Saúde

SAMU começa a funcionar no Triângulo Norte, mas Uberlândia fica de fora

Desde 2017, prefeito retirou a cidade do consórcio que garantia o serviço

Brasil de Fato | Uberlândia (MG)

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Decisão da prefeitura também impactou outras cidades do entorno / Foto: Ministério da Saúde

Algo tem chamado a atenção dos uberlandenses nas últimas semanas. As pessoas têm visto ambulâncias do SAMU (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência) circulando pela cidade, no entanto, o 192 não está disponível. Por que isso ocorre? Desde o começo do mês, 26 municípios do Triângulo Norte aderiram ao SAMU. As ambulâncias transportam pacientes para unidades regionais de Urgência e Emergência.

E Uberlândia?

Embora a sede do SAMU seja em Uberlândia, a partir de 2017 o município optou por não participar do serviço por decisão do prefeito Odelmo Leão (PP). “Até o final da gestão de Gilmar [Machado, PT], em 2016, Uberlândia fazia parte do consórcio. Em 2017, o município tinha que decidir novamente se o usuário do SUS de Uberlândia poderia ser usuário do SAMU, e o atual prefeito falou que não”, explica Dayana Ferreira da Fonseca, ex-Secretária Executiva do Consórcio Público Intermunicipal de Saúde da Rede de Urgência e Emergência (CISTRI), que é responsável por administrar o SAMU no Triângulo Norte. 

Até 2016, Uberlândia havia sido protagonista nas negociações para a instalação do SAMU no Triângulo Norte. Nesse período, a administração investiu pesado na reforma de Pelotões dos Bombeiros e Unidades de Saúde para que pudessem servir como bases do SAMU. “Nós fizemos pintura, pequenas reformas, adaptações em banheiros, alojamentos, e fizemos aquisição de mobiliário para as 18 bases, incluindo o Corpo de Bombeiros”, conta Dayana.

Já as 31 ambulâncias foram adquiridas pelo Governo do Estado de Minas Gerais, sendo 26 Ambulâncias Básicas (que contam com um técnico de enfermagem), e 5 Avançadas (UTI’s móveis, que possuem um médico e um enfermeiro). Deste total, 10 ambulâncias seriam destinadas para atender o município de Uberlândia. Com a saída da cidade do Consórcio, esses carros estão parados, e servirão como frota de reserva.

A decisão da prefeitura teve ainda um impacto para outras cidades do entorno. “O município que se consorcia tem que dar um financiamento; foi pactuado no início R$0,20 por habitante. Como Uberlândia saiu, nós retiramos 700 mil habitantes do consórcio. Então aumentou R$0,10 [per capta] para cada um dos demais municípios”, explica Dayana.

Qual é o impacto da ausência do SAMU para a saúde da população?

Uberlândia hoje não possui ambulâncias próprias. Em casos de acidentes, a população é socorrida pelos bombeiros, que dispõem somente de viaturas de resgate, veículos que não têm a estrutura de ambulância e nem contam com a presença de profissionais de saúde. Nos casos em que é necessária uma UTI móvel, o município contrata o serviço de empresas privadas.

 “Hoje os bombeiros têm apenas quatro viaturas para atender o município inteiro, o SAMU ia colocar só dentro do município dez ambulâncias, sendo três UTI’s móveis e sete ambulâncias básicas”, exemplifica Dayana.

Sobre a importância do SAMU para a saúde da população, ela acrescenta: “O SAMU faz o primeiro atendimento pelo profissional de saúde, e é ele quem pode fazer uma assistência pré-hospitalar qualificada. O paciente chega no hospital com maiores chances de vida. Diminui a mortalidade, as chances de sequela e aumenta a sobrevida. É bom pro paciente, pra família e pro SUS”, defende.

O que a prefeitura diz sobre o assunto?

O Brasil de Fato entrou em contato com a assessoria de imprensa da Prefeitura, que não retornou os pedidos. Em entrevistas anteriores, o prefeito justificou a não adesão do município ao SAMU pela ausência de estrutura hospitalar suficiente para absorver a demanda de atendimentos. Segundo a administração municipal, haveria um déficit de cerca de 800 leitos na cidade e o Hospital das Clínicas da UFU estaria operando no limite de sua capacidade.

Em entrevista em outubro de 2017 publicada no site oficial da Prefeitura de Uberlândia, o atual secretário de saúde, Gladstone Rodrigues, afirma que o município não teria condições financeiras para o repasse da verba mensal para o CISTRI.

No entanto, segundo Dayana Ferreira: “O SAMU não está aumentando a demanda dos hospitais. Ele organiza a demanda, e até diminui às vezes. É o único serviço de atendimento móvel que pode dar alta no local do atendimento, porque tem médicos”.

Samu não sobrecarrega HC da UFU

O Brasil de Fato teve acesso a dados recentes obtidos pelo Consórcio Público Intermunicipal de Saúde da Rede de Urgência e Emergência (Cistri), o grupo responsável por administrar o SAMU no Triângulo Norte, a respeito dos primeiros dias de funcionamento do 192 na região.

Segundo os dados do dia 3 de julho, data em que o serviço começou a operar, até o dia 17 de julho, foram recebidas 4.604 ligações, que resultaram em 1.031 saídas de ambulâncias. Os atendimentos foram, em sua maioria, por causas clínicas (592) e traumáticas (228).

Nesses quase 15 dias de funcionamento, apenas 23 pacientes identificados como Código Vermelho (casos graves) foram levados para o Hospital das Clínicas da UFU (HC-UFU). O dado parece se contrapor ao argumento de que o SAMU poderia sobrecarregar o HC.

“Foi muito questionado que nós iríamos onerar o Hospital das Clínicas. Mas 23 pacientes é um número pequeno”, diz Rodrigo de Alvim Mendonça, Secretário Executivo do Cistri.

Em contrapartida, o número de pacientes Código Vermelho levados para hospitais de média complexidade em cidades vizinhas foi de 33 pacientes para Ituiutaba, 24 para Patrocínio, 40 para Araguari e 18 para Monte Carmelo.

“O resultado da implantação do SAMU é uma melhor distribuição dos pacientes nos hospitais da rede de Urgência e Emergência e um atendimento mais rápido” completa Rodrigo.

Saiba mais sobre o SAMU

O Serviço de Atendimento Móvel à Urgência (SAMU 192) é um serviço pré-hospitalar, que tem como objetivo chegar o mais rápido possível às vítimas em situação de urgência e emergência, buscando prevenir morte e sequelas. O seu processo de regionalização se deu a partir de 2003, por uma iniciativa do Governo Federal, com a Política Nacional de Atenção às Urgências.

O SAMU tem o financiamento chamado de “tripartite”, isto é, possui recursos do Governo Federal (50%), Estadual (25%) e Municipal (25%). Possui um componente regulador (uma Central Médica de Regulação) e um componente assistencial (equipe das ambulâncias).

Estudos nacionais e internacionais demonstram que o atendimento pré-hospitalar, como ocorre no SAMU, é extremamente importante para reduzir a mortalidade em caso de urgência.

Segundo informações do Ministério da Saúde, o SAMU atende a 170,6 milhões de pessoas no Brasil, o que equivale a 82,2% da população brasileira.

Edição: Joana Tavares