ELEIÇÕES 2018

Agora no PCdoB, João Paulo reúne PT e PSB em lançamento de candidatura

A esquerda da Frente Popular se fez presente no ato, que contou ainda com candidata a vice-presidenta Manuela D'Ávila

Brasil de Fato | Recife (PE)

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Geraldo Julio e Paulo Camara, adversários nos últimos pleitos, subiram no palanque do ex-petista / Vinícius Sobreira/Brasil de Fato

O lançamento da campanha de João Paulo à Assembleia Legislativa de Pernambuco uniu no mesmo palanque figuras que até pouco tempo não poderíamos imaginar unidas. O ex-prefeito do Recife, recém saído do PT e agora no PCdoB, contou com a presença e os elogios do atual prefeito Geraldo Julio (PSB). Os dois foram adversários nas eleições de 2016, sob um clima acirrado entre os partidos, já que meses antes o PSB apoiara o impeachment da presidenta Dilma Rousseff (PT). Mas diante do Governo Temer, o PSB ensaia um retorno às origens, voltando à esquerda e firmando aliança com o PT em Pernambuco.

E o palanque de João Paulo refletiu isso, unindo figuras destacadas do PSB, como o governador Paulo Camara e o prefeito Geraldo Julio, e do PT, como o presidente estadual do partido, Bruno Ribeiro; o candidato a deputado federal Odacy Amorim; o senador candidato à reeleição Humberto Costa; e mais importante, uma enorme quantidade de militantes petistas simpáticos a João Paulo e que estavam no ato político. Entre os militantes, alguns nomes conhecidos, como Marcelo Santa Cruz, Inaldo Metalúrgico, Jurandir Liberal e José de Oliveira.

Ex-adversário de João Paulo, o prefeito Geraldo Julio (PSB) chamou o agora aliado de "amigo". "Você é um grande homem, um amigo, companheiro, com décadas de luta pelo povo do Recife e de Pernambuco. Tenho certeza de que você terá uma grande votação, uma bela eleição, para você continuar nessa luta revolucionária", disse Geraldo. Com adesivos de Lula no peito, o prefeito do Recife se comprometeu fazer campanha pelo candidato petista à Presidência da República. "Com Lula, mais de 40 milhões de brasileiros tiveram emprego, tiveram a carteira de trabalho assinada pela primeira vez, tiveram crédito, faculdade. Estamos aqui pelo que Lula fez e pelo que ele fará. Lula, fique tranquilo, porque Pernambuco vai ajudar você a voltar para Brasília", prometeu.

No palanque, João Paulo demonstrou mais animação que nas suas duas últimas disputas eleitorais: para o senado, em 2014; e para a prefeitura, em 2016. "Queremos um mundo onde as pessoas possam ter casa, saneamento, saúde, cultura, possam conviver com suas famílias num país soberano. Essa causa nos uniu e nos animou, nos deu esperança política. É isso que quero junto aos camaradas do PT, do PCdoB e todos os companheiros da esquerda", afirmou.

Entre reflexões sobre sua meditação transcendental e citações de livros de Jorge Amado, o ex-prefeito resgatou sua história de militância operária e nas pastorais católicas durante a juventude no Ibura, falou de memórias e leituras que alimentam seu sonho revolucionário. "Vamos construir um projeto e disputar o poder para entregá-lo a quem deve ter o poder, que acima de tudo é do povo. Vamos fazer essa corrente revolucionária, por um mundo melhor, mais justo e socialista".

O governador Paulo Camara, candidato à reeleição, disse acreditar que Pernambuco se reafirmará como "campo de resistência a tudo o que está acontecendo no Brasil". "Por isso esse esforço tão grande de unificar o campo popular, o campo da esquerda, o campo que sempre fez bem a Pernambuco quando esteve junto". Em sua fala, também agradeceu a oportunidade de estarem todos juntos. "Vir aqui hoje reafirma os nossos valores e compromissos". Ele criticou a agenda econômica do governo Temer, afirmando que ela "retira direitos e destrói as conquistas daqueles que mais precisam do nosso apoio e ajuda".

O governador também destacou sua posição contra a privatização do sistema Eletrobras e da Companhia Hidrelétrica do São Francisco (Chesf), sendo lembrado em outras falas como um dos principais articuladores dos governadores do Nordeste, que se posicionaram publicamente contra o projeto. Paulo também fustigou a chapa oposicionista, liderada por Armando Monteiro (PTB) e os ex-ministros de Temer Bruno Araújo (PSDB) e Mendonça Filho (DEM). "Não podemos deixar que essa oposição que está aí, eles que são 'a turma de Temer', não podemos deixar que eles tragam para Pernambuco a agenda de Temer. Nosso estado não vai permitir", afirmou Camara. Sobre sua gestão, ele disse ainda ter muito a avançar, citando principalmente a segurança pública, o saneamento básico, a saúde e a educação. "Para mudar essas coisas é muito importante a unidade da esquerda", pontua.

A candidata a vice-governadora na chapa de Paulo Camara, Luciana Santos (PCdoB), saiu em defesa do governo Paulo Camara. "Ser bom no bom é fácil, mas quero ver ser bom no momento ruim. E Paulo está mantendo Pernambuco de pé em meio à crise nacional", defendeu. A ex-prefeita de Olinda animou a militância com gritos de "vai avançar a unidade popular" e destacou que o objetivo da retomada dessa aliança PCdoB-PSB-PT é para "resgatar os tempos áureos do estado, quando tivemos Eduardo e Lula trabalhando por Pernambuco".

Companheira de partido de João Paulo e Luciana, a candidata a vice-presidente da República na chapa do PT, Manuela D'Ávila, também saiu em defesa do governo Paulo Camara. "É difícil ser bom no tempo difícil, ainda mais tendo em Brasília um governo que cortou recursos para Pernambuco só para fazer sacanagem política, como fez o governo Temer", disparou Manuela. A comunista dedicou a maior parte de sua fala ao presidente Lula. "Pernambuco vai devolver ao Brasil esse filho de sua terra, que é Lula", iniciou. A candidata disse ainda que "nenhum brasileiro ou brasileira, sozinho, conseguiu mudar tanto o Brasil como Lula conseguiu". "Ninguém pode dizer que fez mais do que Lula por este país".

Sobre a prisão de Lula, ela parafraseou o petista e disse que, apesar da prisão física, os sonhos despertados na população não serão presos. "Eles não podem prender o sonho da dona de casa que hoje tem um cartão do Bolsa Família para dar dignidade a seus filhos, não podem prender o sonho da chefe de família de ter em mãos a chave da casa própria do Minha Casa Minha Vida, o sonho de um país que na hora da crise não puna os mais pobres".

Outros nomes do PCdoB presentes eram o secretário estadual de Cultura, Marcelino Granja; o vice-prefeito do Recife e que foi também vice de João Paulo, Luciano Siqueira; e o ex-prefeito de Olinda Renildo Calheiros, candidato a deputado federal e citado em todas as falas como grande articulador e um dos principais responsáveis por "costurar" a retomada das relações entre PT e PSB.

O senador Humberto Costa (PT), candidato à reeleição, também mostrou um tom bem mais brando que noutros tempos ao tratar do governo dos agora aliados do PSB. "Tenho certeza que Paulo será reeleito, resultado de sua grande capacidade de gestão e articulação. E esse segundo mandato será ainda melhor que o primeiro". Circulando diariamente com os novos aliados durante os comícios e caminhadas de Paulo Camara, Humberto parece já estar à vontade, fazendo brincadeiras com os novos aliados enquanto afaga João Paulo. "Me desculpe, Geraldo Julio, você ainda tem três anos para batê-lo, mas até hoje João Paulo é o maior prefeito que o Recife já teve", afirmou para as risadas e aplausos do prefeito do Recife.

Ao analisar as centenas de pessoas presentes no lançamento da candidatura de João Paulo, Humberto também brincou. "E pelo que estou vendo, a maioria do pessoal aqui é do PT - a não ser que você já tenha filiado todos ao PCdoB". Sobre a candidatura de Lula, o senador falou com certo entusiasmo sobre o que chamou de "desobediência civil" do eleitorado. "Lula está impossibilitado de ter contato direto com as pessoas, mas mesmo assim ele está à frente nas pesquisas​. Isso é uma demonstração de desobediência civil. É o povo dizendo para as elites que é assim que o povo quer, é Lula que o povo quer".

Edição: Monyse Ravena