CENSURA

OPINIÃO | Por mais respeito às artes e às religiões

Não é de hoje que a religião gera debate. O próprio Jesus contestava a ganância das lideranças judaicas de seu tempo.

Vivemos em tempo cabulosos em que falsas polêmicas são criadas para se obter ganhos particulares. Vilões são inventados unicamente para que “heróis de mentirinha” possam aparecer e “derrotar o mal”. Foi assim no último Festival de Inverno de Garanhuns (FIG), com a tentativa de censura da peça “O Evangelho Segundo Jesus Cristo, Rainha do Céu”, protagonizado pela atriz Renata Carvalho, uma travesti. 
O monólogo narra uma suposta volta do Cristo à terra, agora num corpo trans. O texto traz referências bíblicas e conta uma história de amor, aceitação, perdão e afeto. A atuação faz rir, faz chorar, faz pensar. As lições que ficam refletem as que foram deixadas por um certo Nazareno há mais de 2 mil anos. Falo porque assisti, importante para atribuir-se o direito de comentar qualquer obra de arte.
Em Garanhuns, a peça foi exibida duas vezes, em espaço privado, graças ao esforço de militantes da cultura. A segunda, depois uma liminar que proibia a peça de “estar na programação do FIG”. Retirados os equipamentos de som e iluminação, as pessoas levantaram-se das cadeiras e saíram debaixo dos toldos do festival. Performance (e aplausos) debaixo de chuva, num ato de resistência aos sepulcros caiados que apostam no uso da fé alheia como ferramenta eleitoral.
Não é de hoje que a religião gera debate. O próprio Jesus contestava a ganância das lideranças judaicas de seu tempo. O uso de referências cristãs nas artes, assim como a subversão de narrativas bíblicas, também não é inédito. Vide filmes como Jesus Cristo Superstar (1973), A Vida de Brian (1980), A Última Tentação de Cristo (1988) ou Dogma (1999). Ou mesmo a peça O Alto da Compadecida (1955), em que um Jesus negro absolve os pecados de um cangaceiro ou o livro O Evangelho Segundo Jesus Cristo (1991), em que José Saramago sugere um romance entre o Messias e Maria Madalena. Nem a peça quase-censurada era novidade. Foi apresentada no Recife em maio, no Trema Festival, sem causar nenhum levante.
Não foi “o povo cristão” que se revoltou contra o espetáculo. O ódio, contrário aos ensinamentos de Jesus, vem de pessoas que se movem por interesses eleitoreiros. Como explicar tanta raiva diante de um espetáculo que nem assistiram? Não foram poucas, registre-se, as lideranças religiosas que se posicionaram contra a censura. Compreendem que a liberdade artística não precisa estar em lado oposto à fé de cada pessoa.
Dessa vez, venceu a liberdade de expressão. Mas não se pode baixar a guarda. A defesa da laicidade do Estado permanece sendo uma das mais importantes lutas da nossa contemporaneidade.
*Vereador do Recife pelo PSOL
 

Editado por: Catarina de Angola

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