua liberdade de expressão aumentou ao entrar no MST, em 2016, e isso também se deve a organização do movimento. “Quando precisamos fazer uma marcha, não dá para levar as crianças ali no solo, no sol quente. Elas vão passar mal, não vão aguentar a distância que a gente percorre. É bom a ciranda ali para nos dar ajuda a fazer um ato com a mente mais limpa, com gosto de gás mesmo”.

Paridade de gênero

O cuidado com as crianças ainda recai em sua maioria na conta das mulheres, mas o MST tem tentado reverter essa realidade aos poucos, garantir a paridade de gênero é uma preocupação recorrente no movimento. Paulo Henrique também é integrante da Frente de Educação e encara a questão como um desafio a ser superado. “É um tabu que a gente ainda tem que são mais mulheres na ciranda, no entanto, temos um histórico de alguns companheiros que também já contribuíram”.

 

Edição: Catarina de Angola