Entrevista

Cátia de França, a filha de uma negra que deu aula quando nenhuma podia abrir a boca

A compositora, que leva no canto a voracidade da mãe, fala do boicote da mídia e do papel político da arte

Brasil de Fato | Belo Horizonte (MG)

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Cátia nasceu na Paraíba e, como ela mesma diz, tem “acidentalmente” 71 anos / Foto: Eric Gomes/Divulgação

"Eu tenho dois pés / dor dos meus olhos / vai pros meus pés / e dos meus pés / pra dentro da terra / da terra para a morte"

Diz a cantora e compositora Cátia de França nos versos da música "Kukukaya". Como ela mesma define, a canção é um arrebatamento. Arrebatamento que vem de um povo perseguido, de quem tem no sangue a dor dos índios, negros, ciganos. Nesta entrevista, ela, que nasceu na Paraíba e tem “acidentalmente” 71 anos, mas lá dentro continua menina, fala para o Brasil de Fato do papel da arte e do seu posicionamento político. Cátia também conta de sua morte – a mídia –, e de sua ressurreição – a internet.

Brasil de Fato - Como você classifica a sua música e por que ela não está tocando nos grandes meios de comunicação?

Cátia de França - O que é a minha música… Ela é uma soma daquilo que foi. Começa tudo na família, sobre quem foi minha mãe, Adélia de França, a primeira negra a lecionar na Paraíba. Ela se foi na década de 1980. A âncora da minha música não está apoiada em algo que não tem consistência. Tudo começa e deságua na minha mãe. Tenho uma argamassa que vem de Adélia de França. Eu não sou tocada na rádio por ser filha de Adélia, a negra que lecionou, quando nenhuma negra podia abrir a boca. 

Minha música também vem dos livros, do que eu leio. Eu digo que quando eu leio um livro, eu engravido. A minha música é o que eu leio, uma frase que me é dita, que eu ouço. Saber ouvir me sacode. É o constante pipocado. Dentro do ônibus, as coisas que as pessoas dizem… Minha música é isso. É o que os livros me concedem. Manoel de Barros tá impregnado, Zé Lins do Rego… É tudo minucioso. Eu bebo nessa fonte e me torno eterna. E a mídia me esnoba, mas a internet me foi a ressurreição. A minha música incomoda.  

Como é sua relação com a mídia?

Quando a música não vem embrulhada em beleza física… Porque eu não tenho as pernas lindas de uma Elba Ramalho, eu não tenho a insinuação de uma Tânia Alves. Então, eu tenho que vencer pelo que eu defendo. O meu trabalho não tem preço e me violenta só discutir dinheiro. 

De repente, a internet me coloca na linha de frente. É uma responsabilidade grande, mas eu não tenho medo, porque os 71 anos que eu carrego me dão consistência de repousar com a consciência tranquila porque eu nunca me vendi. E a direita me acenou para eu entrar nessa porta larga da pouca vergonha. Mas minha mãe tinha como livro de cabeceira o "Geografia da Fome" [do Josué de Castro], os pôsteres da minha casa eram Dom Helder e Che Guevara. Eu andei por essas vias e não posso nunca passar por cima disso pra ter uma tranquilidade financeira. 

Minha mãe não era de religião nenhuma, sabia podre de cada uma, mas ela viu que se deixasse a única filha negra sem religião, eu não seria aceita em colégio nenhum. Com 12 anos fiz minha primeira comunhão, foi quando eu ganhei o meu primeiro piano. Depois ela me botou num colégio evangélico, onde fui de um jeito e voltei de outro. É que eu fui pega no corredor cantando Elvis Presley, imitando o que eles chamam de música do demônio. Depois disso me doutrinaram, voltei doutrinada, e minha mãe me botou pra estudar música. Ela disse "minha filha toca música desde os quatro anos de idade, mas foi pra um colégio e voltou assim". E é por aí que eu começo na música popular.

Quando eu chego pra cantar, quase sempre esperam a artista loura, linda, a mais gostosa, insinuante. Eles se decepcionam. Depois que eu me apresento, todo mundo é meu conterrâneo. Todo mundo chega perto depois que eu matei o leão. Eu venço por isso, e fico com três metros de altura porque tô defendendo o meu feijão.

Como você vê as mulheres no mundo da arte? Tanto na forma como elas são representadas e como elas atuam.

Eu me lembro de 1979. Quais eram as mulheres que estavam fazendo música na época? São dois eixos. Tem o que transita livremente pela mídia, que era a Gal, Bethânia, e tinha também as que incomodavam, que era a Marli Miranda, Sueli Costa… Várias. A Elza [Soares] anda nos dois caminhos e não se contamina, principalmente a Elza de hoje. Mas o que fazer e como representar? O grande divisor de águas é a sobrevivência. É fazer sucesso, ter um retorno rápido, ser reconhecida. Mas é muito fácil se deixar levar e se inebriar, por isso a responsabilidade é enorme. Eu acho que cada vez que eu subo no palco é um ato político, por causa de todas as coisas que eu defendo. Minha música “Kukukaya” é um arrebatamento que vem de um povo perseguido. Eu tenho no meu sangue descendência cigana, negra e índia. Então, eu luto por isso. E isso não termina nunca.

No atual contexto político e social do Brasil, qual seria a contribuição do setor cultural, o que essa área tem a oferecer para o povo brasileiro?

Ô xente! Começa é com a gente. Veja só, Lula tá preso e nas pesquisas de opinião ele tá na frente. Então, somos nós que criamos esse tsunami pra não haver acomodamento. Essa Copa do Mundo foi muito boa pra eles. Na calada da noite aberrações políticas foram decididas porque tava todo mundo botando as esperanças nos ombros de Neymar e ouvindo os doutrinamentos de Galvão Bueno. Então, somos nós e tem que ser veementes, porque os jornais sempre mentem. Por que eles não colocam o MST marchando feliz na estrada? Porque não interessa, porque existe um monopólio jornalístico que continua dando as cartas nesse jogo sórdido.

Nós precisamos desarrumar isso, não com apitaço e nem panelaço, tem que sacudir. E nós temos uma coisa muito a favor, porque antes dependíamos do mimeógrafo. Hoje não, você aciona uma tecla no celular, pede ajuda da tal da Siri, uma mulher insinuante que tem dentro do Iphone. Essa danada dessa Siri… O que eu digo é que a gente tem isso na mão. A Copa se foi e outubro está chegando. Menina, e tem um programa que pergunta "o que a gente quer do Brasil”! É incrível isso, né, como eles dão uma mão e pegam a outra e confundem toda a gente. É uma areia movediça tremenda. Ou seja, não podemos cansar de ficar em cima, porque acabou o ópio. O momento é esse, tem uma ameaça perene aí. Não tem pra onde correr. Não é só o sapato brasileiro que tá apertando, existe uma tendência de direita terrível pelo mundo afora. O presidente dos EUA [Donald Trump] tem aquela coisa de um menino que o pai alisou muito a cabeça e virou essa incongruência aí. É isso, nós temos que ir. Convocou, tem que ir. Não tem como esperar que a roupa enxugue sozinha.

A juventude canta muito as suas músicas. O que você acha disso e qual mensagem você deixa para os jovens? 

Ah, isso foi a maior alegria. Eu cantei no Circo Voador em 1984, e cantei lá agora porque estava lançando um disco com respaldo financeiro da Natura. E de repente, a plateia cantando a letra comigo. Eu chorei por dentro. Isso foi um soco no estômago, um haraquiri. Foi a minha ressurreição na mídia burra.  O recado pra juventude é que que não cochile, não se engane.

É isso: sacudam. É vocês que vão mexer. Nada é impossível, e isso não é uma pieguice religiosa. Deus é brasileiro. É um golpe dentro do outro, e não fiquem achando que passou, porque todo dia tá aprovado um retrocesso. A gente perdeu muito terreno por inércia. Mas não é só os jovens, tá na mão de todos nós. Eu tenho responsabilidade, todos nós que fazemos teatro, música, tudo. Acidentalmente, tenho 71 anos, mas continuo uma menina lá dentro.

Edição: Joana Tavares